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sexta-feira, 24 de abril de 2009

O SENTIDO DE “SENHOR-ESCRAVO” NO NOVO TESTAMENTO
“Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo. 15,15).

Como podemos entender a linguagem “senhor – escravo” no Novo Testamento?
Pode-se argumentar no sentido de um domínio que é exercido pelo Espírito Santo sobre o discípulo de Jesus. O Espírito de Jesus invade a vida do cristão ao ponto de este ser dirigido por pensamento, gesto, palavras e atitudes que podem ser identificados como sendo compatíveis com o Espírito do Mestre. Esta seria a relação de domínio cabível entre Jesus e o cristão. E este uso tem a conotação de escravidão, mas não no sentido de exploração. Mas muito antes no sentido de enriquecimento do discípulo. Há de se convir, no entanto, que este uso é precário e não faz jus ao sentido verdadeiro da relação entre Jesus e seu discípulo. Há de se convir, pois, que o prejuízo linguístico, e mesmo teológico-existencial, foi causado por aqueles que, no mínimo, quanto à retórica de seu discurso, deixaram-se dirigir apenas pela cultura de sua época. Caso do apóstolo Paulo, por exemplo.
Ora, partindo-se do pressuposto de que Jesus mesmo disse: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo. 15:15), pode-se entender que a linguagem “senhor – escravo” deveria ter sido um instrumento passageiro na transmissão da mensagem do evangelho.
Por que não se deu ouvidos à palavra de Jesus quanto a não chamar seus discípulos de servos ou escravos?
Levando-se em consideração o pressuposto do contexto sócio-político-cultural do Novo Testamento, pode-se interpretar a expressão “senhor – escravo”, aplicada a Jesus e seus discípulos, de uma forma que desincumbe o cristianismo atual de fazer o mesmo uso. Paulo e os demais discípulos foram influenciados pela cultura de sua época, na qual a sociedade era dividida entre escravos e livres. No entanto, todos eram escravos de César. No afã de contrapor Jesus a César, usou-se então a linguagem “senhor – servo” para a relação entre Jesus e seus discípulos. O que seria uma forma de dizer ao Império Romano que acima de César existe um senhor maior. E antes de ser servo do imperador, era-se servo do Cristo. Até aí compreensível. Era uma linguagem de contraposição.
Hoje, no entanto, não vivemos mais uma necessidade de contraposição tal. E diga-se mais: ter-se-ia evitado muitas mortes talvez e sofrimentos mil se a palavra de Jesus tivesse recebido prioridade naqueles. Aquela contraposição não teria ocorrido e, consequentemente, talvez, menos e menores males teriam acontecido. Vingou mais a limitação dos discípulos. Consequentemente, mais sofrimentos. Quem garante que não?
Outro pressuposto que se evoca é de ordem existencial. Se for admitido que uma pessoa madura jamais quererá ter escravo, admiti-se, analógica e antropopaticamente, que Deus não quer ter escravos. Portanto, não manteria esta linguagem definitivamente. Nesse ponto, pode-se acrescentar que Paulo não fez jus ao Espírito de Cristo nos seus conselhos a Filemon, quanto ao escravo Onésimo. Paciência!
Parta-se agora do pressuposto bíblico-textual.
Primeiro, leve-se em consideração o termo usado por Jesus em sua palavra traduzida por servo: dúlos - escravo. Sua tradução pode envolver vários sentidos. No sentido mais lato, trata-se de alguém que serve sendo mesmo propriedade daquele a quem serve. Dependendo do contexto pode não envolver o ser propriedade de alguém[1]. No caso de João 15, 15, Jesus é taxativo em tratar o termo servo como se referindo a alguém que não tem um relacionamento íntimo com o seu senhor. O servo é alguém que tem conhecimento limitado das coisas de seu senhor. E segundo o próprio Jesus, não é o caso dos seus discípulos. Portanto, o termo usado não foi nenhum que amenizasse o sentido. Jesus queria uma relação com seus discípulos que fosse sinônimo de intimidade e não de servidão. Jesus quer fílos (amigo) e não dúlos.
A leitura de Gálatas, capítulo 5, 13-26, sugere que a linguagem do texto gira em torno do domínio da personalidade pelo Espírito de Deus, mas não no sentido de senhor-escravo, antes no sentido de estar cheio de liberdade: “Porque vós fostes chamados à liberdade; ...sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (5, 13). O que não discorda de Efésios 5, 18: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito.” Aqui se sugere mesmo a conotação de embriaguês de algo; no caso, do Espírito Santo. A figura é bastante expressiva. O indivíduo alcoolizado perde o domínio de si. Ele não está mais no controle de suas ações. O escravo ainda mantém a sua vontade conscientemente; embora faça a vontade de seu senhor; mesmo não a querendo obedecer, no mais das vezes. O discípulo de Jesus não se sente escravo, pois que sua vontade é livre na devoção ao seu mestre. Daí também que a conotação da embriaguês não lhe cai tão bem, pois que o alcoolizado está sob o efeito de um agente externo; não sendo escravo se sua vontade é realmente estar naquele estado. Veja-se, pois, o exemplo do próprio Jesus: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo. 4, 34). A partir do momento que se quer livrar e não consegue, passa-se à escravidão.
A conotação ocasionada pela figura do efeito do vinho expressa o sentido de domínio que o Espírito Santo exerce sobre o discípulo (embora Paulo não tenha dito: embriaguem-se do Espírito Santo). Quando todas as manifestações do Espírito, referidas no texto bíblico, fazem parte da vida do discípulo, pode-se dizer que ele está cheio do Espírito Santo; pode-se dizer que ele está embriagado (conotativamente) do seu mestre. Jamais caberia aqui o sentido de que Deus teria escravo à moda dos senhores do mundo antigo ou de um tempo mais próximo do nosso. Neste sentido, Deus não quer ser senhor de ninguém, pois que ser escravo implica em subjugo da vontade. E Deus não subjuga a vontade de ninguém; antes a conquista com amor. Portanto, não há escravidão para o discípulo de Jesus. O discípulo busca o estado de devoção ao seu mestre. Escravidão ninguém busca.
Portanto, por estar o cristianismo em um contexto sócio-político-cultural diferente daquele dos primeiros discípulos; por se considerar o pressuposto existencial da maturidade antropopaticamente atribuída à Divindade; e por se levar em consideração a palavra de Jesus, expila-se a expressão “senhor – servo” do relacionamento entre Jesus e seus discípulos.
21 de abril de 2009
Willians Moreira

Este assunto continua no texto: "AINDA O ASSUNTO SENHOR ESCRAVO NO NT".
[1] THE ANALYTICAL GREEK LEXICON OF THE NEW TESTAMENT. Pág. 106.

domingo, 19 de abril de 2009

O INACESSÍVEL TEXTO BÍBLICO ORIGINAL


O Cristianismo é um depósito de muitas dificuldades para os que se dizem crédulos em suas supostas verdades. Dogmas como o nascimento virginal de Jesus de Nazaré e sua ressurreição; as duas naturezas de Jesus e sua segunda vinda a este mundo e, na verdade, outros tantos são passíveis de dificuldades ante uma análise crítica. Como se não bastasse, o Cristianismo ainda enfrenta dificuldades ante as sustentadas verdades de outras religiões. Cada religião possui o seu depósito de dogmas; dogmas estes contrários aos dogmas de outras religiões. Se quisermos condescender com as religiões, o único dogma que é pertinente a todas é a crença na existência de uma divindade. O que decorrer desta crença teológica é passível de contestação entre as religiões. Ou seja, cada dito sobre a própria divindade passa por controvérsias intermináveis entre os religiosos.

De per si, o Cristianismo, entre as suas facções ou ramos, também enfrenta controvérsias sem fim, embora existam muitos adeptos seus buscando um elo que propicie união entre todos os cristãos num ecumenismo, mesmo que não seja possível uma unidade teológico-doutrinária.

Além desses problemas, existem outros que não são tratados nos redis cristãos; ou por deficiência epistemológica de seus mentores teológicos ou por desinteresses sobre tais assuntos; ou ainda por medo de que, uma vez tratados tais assuntos, o Cristianismo venha a perder influência na humanidade. E este último motivo revelaria a covardia de alguns que se escondem atrás da máscara de uma chamada prudência jesuológica que se traduz pela expressão: “tenho muito que vos dizer, mas vós não podeis suportar agora”. Admita-se que seja usada esta prudência nos ambientes de culto; porém, nos ambientes de ensino teológico faz-se necessário o tratamento de muitos assuntos tabus e esse tratamento deve acontecer mesmo de forma crítica. Esse tratamento levaria os estudantes a buscarem respostas menos infantis para os seus questionamentos mais recônditos.

Um dos assuntos carente de tratamento sem disfarces refere-se à própria Bíblia. Existem muitas considerações bibliológicas que são negligenciadas aos estudantes de teologia. Face a esta situação este artigo refere-se a problemas bibliológicos relativos à tradução do texto bíblico e aos manuscritos nas línguas originais, grego e hebraico.

As traduções

Do ponto de vista da tradução, a Bíblia é um texto inacabado; é um texto que está sempre em revisão e mudanças face às novas descobertas lingüísticas, literárias, arqueológicas e de quaisquer ordens que se refiram a qualquer texto traduzido. O texto bíblico traduzido que temos hoje, em qualquer língua, não é o texto original; não é o autógrafo dos profetas e apóstolos, escritores originais. O texto traduzido que temos hoje, em qualquer língua, é apenas uma tradução dos manuscritos nas línguas originais, cópias de cópias de cópias do texto original supostamente inspirado, que já não existe e, por sinal, há muito tempo desaparecido. Portanto, em que sentido as traduções são a palavra de Deus? Esta é uma pergunta pertinente para que os teólogos a respondam. Parta-se do pressuposto de que a suposta inspiração divina foi atuante apenas sobre os primeiros escritores. A não ser que se desenvolva uma doutrina da inspiração a la Filo de Alexandria, o qual sustentava que a Septuaginta, tradução da Bíblia hebraica para o grego, foi feita “não por tradutores, mas por hierofantes e profetas”
[1], portanto, também inspirada por Deus.

Não se pode negar que todo tradutor tem uma formação lingüística necessária para que o seu trabalho possua pertinência à confiança dos seus leitores. Amplie-se este pressuposto para as sociedades bíblicas que fazem tradução. Um tradutor que se preza conhece as teorias de tradução e, necessariamente, adota uma delas no seu labor. Uma sociedade de tradução, por sua vez, está para uma teoria linguística assim como uma denominação religiosa, um partido político, etc. estão para uma doutrina pelos tais adotada. Aquela sensação que um religioso protestante fundamentalista ou conservador sente ao ser informado de que tal tradução da Bíblia foi realizada por tradutores católicos ou espíritas, ou de qualquer outro ramo religioso, é bem reveladora do que subjaz ao problema das traduções; em outras palavras, suas diferenças.

Mudanças ideológicas

As mudanças nas traduções explicam-se por diversos fatores: a) Concepções teóricas surgidas através dos tempos. Essas mudanças teóricas ocasionam correções, subtrações, como também acréscimos às traduções já realizadas; b) As mudanças filosóficas e teológico-doutrinárias ocorridas nas escolas ou sociedades de tradução. A análise de diversas traduções revela diferenças que refletem concepções teóricas linguístico-teológico-doutrinárias diversas, sem contar que influências filosófico-hermenêuticas subjazem às concepções lingüístico-teológicas pertinentes a cada tradução: desde concepções fundamentalistas a compreensões liberais expressas nas traduções. Não só as perspectivas linguísticas são passíveis de mudanças. As concepções teológicas e filosóficas de uma sociedade de tradução também mudam conforme os seus tradutores são remanejados, substituídos, etc., sem contar que as sociedades de tradução também acompanham as mudanças doutrinárias do ramo religioso com o qual se comprometem; resultado disto são as diferenças gritantes entre as traduções. Comparem-se traduções de sociedades bíblicas diferentes; de sociedades de ramos religiosos diferentes entre si; c) deve-se acrescentar ainda o fator das descobertas científicas. Este fator lança novas luzes sobre o conhecimento humano e este passa a ter novos pressupostos que levam a mudanças de visão quanto às traduções. A mudança é, na verdade, um fenômeno natural na cultura humana. Tradução também é cultura.

Mudanças existenciais

Como, portanto, livrar-se do pressuposto de que toda tradução é também interpretação? O parágrafo anterior é a prova de que toda interpretação leva consigo a marca de uma subjetividade do tradutor. Além disto, acrescente-se o fato circular e dinâmico de que a tradução faz o tradutor e o tradutor faz a tradução. A tradução como atividade e como resultado do trabalho cria novas impressões na subjetividade do tradutor no decorrer e à medida que cada trabalho tradutório se encerra. Afinal, lidar com um texto escrito não é meramente lidar com algo morto. É antes lidar com a vida das idéias. E estas sempre tocam a subjetividade do tradutor. Todo texto ganha vida quando entra em contato com o tradutor. Afinal, todo texto quando ganha voz transmite sempre uma idéia.

Os manuscritos nas línguas originais

Os manuscritos bíblicos nas línguas originais, conhecidos, são também cópias de cópias de cópias do texto original e não são também inspirados; repita-se: são meramente cópias.

Para o exercício da tradução, os tradutores exercem atividades, cujos métodos e técnicas podem diferir de sociedade para sociedade de tradução. Além do mais, a passividade de diferenças vai também interferir nos resultados da tradução. Podem ser referidas aqui duas atividades do tradutor: A Crítica Textual e a Análise Literária. Ambas são devedoras a pressupostos que condicionam o resultado do trabalho. A Crítica Textual consiste em determinar com a maior exatidão possível o texto que será usado para a tradução. A necessidade da Crítica Textual, no caso do texto bíblico, advém do fato de que os manuscritos foram escritos em línguas que não a do tradutor e estes manuscritos são cópias de originais desaparecidos. Esses manuscritos foram sucessivamente copiados através dos séculos, de modo que existem milhares desses manuscritos cópias na atualidade. A comparação dessas cópias entre si revela que o texto reproduzido nem sempre é igual. A Crítica Textual busca o conhecimento dessas diferenças existentes entre esses manuscritos cópias para que o tradutor possa escolher que cópia ou cópias usar para a sua tradução[2]. Além da Crítica Textual, o tradutor ainda pratica a Análise Literária, ou crítica literária. Os textos contidos nos manuscritos, como unidades literariamente formuladas e acabadas são analisados com a finalidade de se definir

“a sua exata extensão como unidades literárias autônomas; a estrutura literária dos textos, ou seja, as partes diferenciáveis que os compõem; o grau de integridade literária dos textos, ou seja, determinar se o conteúdo dos textos forma um todo orgânico e coerente, ou se são perceptíveis quebras e rupturas no desenvolvimento do assunto. O uso de fontes literárias alheias ao conteúdo formulado pelo próprio autor”
[3].

Percebe-se, nitidamente, que o tradutor exerce uma influência profunda e considerável na escolha dos manuscritos que ele entende mais confiáveis para o seu trabalho. Esse trabalho de seleção não escapa à subjetividade do tradutor e, consequentemente, não escapa de falhas, por mais que se abuse de procedimentos científicos no exercício da tradução. Devido aos fatores ditos, é comum e natural que tradutores de sociedades de tradução diferentes apontem falhas nos trabalhos de seus colegas de outras sociedades.

Assim sendo, diante das contingências do material usado para a tradução da Bíblia, diante das contingências das traduções e diante das próprias limitações epistemológicas dos tradutores, sem contar com outras limitações, como humanos que são, releva-se um problema: EM QUE SENTIDO UMA TRADUÇÃO É A PALAVRA INSPIRADA DE DEUS? Este problema considera o questionamento: Que diferença faz se o texto é ou não inspirado? Não estaria a pertinência do texto em sua influência na vida humana. Quando os religiosos de Jerusalém disseram ao homem curado por Jesus que o Mestre era pecador, o homem respondeu: “Se é pecador, eu não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo” (Jo. 9:25)
[4]. O homem curado revelou o âmago da questão quando a direcionou para o fato de uma relação com o Mestre e não para uma questão de saber ou não saber de algo, uma questão epistemológica.

Portanto, a questão suprema é: qual a influência do texto bíblico na vida humana? De que adianta a lei de Deus escrita em pedras, se no coração está escrita a concupiscência? As palavras da Lei só fazem diferença se estiverem escritas no coração. Essa é a inspiração que conta.
Willians Moreira

[1] BARRERA, Julio Trebolle. A bíblia judaica e a bíblia cristã. Uma introdução à história da bíblia. 2ª Ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1995. Pág. 149: citação do texto apócrifo Vida de Moisés 11:40.
[2] WEGNER, Uwe. Exegese do novo testamento – Manual de metodologia. 3ª edição. São Paulo. Sinodal – Paulus, 2002. Pág. ___
[3] Idem.
[4] BÍBLIA SHEDD. Antigo e novo testamentos. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. 2ª edição, rev. e atual. São Paulo: Edições Vida Nova/Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.