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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

VIOLÊNCIA INTRAESPÉCIE

VIOLÊNCIA INTRAESPÉCIE

 

            Por mais que se saiba que a violência é uma das características da natureza, e isso em todas as espécies de animais, alguns indivíduos não se acostumam com a sua incidência.

            Hoje pela manhã, perguntei-me sobre em que estado se encontra um ser ao agredir a outro, de sua espécie ou não, ao ponto de executá-lo sumariamente. Pessoalmente, nunca me encontrei em situação que precisasse agredir a alguém até a morte, embora tenha eu, no passado, cometido algumas ações violentas. A primeira circunstância de que me lembro, aconteceu em São Paulo-SP. Contou-me minha mãe que, aos meus quatro anos de idade, envolvi-me numa briga na escola. Quinze dias antes, um garoto me derrubou de um brinquedo, no parque, e, como resultado, meu braço esquerdo foi quebrado. Quando voltei à escola, depois da cura do braço, procurei o menino e "acertei as contas" com ele. Minha mãe foi chamada à escola. Não sei o desfecho desse acontecimento. Lembro-me de outra vez, quando adolescente em Caruaru – PE, em que me aproveitei de uma situação para ir à desforra com um conhecido de rua que vivia a me jurar de uma surra. Várias vezes ele prometeu me bater. E ele teria condições de o fazer mesmo. Todas às vezes, eu conseguia me esquivar e sair ileso. Mas eu descobri que ele tinha muito medo de seu pai e este não o queria ver a brigar na rua. E se o visse assim, puni-lo-ia. Pois bem! Numa tarde, quando brincávamos na rua, eu observei que o pai do menino aproximava-se. Prontamente tive a idéia de me aproveitar do momento e parti para a agressão. Enquanto eu o esmurrava, avisava-lhe de que seu pai estava perto. Ele ficou pretificado, enquanto eu o esmurrava. Quando o pai dele se aproximou mais, eu corri para casa. Não me lembro de mais algum momento em que estivemos frente a frente. O fato é que "lavei" meu ego.

            Pelo que me consta, em ambos os acontecimentos a violência que pratiquei aconteceu em função de motivações dos meus opositores. Mas me pergunto o que os motivou a agirem comigo como agiram. Por que queriam fazer-me mal? Teria sido gratuitamente ou em sua subjetividade sentiam-se, por algum motivo de minha parte, estimulados a me agredir? Que fazia eu, passivamente, ou não fazia?

            Hoje, pela manhã, quando acordei fui à varanda, como sempre faço, para observar as aves que são minhas vizinhas. Pude presenciar uma violência que me enojou. Um galo agredia a outro seu igual, de forma horrenda. O agredido já não reagia. Moribundo, foi arriando no chão, enquanto o rival o picava por todos os lados da cabeça, e aplicando-lhe os esporões. Depois de alguns segundos, não suportei mais a cena e me retirei. Não podia fazer nada mesmo. A sensação de impotência foi terrível. Mas me lembrei de que a natureza, não só os humanos, tem no seu escopo a prática da violência. Quer queiramos ou não.
Willians Moreira

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

NATUREZA HUMANA – PECADO ORIGINAL - DECORRÊNCIAS TEOLÓGICAS, ÉTICAS E EXISTENCIAIS

            Se a (r)amartologia[1] (doutrina do pecado) tradicional estiver certa quanto ao que ensina sobre o Pecado Original; se Pelágio[2] não tinha razão quanto ao que ensinava, parece que a teologia tradicional[3] precisa enfrentar decorrências seriíssimas, mais do que se imagina nos redis cristãos. E isto não significa que eu seja pelagiano, diga-se de passagem.

            A tese é: Se o homem é pecador por natureza, o "gérmen" de todas as práticas do pecado encontra-se essencialmente em sua constituição. Sendo assim, desde a sua concepção o homem está condenado pela divindade, pois que o Pecado Original, desde a suposta queda do primeiro Adão, passou a ser parte intrínseca da natureza humana, seja por traducionismo[4] ou por mera hereditariedade.  Os sete pecados capitais[5] e suas ramificações encontram-se na natureza humana, essencial e potencialmente[6]. Esse pecado potencial torna-se ato ou não em função de direcionamentos possíveis que aconteçam durante a vida do humano. Esse raciocínio explica porque o homem se dá a comportamentos diversos, como também pode explicar porque muitos vivem práticas condenadas pela própria sociedade. O curioso nessa relação é que a mesma sociedade que condenada o pecado é a mesma que o estimula. Por outras palavras, potencialmente, enquanto depositário do Pecado Original, o homem está condenado pela divindade. Enquanto depositário de uma cultura, o homem poderá comportar-se como bem ou mal lhe for o caso, em consonância com sua natureza. Ora, desde que para a interpretação de uma teologia tradicional a cultura é expressão própria do pecado, pois que "o mundo jaz no maligno"[7], qualquer comportamento humano isolado da divindade é pecado, mesmo seus atos de justiça "são como trapo de imundícia" (Isaías 64:6)[8]. Este é o resultado de uma dedução bíblico-teológica-essencialista[9] reducionista[10]: Todo o ser do homem é explicado por uma interpretação teológica, hoje anacrônica, de uma época destituída de tinos necessários a uma antropologia hoje pertinente. Decorre disto que, quando censuramos a alguém por conta de seus atos, ou mesmo o condenamos num tribunal, estamos a nos condenar a nós mesmos, pois que temos potencialmente o mesmo pecado, embora ainda não em ato. Compreende-se assim o lembrete Paulino: "Aquele que estiver de pé, abra do olho: não caia"[11].

            Um dos problemas que essa interpretação reducionista acarreta é a constante expectativa de que os relacionamentos possam desandar, unicamente por conta do pecado que não meramente está, mas é parte do homem. Existencialmente, o homem caminha por esta terra, marcado pela desconfiança. Daí uma exegese inadequada de Jeremias 17:5[12], para se dizer que não se deve confiar em ninguém, e isso de uma perspectiva moral; ninguém merece confiança. As pessoas se relacionam, esforçando-se ao máximo para confiarem em quem amam, mas sempre sobressaltadas com as possibilidades de surpresas indesejáveis. O problema é que as portas são fechadas para quaisquer outras possibilidades de explicação dos problemas humanos, e aquele que é considerado culpado de algo só tem solução se praticar o arrependimento ou penitência, voltar para Deus, para assim ter solução em sua vida. Sem contar que, muitas vezes, além de lutar pela confiança de quem lhe condena, precisa também depositar valores na conta bancária de alguns interessados pela sua recuperação.

            Além da constante expectativa de que as relações não desandem, acontece o pior na mente humana, aturdida por aquela teologia reducionista: sensação constante de culpa. O raciocínio é: "Sou assim ou pratico isso porque sou pecador". É a expressão essencialista[13] do finado Paulo, contida em sua Carta aos Romanos: "Miserável homem que sou"[14], emitida por quem está petrificado pela ação de uma teologia medusóide[15]. É, na verdade, uma auto-imagem pessimista, embora racionalizada como realista. Será que os direcionamentos religiosos de muitos clientes de manicômios não contribuem pesadamente para tal estado de enfermidade mental? Enquanto em seus redis, esses enfermos são ensinados que, se não conseguirem alcançar uma compreensão devida da obra do Cristo, não lhes chegará cura tão cedo.

            Outra decorrência é o prejuízo do livre arbítrio. Se o homem é o que é, pecador por natureza, seu livre arbítrio é sempre relativo, condicionado mesmo, a esta natureza[16]. Diz-se assim, pois que o homem tende necessariamente à realização da sua natureza e nisto está o seu fim e, por conseqüência, a sua lei (isto se pensarmos aristotelicamente). Portanto, nenhum humano poderá fugir de tal sina. Mesmo não tendo participado ativamente do Pecado Original. Ou seja, cada exemplar da espécie humana já nasce com uma dívida que ele não contraiu pessoalmente e esta lhe é cobrada de forma que ele deve desdobrar-se para pagá-la. O problema, pois, se assevera: O homem tem uma dívida; mas como pagá-la, se sua natureza é justamente contrária ao pagamento? Como ser obediente a uma lei que é contrária à sua própria natureza, pois que seu livre arbítrio tende necessariamente para o lado oposto da lei? Decorre disso que, se sua salvação é exclusivamente por decisão da divindade, os que permanecem no pecado podem muito bem raciocinar: "Não me livro de tal pecado porque isto é da minha natureza e, além do mais, sou um preterido. Afinal, Deus tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer"[17]. É possível, sim, que esse raciocínio aconteça! Por que não? É possível, sim, mas também é problemático! Principalmente se for o caso de um homem pecar, sem saber que nisso incorre. Porque a divindade o permite e logo após o castiga, se aquele homem está inocente na situação? É o caso de Faraó, relatado em Gênesis[18]. A explicação de que a divindade sabe o que faz e porque faz é mera escapatória de mente, no mínimo preguiçosa, quando deveria reconhecer sua incompetência para a solução do problema teológico.

            Nesse passo, não há nenhuma crítica à divindade, mas um pedido de reconsideração em relação ao que se entende por Pecado Original, por Livre Arbítrio, por natureza pecaminosa e por tantos outros temas vinculados à teologia tradicional. Recorrer à tese da Soberania de Deus até que traz luz sobre o problema (Deus pode fazer as coisas do jeito que quiser), mas não é suficiente; Deus não age meramente por querer; e levar esta tese às últimas consequências complica a justiça divina. Isto será abordado quando do texto sobre a compreensão soteriológica[19] da Carta aos Romanos nos seus primeiros três capítulos.

            A esperança é que a produção teológica viabilize possibilidade de respostas para tal dificuldade contida na teologia tradicional sobre o pecado, levando em consideração implicações teológico-filosóficas contemporâneas, principalmente quando se tratar de assuntos relativos à existencialidade humana.

Willians Moreira



[1] Do grego, amartia e logia (hamartia e logia), respectivamente "pecado" e "ciência", estudo, doutrina.

[2] Pelágio (360 – 423 d. C.), monge britânico. Escreveu dois livros sobre o pecado, o livre arbítrio e a graça (Da natureza e Do livre-arbítrio). Seus opositores foram Agostinho e Jerônimo. Pelágio negava o pecado original; negava que a graça é essencial para a salvação; defendia um livre arbítrio absoluto. Foi condenado como herege pelo Concílio de Éfeso, em 431 (OLSON, Roger E.. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida, 2001. pag. 272.).

[3] Por teologia tradicional entenda-se a teologia que o cristianismo adota nos meios dominantes; teologia esta resultante ainda do pensamento medieval, nos meios protestantes e católico-romano. Teologia fundada em uma compreensão hermenêutica unicamente fideísta, que não abre espaço para interpretações fundadas em transdiciplinaridade cuja hermenêutica aponta para uma compreensão de mundo não reducionista.

[4] Segundo essa doutrina, tudo o que o homem é em sua completa constituição transmite aos seus descendentes quando os mesmos são gerados.

[5] Avareza, luxúria (ligado à vaidade), ira, melancolia, preguiça, gula e orgulho.

[6] Potencialmente, o homem é homossexual, bissexual, sodomita, hedonista, homicida, suicida, adúltero, ladrão, avarento, lascivo, preguiçoso, invejoso, e todas as ramificações possíveis dos sete pecados capitais.

[7] I João 5:19: "o` kosmoj o[loj en tw|ponhrw| keitai.ponhrw" reporta-se a um adjetivo que pode ser traduzido por "mal" ou por "diabo", a depender do contexto. Neste caso, maligno está associado ao diabo e, como tal, associa-se à degeneração ético-moral; é isso que não toca "aquele que é nascido de Deus (I Jo. 5:18).

[8] Isaias 64:6: "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; e todos nós caímos como a folha, e as nossas culpas, como um vento, nos arrebatam" (Almeida Revista e Corrigida).

[9] Por essencialista quer-se entender a compreensão antagônica à filosofia existencialista.

[10] Por reducionista quer-se entender aqui o pensamento que restringe a compreensão de um fenômeno a apenas uma possibilidade de o entender, não deixando espaço para outras possíveis explicação do mesmo fenômeno.

[11] I Coríntios 10:12: "Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia" (Almeida Revista e Corrigida).

[12] Jeremias 17:5: "Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem" (Almeida Revista e Corrigida).

[13] Nesse caso, claro, esteriotipa-se a compreensão paulina, mas apenas como forma de mostrar que as raízes do essencialismo não são tão recentes, como alguém poderia pensar.

[14] Romanos 7:24 (Almeida Revista e Corrigida).

[15] Reporte-se aqui ao mito grego da Medusa, personagem mitológica que paralisava quem a olhasse direto nos olhos.

[16] Romanos 6:20: "Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça". Um servo não faz a própria vontade, mas a do senhor.

[17] Romanos 9: 15, 16:  Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.

[18] Genêsis 12:10-20. Faraó tomou a mulher de Abraão sem saber que era mulher casada; afinal Abraão havia dito que ela era sua irmã (meia verdade). Por conta deste ato, Faraó foi castigado e muito. Quando o Faraó soube do fato, devolveu a mulher a seu marido. Ou seja, Deus permitiu que Faraó pecasse, mesmo que por ignorância, e depois o castigou. O que é complicado, se considerarmos a ação e Faraó como pecado.

[19] Do grego, sothri,a e logi,a (soteria e logia), respectivamente "salvação" e ciência, "discurso", estudo, doutrina.

domingo, 17 de outubro de 2010

POR UMA QUALIDADE E EXCELENCIA GRAMATICAL EM NOSSOS PÚLPITOS

    
Como o espaço deste Blog se presta também a puplicação de amigos interessados nos assuntos aqui privilegiados, temos a alegria de publicar o texto que segue, da autoria do Pr. Eliabe, pastor da 1ª Igreja Batista no Bairro de Santarém - Natal/RN.


POR UMA QUALIDADE E EXCELENCIA GRAMATICAL EM NOSSOS PÚLPITOS

A palavra é o instrumento de trabalho do pregador. Seja na expressão oral ou escrita. Uma das coisas que logo atraem ou repelem os ouvintes é a capacidade do orador de escolher corretamente as palavras e utilizá-las com precisão. Há pouco tempo deparei-me com este conceito de Evanildo Bechara: “o falante culto é... aquele que dispõe da consciência da prática da variedade da linguagem e de sua adequação às diversas situações de interação... deve ser um poliglota da própria língua... deve ser capaz de escolher a língua funcional adequada a cada momento de criação”¹.
Esta afirmação é extremamente apropriada quando pensamos que temos a responsabilidade de transmitir a melhor mensagem que a humanidade pode receber. Mas, infelizmente, percebe-se que muitos pregadores e professores, pessoas que lidam com a palavra em nossas igrejas, entregam um valioso presente embrulhado num papel qualquer. Temos algo maravilhoso a dizer, mas não nos preocupamos com o veículo de expressão: nosso idioma.
Ao intitular este artigo com a expressão: “por uma excelência”, não me refiro aqui ao pedantismo, o “falar difícil” só para impressionar. Particularmente, acredito que existem problemas de exagero e de ausência de intelectualismo em nossos púlpitos. É conhecida a narrativa atribuída a Rui Barbosa. Um ladrão foi surpreendido pelas palavras do jurista ao tentar roubar galinhas em seu quintal:
— Não o interpelo pelos bicos de bípedes palmípedes, nem pelo valor intrínseco dos retro citados galináceos, mas por ousares transpor os umbrais de minha residência. Se foi por mera ignorância, perdôo-te, mas se foi para abusar da minha alma prosopopéia, juro pelos tacões metabólicos dos meus calçados que dar-te-ei tamanha bordoada no alto da tua sinagoga que transformarei sua massa encefálica em cinzas cadavéricas.
O ladrão, todo sem graça, perguntou:
— Mas como é, seu Rui, eu posso levar o frango ou não??
Brincadeiras à parte, muitas vezes, ouvintes de determinados pregadores ficam com a expressão do ladrão da narrativa: não compreendem a linguagem do pregador. “No original grego”, “... no hebraico”, “a concretude da ideologia massificante atual”, “... o pluralismo exacerbado da dimensão eclesiológica protuberante em nossa dimensão contemporânea!” (esta última nem eu entendi). Ouvi certa vez de um pregador que orientava seus ouvintes a trazerem para a igreja, além da Bíblia e do Cantor Cristão, um dicionário da Língua Portuguesa.
Cabem aqui também as palavras do poeta Thiago de Mello: “Falar difícil é fácil. O difícil é falar fácil”. Talvez o que falte em tais pregadores seja a percepção do público alvo. Do nível cultural e da capacidade de compreensão dos ouvintes. Evidencia-se também uma dificuldade comunicativa de falar de coisas profundas em linguagem simples. Gosto de imaginar que o Senhor Jesus poderia ter formulado expressões e frases complexas utilizando termos e conceitos da filosofia e da retórica clássica, mas raramente o fez.
No outro extremo da corda está o problema da precariedade gramatical. São expressões como: “a gente vamos”, “a gente façamos”, além dos famigerados e viciantes gerundismos: “nos próximos dias nós estaremos realizando, enquanto os irmãos estarão  participando, e os visitantes estarão assistindo e também estarão ouvindo enquanto eu estarei pregando...”  E ainda tem o problema do né. Né?
Um problema de difícil solução é a limitação linguística. A ausência de criatividade na utilização de termos e palavras novas. Há pouco tempo, uma pesquisa revelou que o brasileiro utiliza pouquíssimas palavras no seu dia a dia. Tenho um minidicionário Houaiss com mais de 30.000 palavras e locuções da nossa língua. É triste verificar a pouca preocupação da maioria dos pregadores em se apropriar de tal riqueza de termos e expressões. Como não admirar os bons exemplos da utilização da língua portuguesa como o faz Antonio Vieira, Isaltino Coelho, Fausto Aguiar, Rubem Alves, e outros!
Pensar uma excelência gramatical pode significar sair do pedestal sem cair no banal. Ter uma oratória coerente, variada, precisa e que realmente dignifique a mensagem que transmite. Algumas estratégias podem ser adotadas: Em primeiro lugar, ler. Ler não apenas a Bíblia, livros teológicos ou a revista da EBD. Ler literatura, ler poesia; Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, Carlos Drummont. Aprender com os mestres do idioma. Com as novas tecnologias disponíveis. Outro recurso seria gravar suas próprias mensagens e depois avaliar sua compreensibilidade, dicção e qualidade de conteúdo. Muitos pregadores talvez se surpreendam negativamente ao se ouvirem e terão mais compaixão de seus ouvintes. Outra coisa que ajuda é um bom crítico. Um professor de português ou apenas algum irmão da igreja que atue como conselheiro nesta área também pode ajudar. No que se refere à escrita, nunca devemos olvidar do princípio básico: ler o que produziu e pedir para outra pessoa também ler, antes de enviar. Uma técnica que normalmente utilizo, para sair da monotonia de usar sempre as mesmas palavras com os meus ouvintes é enunciar uma expressão pouco conhecida e imediatamente associar um sinônimo mais conhecido, dessa forma eles rapidamente entendem o que digo com aquela palavra nova. A última orientação vem do ditado popular: “costume de casa...”; ou seja, falar correto mesmo em situações informais.
A palavra “excelente” vem do latim excellere e é formada pelo sufixo “ex” que, entre outras coisas, significa destacar-se, fugir do convencional. Aquele que consegue realizar um trabalho excelente logo se destaca e obtêm melhor reconhecimento e sucesso.
Para encerrar, um poema de Carlos Drummont:
A Palavra Mágica

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
  
¹ BECHARA, Evanildo (1985). Ensino da gramática. Opressão? Liberdade? São Paulo: Ática IN. PRETI, Dino. Estudos da Língua Ora e Escrita. Rio de Janeiro: Lucena, 2004, p.16.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A MEDIOCRIDADE DE MUITOS PREGADORES


            Tempos atrás, em sala de aula, um aluno me perguntou se eu aceitaria o cristianismo a depender da pregação atual. Parece-me que a pergunta surgiu em face da discussão sobre a mediocridade dos pregadores em geral. Estava a dizer que, na atualidade, dificilmente se ouve um pregador que tenha uma argumentação consistente; se é que se pode dizer que realmente argumentam. Na verdade, conta-se a dedo os que são dignos de serem ouvidos. A grande maioria argumenta pessimamente sobre assuntos banais. Assuntos que não fazem parte da gema do cristianismo. No mais das vezes, são abordagens infantis, ingênuas, emocionais, doutrinariamente desprovidas de embasamento bíblico-teológico; assuntos que o Cristo certamente com os tais não se preocuparia. Por exemplo: galardão, de que materiais são as mansões celestiais e coisas dessa natureza. Quando o assunto é pertinente, a argumentação é de baixa qualidade. Haja paciência! O problema com tais pregadores, na época da discussão, e ainda hoje pelo que me consta, é a falta de estudo responsável. Na época, eu dizia que aquela conversa de que o Espírito Santo dá o que o pregador falará, era uma desculpa para ratificar a preguiça da grande maioria de paroleiros do púlpito. A argumentação destes é horrível! Dizendo-se que a sabedoria do mundo é contra Deus, muitas vezes, expressa-se uma pneumatologia dos diabos. Haja paciência! Então, digam-me: Para quê os cursos teológicos? Talvez seja isso que explique porque há tantos estudantes medíocres em instituições teológicas. Dói-me o juízo ao me deparar com estudantes que revelam abertamente sua falta de consideração a si mesmos por não saberem o rudimentar, muitas vezes, já cursando disciplinas de final do curso teológico. Pergunto-me sempre: Que espécie de teólogo será este? Saberá mesmo dialogar com os sábios do mundo, os quais realmente existem? Saberá dialogar com os sábios da Igreja, não menos hábeis que aqueles? Como se não bastasse, muitos desses futuros teólogos, se os podemos chamar assim, como muitos cristãos do passado, quando não conseguirem entender os seus interlocutores e não defenderem bem sua própria teologia, dirão que aqueles são hereges. Ainda bem que a fogueira de hoje é apenas ideológica. Sorte nossa! Não seremos vítimas de uma apresentação pirotécnica. Haja paciência!
            Pois bem! A minha resposta àquele aluno foi que, se o cristianismo não me apreendesse enquanto eu na adolescência, certamente seria difícil, hoje, a depender de tais pregadores, enfileirar-me na senda cristã. Disse isso na época porque me lembrei também de um pregador que ouvia sempre e me encantava naqueles idos de minha puberdade. Mas depois que passei à adulticidade e o escutei novamente, fiquei estupefato com a sua mediocridade. Suas historinhas de carochinha, contadas para embalar a ignorância e a ingenuidade populares. Lembrei-me também de um colega de Seminário, hoje num alto cargo dos antros da política nacional, que eu acompanhava ao piano, quando ele ia pregar e cantar nas igrejas da capital pernambucana. Quando saíamos do evento religioso, eu lhe dizia: Como você pode falar aquelas coisas para o povo? Ele respondia que era aquilo que o povo queria ouvir. Eu ficava indignado. E ele ria de mim.
            Quantos, nos templos cristãos, não estão frustrados com o que ouvem dos diretores de creches espirituais? Líderes que mais querem que suas crianças permaneçam a tomar o leite azedo que lhes dão, mas que o fazem parecer com o néctar dos céus. Aqui me lembro do filósofo Epicuro, em sua carta ao discípulo Meneceu, Carta sobre a Felicidade, na qual ele diz: "Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria"[1]. Daí a minha preocupação com aqueles pregadores que dizem só o que o povo quer ouvir e, pior, de maneira medíocre. Aqueles conseguem assim encher os seus bolsos, atestando assim que as massas, além de insanas em seus juízos, nem mesmo requerem que seus mentores se habilitem para convencê-las com argumentos pertinentes.
            Sorte dos primatas humanos! A divindade não é mesmo, nem de longe, compatível com a imagem que dela pintam. Se o fosse, tais pregadores seriam os primeiros a serem consumidos pelo fogo do suposto inferno. Aí, sim, teríamos uma gloriosa demonstração de pirotecnia infernal à custa da banha dessas "vacas de basã", que vivem a explorar a humanidade.
Willians Moreira



[1] EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: Editora UNESP, 2002. Pág. 25.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

HOMEM PAVÃO

 

             Os machos de muitas espécies procuram de todas as formas possíveis à sua peculiaridade apresentarem-se às fêmeas de modo a conquistá-las; mesmo que seja uma conquista meramente platônica, no caso dos humanos. A abordagem às fêmeas entre os humanos tanto acontece de modo consciente, como também inconscientemente. O agravante entre os humanos é quando um macho apresenta-se à fêmea de outro macho. Como a espécie diz-se civilizada, pode usar de artifícios que camuflam a sua aproximação. Mas isso só passa despercebido em certas circunstâncias para indivíduos não treinados para esse tipo de percepção.
pavão.jpgEntre as aves, o pavão expõe sua calda com suas cores maravilhosas. Nesse caso, a própria natureza é responsável por tais cores. As fêmeas vêm as penas coloridas do macho e ficam como que enfeitiçadas. Naturalmente se deixam enredar em sua retórica biotípica.

            Entre os humanos, além da retórica biotípica, há também a retórica acadêmica, que funciona em relação a muitas fêmeas. O macho se apresenta ufanando-se de seu desempenho intelectual, literário, ou de qualquer outro tipo. Em outras palavras: "Eu sou; faço e aconteço". Como as fêmeas humanas aprenderam, em muitos casos, a levarem em consideração não só o biotipo físico, que garantiria uma prole privilegiada, também consideram outras possíveis vantagens daquele macho, que as poderão enredar numa relação. Enquanto a aproximação do macho acontecer com fêmeas descompromissadas, tudo pode ir bem. Porém, se há envolvimento com fêmea compromissada, começa uma saga de conflitos.

            As cores do "homem pavão" podem atrair também o macho da fêmea compromissada. Daí ao conflito falta pouco. Piora se a fêmea fizer feedback com o macho colorido. O problema é que o colorido desse macho não lhe é dado pela natureza; é resultado de sua estratégia de aproximação galanteadora. Colorido aquele que poderá se dissipar após a conquista realizada. E lá se vai o macho...

            Se a natureza seguir o seu curso no que concerne à aproximação sexual, o que poderá acontecer em situação como esta?

            Não se pode deixar de considerar que há humanos que se pavoneiam não só como estratégia de aproximação sexual, mas também para atraírem a atenção dos demais, de ambos os gêneros, face aos complexos psicológicos-emocionais os mais diversos.

            Cada um que se cuide, face à circunstância em que se encontrar.

            Saúde para você nas relações humanas!

Willians Moreira

terça-feira, 18 de maio de 2010

AFINIDADES ELETIVAS

 

Tanto o livro "Afinidades Eletivas", do grande Johann Wolfgang Von Goethe,  como o filme homônimo conseguem criar expectativa quanto ao desfecho da trama. O filme é uma adaptação do clássico de Goethe, dirigido por Paolo e Vittorio Taviani. O filme narra uma história trágica acontecida no século XVIII, na região de Toscana, Itália. Um casal rico hospeda uma afilhada da mulher e um amigo do esposo. A trama coloca os quatros personagens em situação afetiva terrivelmente desesperadora. O ápice da história é de conflitos existenciais perceptivelmente sugeríveis à reflexão. Devido às afinidades percebidas entre os circunstantes, surgem paixões avassaladoras e a situação se torna cada vez mais intrincada. O resultado é de desastres físicos e emocionais.

Considerando-se que o livro de Goethe é riquíssimo em detalhes esclarecedores da subjetividade dos personagens, o filme não repassa a contento tal característica, claro. Até por que não seria possível. Mesmo não sendo uma obra prima, o filme consegue chamar a atenção do expectador de forma completa.

Parece-me que o intento de Goethe era chamar a atenção para as possibilidades de relações entre homens e mulheres, não só nos aspectos sexuais, como também aspectos psicológicos e morais. O que, segundo me parece, ele o conseguiu muito bem.

Vale a pena assistir ao filme.

Willians Moreira


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Eu não sei fazer música, mas eu faço.
Eu não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto.
Ninguém sabe nada!
Ninguém sabe nada!
Ninguém sabe nada!" (TITÃS)

domingo, 9 de maio de 2010

TEMA DO FILME DJANGO - The_Good_the_bad_the_ugly

Por causa deste vídeo, lembrei-me das tardes de domingo, década de 70, século passado, quando ia ao cinema ver filmes de Far West - Filmes de caubóis e índios.
Saudade sem saudosismo!
WM

terça-feira, 30 de março de 2010

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRE ARBÍTRIO

 

            A abordagem sobre o Livre Arbítrio, do modo como a ortodoxia a elabora, via de regra, é superficial. Por vezes, a Ortodoxia preconiza uma radicalização sobre qualquer assunto por ela abordado, no mais das vezes, renegando a existência de inúmeras interpretações no âmbito do próprio cristianismo, que diferem de suas considerações. Em teologia, como em outras áreas do conhecimento humano, existem várias abordagens quanto a um mesmo assunto. Este fato alerta o inquiridor quanto a não ser prudente uma atitude dogmática, absolutizadora de conclusões sempre limitadas pelos condicionamentos do observador. Por cair neste calabouço, certas abordagens ortodoxas detêm-se apenas no que é aparente ao senso comum. E olhe lá que mesmo um senso comum mais elaborado teria outras considerações sobre um mesmo assunto. Num lance rápido, pergunta-se: quem usou o livre arbítrio para escolher o lugar onde nasceu? Quem escolheu os seus pais? Quem decidiu que devia nascer? Quem escolheu a própria etnia, a cor da pele, dos olhos, o tipo de cabelo, de sangue, etc.? Quem escolheu todas as realidades que fazem parte geneticamente do seu ser? E os condicionamentos da cultura que nos dirigem consciente ou inconscientemente, e que direcionam até mesmo o caráter do indivíduo, quem os escolheu?

            Livre arbítrio existe, mas parece ser sempre relativo aos nossos condicionamentos de conhecimento limitado, de educação situada em um contexto cultural que nos "amarra" às realidades que, consciente ou inconscientemente, dirigir-nos-ão em nossas decisões. Quer queiramos ou não, somos também produtos do meio. Por mais inusitada que seja a nossa reação ou a nossa decisão, não há como sermos isolados de antecedentes, de cedentes e de procedentes que nos indicam um caminho ou caminhos, condicionando a interpretação que fazemos das informações que recebemos.

            Autores existem que chamam a justiça divina em seu socorro. No entanto, neste particular, questiona-se: Sendo a justiça divina fundada em um conhecimento absoluto, julgaria radicalmente seres que tomam decisões fundadas em conhecimento relativo e sempre inacabado? Quando Jesus, no Calvário, disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem", ele incluiu em sua intercessão todos os responsáveis por sua crucificação. Para Jesus, seus algozes não sabiam o que estavam a fazer. Ora, quando sabemos absolutamente o que estamos a fazer? Quantos não se arrependem de algo praticado, mesmo tendo agido tão convictos do que faziam? Pelo fato de sermos dinâmicos, mudamos. E quando mudamos, descobrimos que ações do passado não seriam mais procedidas por nós do mesmo modo hoje. Observe que o próprio Jesus deu isto como exemplo, quando falou sobre duas cidades de seu tempo: "Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidon fossem feitos os mesmos milagres que aqui foram feitos, há muito que se teriam arrependido" (Mat. 11: 21-22). Então, se Deus está interessado no arrependimento humano do modo como muitos imaginam, por que Ele não providenciou que os milagres fossem feitos nas cidades de Tiro e Sidon também? Seria o caso: Deus decidiu que aquelas cidades não deveriam se arrepender, ou o julgamento divino não está vinculado ou meramente condicionado a um livre arbítrio relativo ao nosso conhecimento limitado e falho? E se houver outra possibilidade de entendimento desta situação? Desconfio de que a abordagem absolutizadora do texto em debate seja uma possibilidade.

            Um fato é que esta observação absolutista do livre arbítrio serve mais aos interesses dos direcionamentos religioso-moralistas, causadores de um terrorismo neurotizante e perturbador do sono alheio, quando não surte o feedback financeiro que muitos diretores de creches espirituais estão avidamente a desejar.

            Parece evidente que as normas morais, principalmente as que prescrevem o controle do livre arbítrio, camuflam o fato de que ter cuidado com "as causas e os efeitos" do que decidimos acontece mais em função de nós mesmos, a sociedade. Normas morais não nos fazem mais ou menos santos; conduzem-nos para que nos tornemos mais habilitados à convivência em uma determinada comunidade. Até porque as normas de "cá", que regem nosso livre arbítrio, podem diferir das normas de "lá". Decisões de um livre arbítrio da cultura árabe podem diferir estonteantemente das decisões do livre arbítrio cristão.

            Se assim é, parece viável uma existência com livre arbítrio não afeito à estorinha que diz: "tudo que aqui se faz aqui ou em alguma parte se paga". Esta estorinha é reflexo de uma ideologia infantil, quando não terrorista, conservadorista e inibidora de muita iniciativa reparadora de males cometidos por muitos humanos sabidinhos.

            Permanece, pois, o livre arbítrio; não o absoluto, aquele que estaria desvinculado de qualquer condicionamento da existência humana.

Willians Moreira

sexta-feira, 12 de março de 2010

NO (E EM) PRINCÍPIO ERA BATISTA

Fiz questão de publicar este texto de meu amigo Edvar Gimenes.
Este texto é de uma perpscácia fantástica: Expressa perfeitamente o espírito independente ante as tendências partidaristas que atacam as personalidades inconclusas, porém ávidas de uma âncora que nunca será possível alcançar.
 
 
NO  (E EM) PRINCÍPIO ERA BATISTA
 
Depois surgiu um grupo que era, além de batista, bíblico.
Não fui com eles, então disseram que eu era herege.

Surgiram então os regulares, ortodoxos.
Não fui com eles e disseram que eu era irregular, hétero...

 
Surgiram os conservadores.
Não fui com eles, então me carimbaram como progressista.

Surgiram então os do 7º dia.
Não fui com eles, pois não queria ser sabatista, só batista.

 
Surgiram então os renovados.
Não fui com eles e disseram que eu era tradicional.

Surgiram então os reformados.
Não fui com eles e disseram que eu era envelhecido, rachado, engoteirado.

 
Surgiram então os fundamentalistas.
Não fui com eles e disseram que eu era liberal.

Surgiram então os neo e os pós-pentecostais.
Não fui com eles então disseram que eu era um "Brastemp", racionalista.

 
Surgiram os "com propósito".
Não fui com eles, então disseram que eu estava vagando, sem direção.

Surgiram também os da "Rede".
Não cai nela e disseram que estava me afogando.

 
Surgiram os do G12.
Não fui com com eles, por isso disseram que eu era cego, sem visão.
 
Mantive-me no que outrora classificavam como tradicional,
Sabendo que a história não havia chegado ao final,
 
Eis que surgem os históricos.
Será que receberei o adjetivo "a-histórico" (ou "Anistórico"?)
ou soará melhor "pré-histórico"?

 
Bem, outros tipos de batistas existem por aí
E muitos novos pra sempre surgirão.
Não vou com eles nem contra eles,
Pois isto também é ser batista: poder ir ou ficar livremente

 
Sou batista porque ser batista é não ter,
Mas poder ser a própria crise de identidade e se aceitar e se assumir assim.
É conviver como que "quanticamente", num harmonioso estado de tensão,
Inclusive na contramão dos apocalipsistas de plantão.
Se alguém se ofender, peço, antecipadamente, perdão,
Pois não foi esta a minha intenção!!!

Edvar
http://blogdoedvar.blogspot.com/
www.ibgraca-ba.com.br

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A LÓGICA DO AQUÁRIO


            Raciocínio na língua grega diz-se logismo,j, (transl. loguismós), que tem a mesma raiz das palavras lo,goj, (transl. logos) e logiko,j (transl. loguikós), que são respectivamente traduzidas pelas palavras discurso e lógica.
O raciocínio consiste na capacidade de organização dos pensamentos para a elaboração de argumentos que levem a conclusões consideradas devidamente resultantes de uma cadeia de premissas. Por outras palavras, todos os processos de pensamento envolvendo argumentação, conclusão, inferência, indução, dedução, comparação, etc., são raciocínio.
Como não poderia deixar de acontecer, os teóricos têm lá suas diferenças quanto a conceituação de raciocínio, mas o fato é que, no final das contas, mesmo que usem caminhos diversos, acabam não fugindo da classificação fundamental que divide o raciocínio em dedutivo e indutivo, já estabelecida por Aristóteles em seu Organon.
A lógica, por sua vez, é a ciência que estuda os princípios e regras que dirigem o raciocínio. Aqui também os teóricos divergem quanto à conceituação.
Disto decorre que a lógica existe para corrigir raciocínio errado.
Aqui a lógica está como uma disciplina que dirige o raciocínio correto.
O que é raciocínio correto? Eis uma questão pertinente!
Quando escuto pessoas argumentando, procuro ligar o que elas dizem em suas premissas com aquilo que concluem em seus argumentos. Às vezes tenho até náusea por conta de querer entender como elas chegam àquelas conclusões. O fato é que elas costumam acreditar em absurdos, muitas vezes se defendendo com justificativas que só revelam o quanto elas estão dominadas pela ignorância.
Antes de contar duas experiências com este assunto, uso um exemplo sobre o que quero dizer com pensar logicamente; exemplo este tirado de um livro dos prefessores Cinara Nahra e Ivan Hingo Weber.[1] Siga os passos do argumento, com adaptação nossa.
"Um homem estava olhando uma foto, e alguém lhe perguntou: 'De quem é esta foto?'. Ao que ele respondeu: 'Não tenho irmãs nem irmãos, mas o pai deste homem é filho de meu pai'. De quem era a foto que o homem estava olhando?".
Pare um pouco e tente resolver por si mesmo este raciocínio.
A pergunta é: "De quem é esta foto?".
Os envolvidos na questão são:
- Aquele que pergunta; identificamos com "A";
- Aquele que olha a foto: "B";
- O homem fotografado: "X" por ser a incógnita.
Só tem importância aqui o homem que olhava a foto e fez a charada, "B".
Quais são as informações de "B"?
1 – "B não tem irmãos nem irmãs".
2 – "O pai do homem da foto é filho do pai do homem que olhava a foto".
Ou seja, o pai de X é filho do pai de B.
Ora, o pai de X é B.
Se B é pai de X, então X é filho de B. O problema está resolvido.
O homem da foto (X) é filho do homem que olhava a foto (B). Portanto, o homem olhava a foto de seu filho.
"Um homem olhava uma foto, e alguém lhe perguntou: De quem é esta foto? A resposta foi: "Não tenho irmãs nem irmãos, mas o filho deste homem é filho de meu pai". De quem é a foto?
Pois bem!
Dadas estas charadas, vou aos meus exemplos.
Certa vez, um colega de trabalho me abordou perguntando se eu acreditava na vida após a morte. Eu respondi que nem acreditava nem desacreditava. Inesperadamente ele se irritou. E disse que se eu não acreditava na vida após a morte, eu era ateu. Deu-me náuseas. Perguntei-lhe qual a relação entre acreditar que Deus existe e acreditar na vida após a morte. Ele, do alto de sua ignorância, respondeu: "Porque a Bíblia diz!". Deu-me mais náuseas. Dizer que se alguém não acredita na vida após a morte, então não acredita em Deus é tão verdade quanto dizer que se uma árvore tem folhas, então eu vi um macaco na esquina. Do ponto de vista racional, uma coisa não depreende da outra. Por quê? Porque o Criador poderia muito bem ter criado a humanidade sem vida após a morte. E isto não anularia a existência do Criador ou a sua credibilidade. Ele poderia criar o homem absolutamente mortal. Por que não? Outro fato, e este agravante, é que a própria Bíblia é depósito literário de crenças não só na existência da vida após a morte, mas também na inexistência da mesma vida. Jó 7, 9 expressa essa crença. O salmo 115, 17 diz: "Os mortos, que descem à terra do silêncio, não louvam a Deus". Eclesiastes 9, 10 diz que "no mundo dos mortos não se faz nada, e ali não existe pensamento, nem conhecimento, nem sabedoria. E é para lá que você vai". Em Israel houve historicamente a crença de que com a morte, tudo acabava. Depois do cativeiro babilônico, a crença foi revista e muitos pontos foram alterados. Observe-se ainda que os saduceus eram judeus religiosos, tementes a Deus (mesmo que de forma diferente dos fariseus), mas nem por isso acreditavam em anjos, demônios, ressurreição, e coisas do tipo. E se alguém disser: "mas Jesus acreditava naquelas coisas", pode-se dizer que Jesus era teologicamente um fariseu. Portanto, não poderia ser diferente. Assim como a Igreja seguiu a teologia paulina, que era farisaica (não hipócrita). Portanto, não acreditar na existência da vida após a morte, não implica em ser ateu. Frise-se que eu não disse que não acreditava. Eu disse ao meu interlocutor que nem acreditava nem desacreditava. O que é diferente. Significa que não tenho subsídios convincentes para uma ou outra postura, por mais que argumentos existam de ambos os lados.
Certa vez uma estudante de direito, condicionada aparentemente por um estereótipo do que seja um filósofo, perguntou-me se eu era ateu. Pareceu-me que ela queria apenas a confirmação de que havia a ligação de resultado entre as duas realidades, ou seja, se é filósofo, é ateu. Eu respondi que nem defendia nem atacava o ateísmo. Ela teve a mesma reação do meu interlocutor anterior. Bom! A discussão estendeu-se um pouco mais. Terminou com ela saindo aparentemente zangada. Por que terá sido? Não sei por que o senso comum, via de regra, apega-se tão ferrenhamente a um dualismo de acreditar ou não acreditar em algo, quando alguém pode não estar habilitado ainda a tomar partido numa dada discussão.
Quando me lembro destes e de outros exemplos protagonizados por aqueles que raciocinam apenas condicionados por um senso comum precário, vem à memória o conto "A lógica do Aquário".
Conta-se que um homem, andando por uma rua de sua cidade, encontrou-se com um amigo com vários livros debaixo do braço. Disse-lhe então, admirado:
- Que é isso, rapaz! Eu nunca lhe vi com livros!
O amigo respondeu: "É que agora estou estudando lógica".
- Lógica? O que é isso? Perguntou o primeiro.
- Vou lhe explicar: Você tem aquário em casa?
- Tenho, sim. Foi a resposta.
- Se você tem aquário, então você tem peixinhos. Se você tem peixinhos, você tem crianças.
- Poxa! É verdade! Respondeu o primeiro.
- E digo mais: se você tem crianças, você tem filhos. Se tem filhos, tem mulher; se tem mulher, é casado.
O primeiro, já extasiado, diz: "Caramba! É verdade!
O segundo conclui: "Se você é casado, então você não é gay".
O primeiro em êxtase intelectual pede, encarecidamente, um dos livros para estudar também a lógica.
O amigo cede o livro e vai embora.
O homem, agora com o livro debaixo do braço, segue caminho.
Mais a frente, encontra outro amigo.
- Olá! Como estás?
- Ah, rapaz! Agora estou estudando lógica.
- É o que? Eu nunca te vi com livro. Que aconteceu? Você está estudando o que?
- Lógica, rapaz! Vou lhe explicar: "Você tem aquário em casa?"
O amigo responde: "Não!".
O novo estudante de lógica conclui: "Então você é gay!".

Gostou da lógica do aquário?
Mas é assim que a grande maioria dos humanos raciocina. E acha que está fazendo proezas com a sua inteligência.
A relação do discurso do senso comum com a Lógica como disciplina é que aquele possui enunciados simples e compostos, relacionados por conectivos, operadores lógicos, permite representação simbólica, etc., mas, da perspectiva dos fatos, é pura falácia, como bem se percebe no conto acima.
A questão não é apenas de raciocinar corretamente, mas de o raciocínio ser compatível com os fatos. Exemplifico. Eu raciocino corretamente quando digo: Somente todo ser vivo tem dois pés; a estátua tem dois pés. Logo, a estátua é um ser vivo. Este raciocínio está correto, mas da perspectiva dos fatos eu sei que enunciei um absurdo. O raciocínio correto depende da Lógica, mas verdade extrapola os seus limites.
Infelizmente, sei que continuarei a escutar enunciados conciliados com a Lógica, embora desvinculados de verdade fatídica e conjugados com postura sofismática, sem que seus elaboradores percebam em que pântano de ignorância se encontram.
Paciência!
Tragam-me mais Engove!




[1] NAHRA, Cinara & WEBER, Ivan Hingo. Através da lógica. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. Págs 17-19.

MONOGAMIA EM SÉRIE OU POLIGAMIA


            Moro em Natal / RN desde dezembro de 1992. Esta cidade é uma das melhores do Brasil; para mim talvez a melhor. Aqui eu construí uma das partes mais significativa de minha vida. Aqui eu casei; aqui tive uma filha; daqui não quero sair. Aqui, provavelmente, chegarei a meio século de existência neste ano de 2010.
            O meu primeiro contato com a monogamia em série foi quando morava nas Alagoas. Lá eu soube de um colega que se casara pela segunda vez. Naquela época, não me passava pela cabeça, nem em sonho, que um dia eu também experimentaria tal fato. Lembro-me bem das críticas que o colega recebia por tal procedimento. Lembro também de justificativas que alguns davam para o que ele fez.
            De lá para cá, passei a encontrar amigos, conhecidos e desconhecidos que vivenciaram e vivenciam a monogamia em série. Passei também a conhecer amigas, conhecidas e desconhecidas com a mesma vivência. Sem contar que, desde os anos 80, a mídia televisiva e escrita fez retumbar a monogamia em série.
            Ontem, eu visitei um templo evangélico, a convite de um amigo, e o que vi lá? Encontrei dois amigos com suas esposas. Cada um com a sua, claro. Uma delas com sua barriga que mais parecia um desfile de 07 de setembro e a outra se preparando também para ter um filho.
            Enquanto se transcorria o culto, minha memória funcionou freneticamente. Vi aqueles amigos com a primeira esposa e filhos. Um deles eu visitei na sua própria casa. Lembrei-me também de outros e outros que, aqui em Natal, também estão na mesma condição deles. Alguns já na terceira ou quarta esposa. Conheço homens e mulheres evangélicos, católicos, etc., todos com esta vivência. E haja memória!
            Eu moro num lugar que considero fantástico. Vizinho ao condomínio em que moro, há duas criações de galináceos. Do meu kitnet, primeiro andar, eu vejo quase tudo nos dois ambientes vizinhos. O que mais me encanta são os animais: Galinhas, patos, guinés, gavião ripina (como é chamado popularmente, embora eu ache que deve ser "de rapina"; não sei; não pesquisei ainda sobre isso), saguíns, passarinhos, lagartixas, etc. É uma fartura da mãe natureza que me faz lembrar de quando morei em fazenda, no interior de Arcoverde / PE.
            Pois bem!
            Hoje, ao acordar, fiquei a olhar um galo rodeado de galinhas. As franguinhas a crescerem, já se preparando para o "matrimônio" com "seu" futuro "marido". Aquilo me fez rir muito. Lembrei de uma série de espécies da natureza que vive da mesma forma: macho com seu "harém". Daí a passar para a poligamia humana foi um passo curtíssimo. Na contemporaneidade, lá estão os árabes.
            Há muito tempo venho a refletir sobre estes assuntos. Já pesquisei bastante sobre isso. Mas não vou aqui discorrer sobre minhas pesquisas. Quero só ventilar uma tese que li a algum tempo, cujo teor era: "Monogamia em série é um sinônimo de poligamia". O tal autor (não lembro mais do endereço na Internet) defendia que a diferença entre monogamia em série e poligamia é que na primeira as esposas vêm uma de cada vez; ou seja, não convivem juntas com o esposo, pois cada esposa acontece quando a anterior já não convive mais com o marido. Na poligamia todas as esposas convivem ao mesmo tempo com o varão. Interpretei a tal tese como pertinente visto a diferença ser apenas quanto a uma ordem de acesso ao cônjuge, por parte das mulheres ou dos homens.
            Se pensarmos por este prisma, nosso país, cujas leis, costumes e usos incorporam o divórcio, convivência estável e concubinato, é poligâmico. A tradição cristã não conseguiu barrar tal prática nem mesmo entre os seus adeptos. Decorre disto que alguém é monogâmico apenas se, e somente se, casou uma única vez na vida. Do contrário, praticou monogamia em série e, pela tese daquele autor, seria polígamo, portanto.
            Mas está aqui esse assunto apenas para a reflexão. Não me cabe plantar estaca em um terreno tão pisado e revolvido quanto este.
            Se você tem algum parecer sobre o assunto, faça um comentário. Será muito bem-vindo.
            Se tiver oportunidade, escute Martinho da Vila, cantando "Mulheres"[1].
            Saúde nas suas relações conjugais.
Willians Moreira




[1] Mulheres
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei

Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeças e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz

Mas nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim

Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim