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quinta-feira, 2 de julho de 2009

PRINCÍPIOS NORTEADORES DA INTERPRETAÇÃO

 

Na ciência hermenêutica são estudados os princípios, as leis e as normas que regem a exegese. Como viés prático da interpretação, a exegese está condicionada àquela. Neste espaço dá-se atenção à hermenêutica de uma perspectiva o mais abrangentemente possível, tratando dos princípios mais gerais que dirigem a mente do teólogo na tarefa exegética.

Os princípios de interpretação, chamados aqui de "norteadores", são nomeados por Batista Mondin, em seu Antropologia Teológica, de "Princípios Supremos". Nesta abordagem, evita-se o adjetivo "supremo", visto haver no mesmo um grau de glamour desmesurado. O Adjetivo "norteador" parece mais adequado enquanto termo mais moderado, pois que se quer apenas passar a idéia do balizamento operado por tais princípios no ato do teologar exegético.

 

Princípios Norteadores são aqueles que dirigem conceitual e metodologicamente o intérprete no trabalho teológico-exegético. Especificamente, dois são os Princípios Norteadores: Arquitetônico e Hermenêutico. O primeiro possibilita o referencial teórico e o segundo, o referencial metodológico.

 

Princípio Arquitetônico

O Princípio Arquitetônico, em teologia, é um mistério fundamental da revelação que absorve a compreensão do exegeta. Aquela verdade da revelação que mais brilha na mente do teólogo. Uma verdade que faz o coração arder e ser cheio de alegria, além de direcionar o seu raciocínio conceitualmente. Dito assim parece enfocar um aspecto subjetivista; aliás, como ser absolutamente objetivo no ato da interpretação? Parece não haver método que libere o exegeta da participação de sua subjetividade no ato interpretativo.

O entendimento do Princípio Arquitetônico como "mistério" é passível de questionamento visto incorrer em um juízo relativo à condição particular de cada hermeneuta. Aquilo que para alguns pode ser considerado como "mistério", para outros pode ser considerado apenas como um assunto de difícil compreensão. E, neste caso, se dá não pelo assunto ser um "mistério" em si, mas por se tratar das limitações epistemológico-teológicas do tal intérprete. O fator "mistério" pode dever-se muito mais às limitações de quem estuda as supostas verdades da revelação, e não meramente ao fato de que a suposta revelação esteja "encoberta" por iniciativa do divino. "Mistério", portanto, apresenta-se com duas possibilidades de conceituação: a) um conhecimento não revelado integralmente pela divindade (mistério num sentido especificamente teológico); e b) um conhecimento meramente não alcançado no momento, por limitações de ordem puramente humana (mistério num sentido puramente epistemológico).

O Princípio Arquitetônico é elaborado a partir da revelação de Deus, tanto a partir da revelação natural, como a partir da revelação especial (Bíblia). As verdades da revelação que podem ser tidas como Princípios Arquitetônicos são: o amor de Deus, a sua misericórdia, a sua graça, a soberania divina, e outras verdades teológicas. Um teólogo poderá assumir a soberania de Deus como verdade fundamental do seu sistema teológico; outro poderá escolher o Cristo como lógos de Deus; outro escolherá a Igreja como seu Princípio Arquitetônico (princípio eclesiológico), etc. As possibilidades são praticamente infinitas, como infinitas são as verdades divinas. O Princípio Arquitetônico escolhido dirigirá conceitual e referencialmente a interpretação teológica, restringindo ou mesmo evitando uma visão por outro prisma; a não ser que o teólogo mude de princípio ou consiga conjugá-lo sinteticamente a outro princípio. Durante todo o processo teologal, o Princípio Arquitetônico, ou Perspectiva Teológica, mantém a mente do teólogo dirigida por uma consciência que reflete aquela verdade da revelação que mais lhe chama a atenção ou que mais lhe absorve o entendimento. Quer dizer que em toda reflexão teológica estarão sempre presentes as impressões de uma verdade bíblica que mais permeia e condiciona todo o teologar. Quando o teólogo aborda qualquer assunto da revelação, estará sempre a manifestar as diretrizes daquela verdade, daquele suposto mistério da revelação, que mais lhe domina a mente.

 

Princípio Hermenêutico

O Princípio Hermenêutico refere-se à Perspectiva Filosófica assumida pelo teólogo. Este é o princípio "ponte" entre o teólogo e os receptores de sua interpretação. É o terreno muitas vezes comum ao teólogo e ao receptor de sua interpretação. É o elemento cultural favorável ao diálogo teológico enquanto permite que a razão de ambos, teólogo e interlocutor, possa intercambiar-se nos assuntos da revelação.

Toda época é dominada por uma Perspectiva Filosófica comum aos seus contemporâneos. Mas não se deve esquecer que perspectivas filosóficas não comuns podem ser existenciadas à margem da perspectiva mais vigente. Um exemplo de perspectiva filosófica é o racionalismo de Descartes, vigente ainda na contemporaneidade. Daí muitos teólogos racionalistas ocuparem as fileiras do cristianismo no passado e em nossos dias. E isso acontece muitas vezes sem os próprios teólogos terem consciência da perspectiva filosófica dominante em seu trabalho. Em teólogos mais avisados existe uma consciência de sua situação filosófica. Até mesmo naqueles ditos fundamentalistas pode-se divisar a sua comunhão com uma perspectiva filosófica. O fato é que se torna praticamente impossível o teólogo esquivar-se dessa realidade metodológica.

Enquanto Princípio Hermenêutico, a Perspectiva filosófica remete-se ao elemento racional que dirigirá ou ditará o método a ser usado na reflexão teológica. Neste caso, a Perspectiva Filosófica apresenta o método que encaminha a Perspectiva Teológica ou Princípio Arquitetônico no teologar.

O Princípio Hermenêutico apresenta-se através de uma visão filosófica assumida pelo teólogo. Há várias opções de visão filosófica seguidas pelos teólogos; mesmo quando o teólogo não consegue criar uma visão filosófica própria. É impossível não haver escolha de um sistema filosófico como diretriz para o trabalho teológico. Mesmo que inconscientemente, o teólogo faz uma opção filosófica; e esta escolha não é absolutamente voluntária. A opção filosófica vai se apresentando na reflexão do teólogo à medida que este vai elaborando suas leituras, seus estudos. A partir de certo ponto da construção ou organização de um sistema teológico, torna-se nítida uma visão filosófica, cujo método de abordagem, indutivista, deducionista ou outro qualquer, caracterizar-se-á por traços de uma filosofia já existente ou de filosofia elaborada pelo próprio teólogo. Pode-se mesmo observar teólogo que se ajusta a uma visão filosófica já existente, mesmo que queira dela se esquivar. Paul Tillich opõe-se a Barth quanto à Perspectiva Filosófica, visto este rejeitar "a utilização da filosofia como princípio hermenêutico". No entanto, o mesmo Barth, em sua obra Die lehre vom Worte Gottes. Prolegomena zur christlicher Dogmatik , reconhece que Lutero e Calvino, dois adversários ferrenhos de qualquer emprego da filosofia na interpretação da Palavra de Deus, não puderam ler as Escrituras sem o auxílio dos óculos da filosofia. Ambos usaram óculos platônicos: com a única diferença de que os de Lutero eram neoplatônicos (Batista Mondin). Embora, estando Calvino na mesma linha de Agostinho, nada impede de vê-lo também como um possível neoplatônico.

Abordagens filosóficas assumidas por diversos teólogos: Hegelianismo, Platonismo, Aristotelismo, Kantismo, Existencialismo, Positivismo, Humanismo, Secularismo, Evolucionismo, Relativismo, Racionalismo, Ceticismo, Estoicismo, Epicurismo, etc.

A título de exemplo, se o Princípio Arquitetônico, ou teológico, escolhido for o amor divino, poderá haver escolha de um Princípio Hermenêutico que se adéque àquele. Talvez o Platonismo ou, quem sabe, o Existencialismo. Sendo o Kerigma, o Princípio Arquitetônico escolhido, poderá o Princípio Hermenêutico ser o Existencialismo Heideggeriano. É o caso de Rudolf Bultmann, dito literalmente pelo mesmo em seu Jesus Cristo e Mitologia.

No entanto, a ênfase de outrem poderá ser colocada no Princípio Hermenêutico, escolhendo-se um dos "ismos" apresentados ou outro qualquer. Um teólogo que escolhe como Princípio Hermenêutico o Relativismo poderá ter como Princípio Arquitetônico a transcendência divina e sua escapabilidade dos sistemas culturais humanos, podendo assim, interpretar a Bíblia com total liberdade de interpretação. Isto não significa necessariamente que o teólogo estará livre para fazer a Bíblia dizer o que ele quer que seja dito, mas antes que as Escrituras dizem aquilo que, pela pesquisa, o teólogo ficou convencido de que ela diz.

Vale observar que alguns teólogos são conduzidos preponderantemente pela perspectiva filosófica assumida por sua denominação religiosa, quer esta admita ou não o fato de sua opção filosófica.

O fato é que a compreensão que o teólogo tem da realidade, sua cosmovisão, sua perspectiva filosófica, dominará e até condicionará a interpretação teológica.

Permanece a impossibilidade de se escapar de ambos os princípios. Seja consciente ou inconscientemente, todos os teólogos encontram-se comprometidos com um Princípio Arquitetônico e com um Princípio Hermenêutico.

Willians Moreira

wmpresente@gmail.com

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