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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ALMANAVIO

 

Minha alma,

Navio no mar;

Sempre no mar,

Chega a portos.

 

Reconhece o desejo de âncoras

Não quer desatracar.

Mas para que os navios?

Willians Moreira

INCONSTANTE

 

Navalhas de tua boca mastiguei;

Cascatas de sangue pelo meu peito.

A cor marron com que pintaste o tempo

Nublou o meu caminho.

 

Estarás em meu corpo, sim!

Quero a tua marca, como a de outras

Que por mim passaram.

Amarei sempre a todas;

A ti, como quem sofre

O inconstante.
Willians Moreira

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

MARCADORES DE LINGUAGEM – MARCADORES DE EXISTÊNCIA

 

            Marcador de linguagem é aquela expressão recorrente que se pronuncia quando se está num diálogo, monólogo ou coisa parecida.

            Uma de minhas práticas quando converso com alguém ou escuto uma conversa é captar os marcadores de linguagem dos interlocutores. Exemplo: "oxente". Esse marcador é velho e não é somente individual; é coletivo. Quase todo mundo diz "oxente". "oxente" pra cá, "oxente" pra lá. Você sabe qual a origem desse marcador? Em sala de aula, minha professora Nevinha disse que uma das versões dizia que veio de "oh, gente!". Bom! "oh, gente!" pra lá, "oh, gente!" pra cá, e olha no que deu. Isso me fez lembrar que lá pelos idos da década de setenta, eu tinha uma professora de português, Socorro Sena, que marcava sua fala, justamente com "oh, gente!". Mas eu já ouvia também "oxente".

            Ainda na linha dos marcadores coletivos, ultimamente eu tenho observado entre os adolescentes e jovens, e já contaminando alguns adultos, o marcador "tá ligado". "tá ligado" pra lá, "tá ligado" pra cá. Espero que daqui a pouco não haja curto circuito.

            A nossa época está tão marcada pela tecnologia e pelos eletrônicos que nós, que antes antropomorfizávamos tudo, agora somos tecnomorfizados. Será que as máquinas vão mesmo nos dominar?

            Há aqueles marcadores de linguagem coletivos que recebem vulgarmente o estigma de palavrão. São as pornografias e pornofonias. A fala do cidadão é pontuada por recorrentes "puta-merda", "porra", "pqp". O palavrão possui bastidores psicológicos bem sugestivos para análise. Mas eu sou apenas curioso nesse assunto.

            E os marcadores de linguagem apenas individuais? Há gente que conversa o tempo todo intercalando sua fala com recorrentes "sabe". "Sabe", fulano, eu gostaria de..."; "Sabe", eu vou...". É um "sabe" pra lá, um "sabe" pra cá, que dá agonia.

            Você conhece quem fala "aí" recorrentemente? São tantos "aís" que logo, logo, ficamos enjoados. "Ai", eu fiz isso; "ai", eu fiz aquilo". É "aí" pra lá; é "ai" pra cá, que dá dó.

            E que me diz de "né". "Virgem santa", é horrível!

            Fazer o quê? Os humanos são mesmo seres de recorrência. Vivemos recorrendo num montão de assuntos. Há tantas coisas que faço que já havia feito antes. Coisas que já estão na hora de eu parar de fazê-las e eu ainda não parei. Coisas recorrentes na minha vida que em comparação aos tais marcadores de linguagem são questões ínfimas. Na verdade, os marcadores de existência contam mais. Aconteceria de os marcadores de linguagem serem indicadores de marcadores de existência? Que me diz, Freud?

            Quer se livrar de algum marcador? É possível. Uns conseguem; outros, não. Mas é possível. Se não conseguir sozinho, busque ajuda.

            Que tal recorrer sobre esse assunto?
Willians Moreira

PROCEDIMENTOS RECORRENTES

Texto escrito em janeiro de 2006
 

Viajando ao século XVIII, encontrei referência a uma bula papal que condenou o Confucionismo. Em resposta àquela bula, o imperador Chien-Lung baniu o Cristianismo e expulsou da China os missionários (em 1715).

Em alguns países existe repulsa ao Cristianismo que nós da atualidade não compreendemos. Para quem possui consciência histórica, torna-se fácil entender certas reações. Muitas destas foram condicionadas a acontecer num passado pela maioria desconhecido. Tal é o caso da China. Se o Cristianismo quiser conquistar espaço, não deve ser sua estratégia a palavra de condenação das outras religiões. Tal estratégia revela antes um espírito maniqueísta, atravancador das relações humanas.

Pergunta-se: o que tem conseguido o Vaticano com medidas segregacionistas? Na Verdade, consegue o contrário do que é o propósito missionário.

Em pleno final de século XX, 05 de setembro de 2000, aconteceu uma declaração papal com uma palavra muito mais abrangente e tão contundente quanto aquela bula do século XVIII. Dom Glauco Soares de Lima, Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, diz em uma palavra sua, na Internet registrada, que "o Vaticano desfechou um grande golpe nas relações ecumênicas ao reafirmar suas dúvidas sobre a validade das igrejas protestantes". Agora imagine o que o Vaticano, nos seus bastidores, pensa das outras religiões.

Um site da Internet chamado CATÓLICA NET, muito interessante e eficiente por sinal, apresenta um título interpretativo da palavra papal: "IGREJAS PROTESTANTES NÃO SÃO AS VERDADEIRAS". O texto comenta o documento "Dominus Iesus", de 05 de setembro de 2000. Uma grande maioria católica entendeu muito bem o que o Vaticano quis dizer. Ninguém é tolo. Tanto é verdade, que o tal documento causou incômodos em várias partes do mundo, tanto ao lado chamado protestante como também às outras religiões.

Ninguém se iluda! Essa prática da cúpula católica não é recente. A intransigência religiosa da Roma papal tem sido vigente por toda a história.

Cabe aqui renovar a palavra do Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Dom Glauco Soares de Lima: "Estou convencido que a Unidade dos cristãos, a Unidade da humanidade, é uma construção que está sendo feita nas bases das igrejas e não nas suas cúpulas, por melhor que elas sejam... Assim, independente das notas e decretos, encíclicas, etc., vamos continuar a nossa construção, que é um processo de amor orientado pelo Espírito Santo que se manifesta em nós".

Concluindo, espera-se que essas retomadas papais não consigam influenciar a humanidade na sua representatividade católica ao ponto de criar separações nocivas à ecologia humana.

Willians Moreira

Em seguida, mais um lembrete histórico.

 

Comitê de Direitos Humanos denuncia repressão religiosa na China

Hong Kong, 27/12/2000

 

"As autoridades chinesas fecharam ou destruíram mais de três mil templos e igrejas não autorizados, ao intensificar uma campanha para reprimir a religião", denunciou hoje um grupo de defensores dos Direitos Humanos. Seguindo ordens de Pequim, autoridades da cidade costeira de Wenzhou realizaram uma inspeção de dois meses e descobriram que somente 3.200 dos 8.000 centros religiosos estavam registrados legalmente. Entre os centros ilegais, mais de 4.000 eram templos evangélicos e católicos. O restante era de budistas, taoístas e santuários religiosos locais.

FAVELA MELHORADA

O texto abaixo foi escrito em 24 de janeiro de 2005. 
 

            Um dia desses, conversando com um amigo, disse-lhe que estava morando no Conjunto Guaíra, em Nova Parnamirim. Ele fez um sorriso maroto e me disse que eu estava morando numa favela melhorada. Pode acreditar! O cidadão é meu amigo mesmo. Mas ele se explicou. É todo mundo empoleirado, bem perto uns dos outros. Tudo o que se fala no aptº do vizinho, ouve-se no nosso: desde o palavrão do adulto stressado ao choromingar da criança. Não só se ouve, como se vê de quase tudo, um pouco. Eu mesmo já presenciei algumas cenas inusitadas: Ensaios de violências verbal e física; sessão sonora de sado-masoquismo, até um meio ensaio de strip.

            A única visão que me alegra está no mesmo plano do meu andar, a partir da porta da minha cozinha. A disposição dos aptºs é de tal forma que as áreas de serviços têm comunicação visual no plano horizontal e diagonal. Das janelas dos quartos, muito pode ser visto. Para quem gosta de privacidade é uma beleza! Acredita nisso?

            Mas o problema é a questão do som. É terrível! A coisa é tão séria que quase se ouve mesmo uma turbulência intestinal do vizinho. Sorte que não se está por perto e as paredes são ótimas trincheiras contra os torpedos envenenados do inimigo que mora ao lado.

            Pode acreditar! É sério!

            Às vezes, domingo cedo, entre as 07 h. e as 08 h., umas meninas que moram ao lado, soltam o som. Por incrível que pareça, não é lá nem uma sinfonia clássica para um domingo tranqüilo, é "Calcinha Preta". Pense no pulo que dou da cama! Num desses domingos, precisei falar com elas e pedir clemência. Fui ouvido e atendido. Educaaadaasss!

            Que me diz do som de cinema, vizinho a você, depois do almoço? Aquele som de móveis de uma tonelada sendo arrastados. Outro vizinho meu comprou uma aparelhagem de som que, vou lhe dizer, se ele aumenta mesmo, derruba o prédio. Pior! De vez em quando ele ensaia. Ontem, eu estava tomando banho; de repente, pensei: é um avião voando baixo; vai cair; valha-me Deus! Não! É trovão! Vai chover pesado! Que nada! Você já sabe o que era.

            Tem vizinho que gosta de música brega. Final de semana é tempo de muito Lindomar Castilho.

            Há outros que gostam de Rock, tipo Scorpions. Bom, aí é minha praia. Sem falar que tem quem goste de Calipso (dá para aturar um pouco; mas só um pouco, viu?), Belchior, Zé Ramalho, e outros bons de serem ouvidos.

            O pior de tudo, às vezes, é ter de escutar Mução. Imagine a altura do rádio do vizinho, obrigando todo mundo a ouvir aquilo.

            O que eu menos quero é incomodar a vizinhança. Às vezes, pego o violão; toco e canto umas músicas agradáveis (para mim, pelo menos). Tal foi a minha surpresa, quando o vizinho do térreo (e eu moro no 3º andar) comentou comigo que acordou cedo ouvindo o meu som. Que droga!!!

            Só lamento não ter quem goste de música clássica. Na verdade, tem: eu. Mas não tenho aparelho de som. Ah! Se eu tivesse!

            Tem nada, não! Eu ainda me vingo.

            Aproveitando, você respeita o seu vizinho?
Willians Moreira

EQUÍVOCOS DA FALA – EQUÍVOCOS DA AUDIÇÃO

 

            Sabe aquela história de sermos enganados pelos ouvidos quando ouvimos algo e depois descobrimos que não foi bem o que pensamos ser? A fala tem dessas coisas, sim. Alguns fazem brincadeiras com isso. Na escola, eu me lembro que um professor meu, quando queria alertar-nos sobre a necessidade de prestarmos atenção, dizia: "não confundam 'tratado de tordesilha com tarado atrás das ilhas'". Era aquela festa; a meninada vibrava. Volta e meia, ele vinha com uma nova. Uma que todo mundo conhece, ele dizia: "não confunda frei Damião com freio de caminhão".

            Fazer o que? São os trocadilhos da fala e "equívocos" da audição.

            Lembrei-me daquela história do menino que foi se matricular na escola. A secretária perguntou a ele:

- como é o seu nome?

            O pai do menino respondeu:

            - Edson Paulo.

            - Eu não perguntei de onde ele é. Quero o nome dele.

            O menino gritou:

            - Edson Paulo...

 

            Tal é o nosso deslumbre quanto a estas possibilidades da fala e da audição quando nos lembramos da "velha surda" da "Praça é nossa" (SBT). Haja dificuldade para ela entender o que ouvia.

            Bom! De equívoco em equívoco, lembrei-me de uma que eu presenciei nos idos dos anos oitenta, em Recife/PE. Naquela noite eu fiquei mais convencido ainda que certos nomes não devem ser colocados nos filhos. O bom Deus só no-los dá uma única vez e corremos o perigo de marcá-los de modo a criar um estigma dos infernos. Dos infernos nem tanto; só se o nome fosse Lúcifer, Belzebu, ou coisa parecida. Mas como prever certas circunstâncias? Não sei, não. Pelo menos o nome que tenho na memória não daria a impressão de alguém passar o que presenciei naquela noite.

            Eu e minha amiga Suerda estávamos no seu carro. Ela fazia algumas peripécias ao volante, características de quem ainda não tinha muita habilidade na direção. Eu imaginei que logo, logo, alguém iria dizer-lhe umas boas. Dito e feito. Por incrível que pareça, alguém, num carro, emparelhou-se conosco e começou a gritar: "Suerda, Suerda, Suerda". Do meu lado, eu escutava meio apreensivo. Suerda fazia que nem ouvia. E continuava o sujeito a gritar. Eu pensava: Poxa! Ela está tão acostumada com o nome dela que nem liga mais. E eu brincava com ela: Atende, mulher! Vai que é um fã anômino. Nesses pensamentos, eu disse a ela: Você não vai atender? Depois de algum tempo, ela parou o carro e, desaforada como era, mandou-me descer. Eu tomei um susto. Não entendi. Mas desci meio desnorteado.

            Enquanto eu estava descendo e não mais sentia o influxo dos movimentos do carro e do vento em meus ouvidos, ouvi novamente, quando o mesmo elemento passou por nós e gritou: "sua merda, sua merda, sua merda". Agora eu lhe pergunto: eu tenho culpa? Ainda bem que eu estava perto de meu destino.

Willians Moreira

DESCONFORTOS AO TELEFONE

 

Certos procedimentos ao telefone podem trazer muitos incômodos. Eu lhe digo por quê.

O telefone toca; você atende.

O seu interlocutor pergunta: "quem tá falando?". Se você não tiver certa experiência, poderá responder imediatamente dizendo o seu nome. Depois disto você pode não imaginar o que acontece.

Fiz uma pesquisa para saber quantas pessoas cometem aquilo que estou a renegar neste texto. O resultado deixou-me convicto de que deveria trazer este assunto à baila.

De certo modo, nestes tempos de celular é indecoroso alguém telefonar para você não permitindo que o seu visor mostre o número de quem está a ligar para você. Aparece no visor do seu aparelho: "Número confidencial" ou coisa parecida. Se for alguém conhecido, menos mal. E quando é alguém desconhecido? O seu interlocutor não identificado sabe o seu número; às vezes sabe também o seu nome, mas fica a incógnita: "Quem me ligou?".

Antes, minha filha ligava para mim dessa forma: "Número confidencial". Uma vez, eu atendi, mas não era ela. O indivíduo na linha disse-me um bocado de impropérios pensando que estava falando com um tal de "não-sei-quem". Eu tentava dizer que não era o tal, mas ele me mandava a certos lugares que eu não estava muito disposto a freqüentar. Depois daquele telefonema, eu tomei uma resolução: não atender mais a um telefonema se o interessado não se identificar, no mínimo, pelo seu número.

Lembro-me aqui de um episódio, acontecido quando eu morava no Estado das Alagoas, em Arapiraca. Morou em minha casa uma moça que sofreu algumas dores emocionais por atender indevidamente ao telefone. Pois bem, a nossa amiga atendeu ao telefone, coisa lá das 18:00 horas. Perguntaram o nome dela, que prontamente o disse. Pronto! Foi um desmantelo durante algumas horas. Ligavam de instante em instante. A cada vez, diziam coisas impróprias aos delicados ouvidos de uma jovem religiosa. Naquele episódio, algumas vezes eu atendi ao telefone. Fui mandado para várias situações às quais eu nunca me dispus. Foi preciso tirar o telefone do gancho para podermos sossegar naquela noite. Felizmente no outro dia o transtorno não voltou a acontecer.

Desde aquele dia, adotei a prática de, ao ligar para alguém, identificar-me primeiro. Também passei a solicitar que quem liga para mim se identifique de antemão (às vezes esqueço). Na verdade, espera-se que quem liga, diga com quem deseja falar ou que se identifique primeiro. É uma questão de educação mesmo. Se telefono para alguém, por que evitar identificar-me?

Há aqueles que ficam irados quando pedimos sua identidade ao telefone. Alteram imediatamente a voz, quando não dizem desaforos. É impressionante! Em local de trabalho, ligam e já vão perguntando: "Quem tá falando?". E isto na maior autoridade. Por ser lugar de trabalho, às vezes dou um desconto e digo quem está a falar. O impressionante é que logo após a pessoa começa a falar sem se identificar. Já vai pedindo informação, etc. Eu costumo interromper pedindo que a pessoa se identifique. Alguns parecem ficar envergonhados; outros parecem contrariar-se. Parece até que estou pedindo algo agravante. Haja paciência!

Ao celular e em casa, para mim, a situação é diferente. Portanto, quando você ligar para mim, não se chateie se eu lhe pedir que se identifique. Desde que você não se apresente primeiro ou que não diga com quem deseja falar.
 
Willians Moreira

LUTOS DE MINHA VIDA

  

O sentimento de perda de um ser que amamos é de extrema repercussão no nosso íntimo. Pode ser um animal ou um humano. Qualquer perda desse tipo é fatal. Passamos um tempo considerável com uma memória recorrente a momentos de nossos encontros e convivência. Tudo nos lembra o ente querido.

O meu primeiro sentimento de luto que me lembro foi em relação a um cãozinho meu, de nome "Dick". Eu era criança quando Dick foi eliminado por uns caçadores encomendados por uma mulher muito má. Outros animais já vi partirem de minha vida; por uns sofri; por outros nem tanto.

O meu primeiro sentimento de luto em relação a um humano aconteceu por morte de minha mãe. Eu tinha 18 anos quando ela foi obrigada a desocupar o seu espaço nessa dimensão.

No segundo e no terceiro lutos senti uma dor muito grande quando vi uma filha e um filho meus não conseguirem chegar a um convívio comigo. Partiram antes de verem a luz do sol. Depois deles, sofri com a partida de meu pai. Depois de viver 94 anos, ele foi embora. Mas consegui diluir todos esses sentimentos de luto. Às vezes a memória deles recorre, mas é algo administrável.

Para mim, outro tipo de luto acontece quando saem de minha vida pessoas que necessariamente não morrem, mas vão embora, distanciam-se. A distância pode ser física ou emocional, relacional. Muitos fatores contribuem para esse distanciamento. Pode ser um desentendimento, uma frustração, uma decepção, uma mudança por conta de necessidade profissional, e tantos outros motivos. Talvez mais alguns outros que alguém conheça, mas que não me ocorreram agora.

Quando a separação é natural, suporta-se melhor do que quando acontece por algum distúrbio relacional. Este é horrível, quando acontece contra a sua vontade. E se o outro morre sem uma reconciliação, a situação emocional de quem permanece nesta dimensão é ainda pior: talvez jamais tenha oportunidade de se recompor da mágoa ou da culpa.

Felizmente tenho conseguido administrar bem os meus lutos. Não me lembro mesmo de alguma noite que não tenha dormido por causa de algum.

Àqueles que ainda se debatem emocionalmente por causa de seus lutos, fica a esperança de que, quando forem motivo de luto para alguém, deixarão também de sofrer os lutos que agora lhes afligem.

E que a natureza siga em frente no seu curso.

Willians Moreira

“NÃO HÁ ESCRAVIDÃO SEM DEPRAVAÇÃO SEXUAL”

 

            Os humanos parecem tender naturalmente para a prática do abuso sobre aqueles a quem conseguem sujeitar. As relações humanas são plenas de sinais que direcionam a interpretação para essa compreensão. Não só em relação aos animais considerados irracionais, mas principalmente com os da mesma espécie, os humanos se superam cada vez mais nos atos de abuso.

            No aspecto sexual são comuns na história os relatos nos quais os vencedores sempre abusam dos vencidos, não somente para inferiorizá-los, como também para autosatisfazerem apetites sexuais.

            Estão lá os assírios, no seu período de hegemonia mundial antes de Cristo, abusando em todos os sentidos dos povos vizinhos seus e dos também distantes.

            Não passam despercebidos os babilônios no seu domínio subsequentes àqueles.

            Parece que os medo-persas foram menos extremados em abusos sexuais, mas talvez nos faltem mais fontes informativas.

            Os romanos não se fizeram de rogados em suas investidas de domínio mundial. Lemos de seus banquetes sexuais armados em terras estrangeiras.

            Os portugueses não seriam a exceção. Chegando ao Brasil, fizeram jus à prática humana de, usando o sexo, invadirem o mais recôndito do ser vencido. Pois, a introdução do pênis vencedor na vagina vencida reflete, consciente ou inconscientemente, a vitória completa. O pênis, na verdade, fere mais do que a espada.

Não precisamos nos estender mais em exemplos para compreendermos que junto com a escravidão anda a depravação sexual.

Assim, a depravação sexual pode implicar em anúncio constante aos vencidos e escravizados de que "nós, vencedores, estamos no poder".

Os fatos históricos apontam, portanto, para uma realidade que nos faz concluir que a escravidão faz-se sempre acompanhar da depravação sexual.

Willians Moreira

SANTOS DE LÁ - SANTOS DE CÁ

 

            O cristianismo, como toda religião, tem os seus veneráveis: homens e mulheres que recebem louvores e honras, em virtude de seus atos, considerados dignos de reconhecimento canônico. Tanto a ala romana e a grega ortodoxa, como a protestante e a anglicana, escolhem homens e mulheres em quem depositar suas honrarias. Claro, entre estes segmentos cristãos há diferenças qualitativas quanto à forma de devoção aos seus supostos santos e venerados. O catolicismo romano chega mesmo a dedicar status de intermediário entre os homens e Deus aos seus santos; enquanto que o protestantismo, mesmo não dando o mesmo status, camufladamente ou não, considera muitos dos seus homens e mulheres históricos como dignos de todo respeito e merecedores de toda a autoridade sobre o que o protestante pensa e diz. Na verdade, há uma verdadeira canonização prática. Basta a alguém a tentativa de discordar do que foi dito por tal baluarte protestante para ver se a "barraca" não lhe cai na cabeça. O catolicismo romano assume que canoniza homens e mulheres; o protestantismo, não.

            A lista de canonizados do catolicismo é longa. Inclui nomes da Antiguidade, da Idade Média, da Modernidade e da Contemporaneidade; desde os escritores bíblicos até nomes como Madre Teresa de Calcutá. São personalidades reconhecidamente dedicadas a Deus e à fé. Portanto, merecedores de devoção. Para protestantes, mesmo que diante deles não se prostem, valem os nomes de homens e mulheres que contribuíram para a formação da mentalidade cristã; desde os apóstolos, passando por homens como Agostinho, Jerônimo, Tomás de Aquino, até Lutero, Calvino, Huss, Wicliff, e tantos outros da modernidade, como também da contemporaneidade.

            O fato é que ninguém escapa de ter o seu "clube" de homens e mulheres reconhecidamente detentores de autoridade sobre o seu pensamento.

            E aqueles que tentarem questionar a autoridade destes finados, verão diante de si brandir a espada de uma inquisição, aberta ou camuflada, disposta a lhes decepar a cabeça e a lhes lançar às hienas de seus arraiais teológicos. Lembro aqui da música "Metrô Linha 743" de Raul Seixas. Será este um ícone meu no âmbito musical?

            Os homens de outros ramos do conhecimento também têm os seus "santos". Seja na Filosofia, no Direito, na Educação, na Economia, na Política ou em quaisquer outros ramos de atividade humana, todos têm os seus veneráveis. É irrelevante citar aqui os "santos" de cada uma destas atividades humanas, pois que nossa memória já nos assessora com galhardia dando-nos nomes aos milhares.

            O que diferencia a devoção de caso para caso é apenas o fato de que cada prática humana prescreve uma forma de como reverenciar o seu ícone eleito.

            Assim fica patente que nós humanos gostamos mesmo de nos submeter a autoridades outras, reverenciá-las, adorá-las, cultuá-las ou coisa que o valha, face à nossa necessidade de respaldo ao nosso sentimento de incapacidade de sermos o que somos por nós mesmos, sem precisarmos de muletas ideológicas, psicológicas, ou de quaisquer outras ordens.

            Daí a necessidade de findarmos com a hipocrisia de criticarmos os outros como se nós mesmos não tivéssemos os nossos ícones, os nossos santos.

Willians Moreira

UM POUCO DE MIM

SAUDADES

 

"Ai, ai, que bom! Que bom, que bom que é!

Uma estrada e uma cabocla

Com a gente andando a pé"

 

"Ai, ai, que bom! Que bom, que bom que é!

Uma estrada e a lua branca,

No Sertão de Canindé"

 

Ai, ai, que bom que eram aqueles tempos em que morei em Umburanas, perto de Arcoverde, interior de Pernambuco. Por aqueles idos ainda não tinha eu acesso direto a caboclas, mas a lua branca me iluminava em muitas caminhadas com amigos e amigas, por muitas veredas.

 

Ai, ai, quanta saudade daqueles idos. As noites eram cheias de surpresas nas historietas cheias de emanranhados da imaginação folclórica. Cada um que contasse a sua.

 

Épocas marcadas eram as noites de festas juninas. Naquelas, o mundo como que se transformava num palco de felicidade constante. A movimentação daquelas noites refutava o tédio das noites sem festas e sem encontros folclóricos. Muita agitação: quermesse, novena, balão e muito forró. Ah! Não faltava também aquela vontade de encontrar olhos femininos com os quais os meus pudessem cruzar. O que não deixou de acontecer, claro. Ficou marcada a donzela de verdade que dela me era proibida a aproximação. Mas não deixei de sentir um gostinho daqueles lábios pequeninos, porém, ainda me lembro, macios e carnudos. Doeu-me sem medida quando soube que o seu pai a mandou estudar na cidade.

 

Mas as festas continuaram. A lua continuou a iluminar os caminhantes por aquelas plagas. E eu, crescendo, fui também para a cidade. Passei então a sentir saudades das festas do interior. Cresci, e nunca mais voltei àquele lugar. Às vezes me pergunto por que sinto um aperto no íntimo quando chega o período das festas juninas. Quer ver piorar, é eu não dançar nenhum pouquinho num forró. Piora ainda quando escuto a música, impossibilitado de agarrar uma "donzela" para dançar. Não deixo de admitir que qualquer "arraiá" armado possibilita-me um suavizar e, ao mesmo tempo, um relembrar de uma vontade de reviver o passado. Como serão hoje aquelas donzelas e aquelas estradas? E a quem estará hoje a iluminar aquela lua? E aqueles que caminhavam comigo, como estarão? Mas de todas as respostas, a que eu mais queria era saber daquela donzela com quem troquei o meu primeiro beijo.
Willians Moreira