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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

HERESIA E COOPERAÇÃO DENOMINACIONAL

 

Edvar Gimenes de Oliveira,

Pastor da Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem, Recife, PE

E-mail: edvargimenes@uol.com.br

 
 

A palavra heresia sempre fez acender uma luz amarela em meu cérebro. Geralmente ela era associada a pessoas más, infiéis a Deus, de quem deveríamos manter distância absoluta. Engano meu. Foi na disciplina História do Cristianismo, há mais de vinte anos, que comecei a compreender o conceito, o como e o porquê da heresia. E com a  compreensão, veio a mudança na disposição interior. A partir daí, antes de participar da caça às bruxas, passei a aprofundar  o conhecimento do assunto e dos "hereges". A cautela, a honestidade e a humildade,  passaram a ser parâmetros norteadores do julgamento dos "casos de heresia".

 

Na caminhada que desenvolvi em torno do conceito heresia, desencadeada naquela aula do mestre Ramos André, encontrei dois textos curtíssimos, porém  elucidadores que merecem reflexão por aqueles que estão em busca da verdade e não apenas de se ajustar a sistemas e deles se beneficiar por razões egoístas. O primeiro, de Rubem Alves em seu livro Dogmatismo e Tolerância, pg. 50; o segundo, de William Barclay, em El Nuevo Testamento, vol. 16, pg. 139.

 

O texto de Rubens Alves esclarece como a heresia se estabelece no plano político afirmando que

 

heresia não é algo que se situa no plano da verdade, como oposição a ela. A heresia se situa no plano do poder. Ortodoxos são os fortes, aqueles que tem o poder para dizer a última palavra. Por isso eles se definem como portadores da verdade e aos seus adversários como portadores da mentira. A heresia é a voz dos fracos. Do ponto de vista dos sacerdotes, os profetas sempre foram hereges. Do ponto de vista dos fariseus e escribas, Jesus foi também herege. E como as Escrituras sistematicamente se situam ao lado dos fracos contra os fortes, é melhor dar mais atenção às heresias do que às ortodoxias.

 

O texto de W. Barclay esclarece como a heresia se estabelece no plano filosófico e espiritual:

 

a heresia sempre é um produto de uma mente que busca e investiga. É, na realidade, um sinal de vitalidade e inteligência; indica, pelo menos, que há quem esteja tentando pensar as coisas por sua conta. A heresia é em geral a ênfase desequilibrada na verdade... A heresia é uma característica do homem e da igreja que não se conforma com uma fé de segunda mão, com uma aceitação da ortodoxia, sem reflexão". Ele continua sua reflexão dizendo que não há estado pior do que o da pessoa que aceita cada ponto e vírgula de doutrina porque é preguiçoso para pensar. E conclui que, talvez seja melhor o herege que sustenta sua fé, com todo o coração, do que o crente capaz de aceitar a doutrina mas que, no fundo, não se interessa em buscar a verdade.

 

Tais textos nos conduzem à compreensão de que a Declaração Doutrinária e a Filosofia da CBB não são a Palavra de Deus; são o registro da percepção que uma maioria, num tempo e espaço, teve da revelação divina. Por isso, defender que elas devem sempre estar sujeitas a novas reflexões parece-me pacífico. Elas - a Declaração Doutrinária e a Filosofia da CBB - não foram criadas para ser instrumentos de padronização do pensamento e motivo de perseguição dos divergentes; foram criadas para viabilizar um trabalho cooperativo entre igrejas, em torno de sua missão bíblica. Se assim não fosse, seríamos incoerentes com os princípios  da liberdade de consciência e da livre interpretação das Escrituras, defendidos por nós através dos séculos.  

 

Assim sendo, um grande e permanente desafio político da liderança denominacional é ajudar seus membros a compreenderem, por um lado, a necessidade de tais documentos para a harmonia e o bom andamento dos trabalhos e, por outro, como conviver com a renovação de pensamento natural numa comunidade que estimula o estudo bíblico-teológico e cuja membrezia e, consequentemente, sua liderança, se altera numa velocidade cada vez maior devido ao seu crescimento.

 

Inevitavelmente heresias sempre surgirão, muito mais movidas por boas do que más intenções. Elas são inevitáveis no processo de construção do conhecimento individual e, geralmente, são motivadas pelo desejo de uma aproximação maior da verdade divina.  Por isso, devemos cultivar um profundo espírito de diálogo entre passado e presente, entre presente e porvir (em perspectiva) e não simplesmente tentar impor, através de regras e ameaças, nossos pontos-de-vista.

 

Todos nós pensamos ou cometemos heresias. Na Assembléia da CBB, de 2002, no Recife, apareceu no plenário uma proposta que dizia mais ou menos o seguinte: para uma igreja participar da CBB, seu pastor deve estar filiado à Ordem dos Pastores. A intenção manifesta era fortalecer os mecanismos de proteção das definições doutrinárias estabelecidas, também conhecidas como "sã doutrina". Seria, portanto, uma espécie de vacina anti-herege. Se aprovada, provavelmente acarretaria um aumento no número de sócios da Ordem dos Pastores - entidade de classe - e inibiria a consagração de pastoras, já que estas não são aceitas em alguns Estados.

 

A aprovação de tal proposta, porém, seria uma heresia em si mesma, primeiro, porque  feriria direitos individuais. Cada pessoa, inclusive um pastor, tem pleno direito de escolher a que agremiações se associar. Que é bom, recomendável até, que os pastores batistas estejam filiados à Ordem, na área de abrangência da Convenção Estadual a que sua igreja pertence, é uma verdade; porém, pode haver circunstâncias locais que dificultem a filiação, até porque, cada Secção estadual tem seus critérios de recebimento e de tratamento dos sócios, desconhecidos, inclusive, da Ordem nacional. (Penso que as Ordens Estaduais, uma vez que são secções da nacional, deveriam, se assim não for, ter seus estatutos pelo menos homologados pela nacional para ser considerada Secção). Em segundo lugar, a aprovação de tal proposta seria uma heresia porque  retiraria poderes da Assembléia Convencional e conferiria mais poderes às assembléias das Ordens Seccionais, uma vez que os critérios para filiação à tais Ordens não passam pelo crivo da Assembléia da CBB. No momento em que a assembléia de sócios de uma entidade auxiliar passa a ter mais poderes do que a assembléia da CBB, estamos cometendo uma heresia eclesiológica, criando uma espécie de presbitério, ainda que movida e recheada de boas intenções.

 

Propostas dessa natureza confirmam a tese de que alguns ainda não perceberam que os tempos mudaram e que, por isso, os mecanismos de arrolamento ou desligamento de igrejas e de preservação doutrinária, devem ser movidos pela força do diálogo, da autocrítica, do conhecimento e da ética e não da manifestação de força político-econômica. Penso que o tempo de referência para se excluir uma igreja do rol cooperativo da CBB não deveria ser inferior ao tempo que tal igreja levou para se formar, desde sua origem como congregação até ser arrolada como cooperadora. Em alguns casos levamos décadas para organizar uma igreja e semanas para abandoná-las mediante desligamento do rol. E o pior é que nos sentimos vitoriosos, felizes até, crendo que herege é a igreja excluída e não nós!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ALMANAVIO

 

Minha alma,

Navio no mar;

Sempre no mar,

Chega a portos.

 

Reconhece o desejo de âncoras

Não quer desatracar.

Mas para que os navios?

Willians Moreira

INCONSTANTE

 

Navalhas de tua boca mastiguei;

Cascatas de sangue pelo meu peito.

A cor marron com que pintaste o tempo

Nublou o meu caminho.

 

Estarás em meu corpo, sim!

Quero a tua marca, como a de outras

Que por mim passaram.

Amarei sempre a todas;

A ti, como quem sofre

O inconstante.
Willians Moreira

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

MARCADORES DE LINGUAGEM – MARCADORES DE EXISTÊNCIA

 

            Marcador de linguagem é aquela expressão recorrente que se pronuncia quando se está num diálogo, monólogo ou coisa parecida.

            Uma de minhas práticas quando converso com alguém ou escuto uma conversa é captar os marcadores de linguagem dos interlocutores. Exemplo: "oxente". Esse marcador é velho e não é somente individual; é coletivo. Quase todo mundo diz "oxente". "oxente" pra cá, "oxente" pra lá. Você sabe qual a origem desse marcador? Em sala de aula, minha professora Nevinha disse que uma das versões dizia que veio de "oh, gente!". Bom! "oh, gente!" pra lá, "oh, gente!" pra cá, e olha no que deu. Isso me fez lembrar que lá pelos idos da década de setenta, eu tinha uma professora de português, Socorro Sena, que marcava sua fala, justamente com "oh, gente!". Mas eu já ouvia também "oxente".

            Ainda na linha dos marcadores coletivos, ultimamente eu tenho observado entre os adolescentes e jovens, e já contaminando alguns adultos, o marcador "tá ligado". "tá ligado" pra lá, "tá ligado" pra cá. Espero que daqui a pouco não haja curto circuito.

            A nossa época está tão marcada pela tecnologia e pelos eletrônicos que nós, que antes antropomorfizávamos tudo, agora somos tecnomorfizados. Será que as máquinas vão mesmo nos dominar?

            Há aqueles marcadores de linguagem coletivos que recebem vulgarmente o estigma de palavrão. São as pornografias e pornofonias. A fala do cidadão é pontuada por recorrentes "puta-merda", "porra", "pqp". O palavrão possui bastidores psicológicos bem sugestivos para análise. Mas eu sou apenas curioso nesse assunto.

            E os marcadores de linguagem apenas individuais? Há gente que conversa o tempo todo intercalando sua fala com recorrentes "sabe". "Sabe", fulano, eu gostaria de..."; "Sabe", eu vou...". É um "sabe" pra lá, um "sabe" pra cá, que dá agonia.

            Você conhece quem fala "aí" recorrentemente? São tantos "aís" que logo, logo, ficamos enjoados. "Ai", eu fiz isso; "ai", eu fiz aquilo". É "aí" pra lá; é "ai" pra cá, que dá dó.

            E que me diz de "né". "Virgem santa", é horrível!

            Fazer o quê? Os humanos são mesmo seres de recorrência. Vivemos recorrendo num montão de assuntos. Há tantas coisas que faço que já havia feito antes. Coisas que já estão na hora de eu parar de fazê-las e eu ainda não parei. Coisas recorrentes na minha vida que em comparação aos tais marcadores de linguagem são questões ínfimas. Na verdade, os marcadores de existência contam mais. Aconteceria de os marcadores de linguagem serem indicadores de marcadores de existência? Que me diz, Freud?

            Quer se livrar de algum marcador? É possível. Uns conseguem; outros, não. Mas é possível. Se não conseguir sozinho, busque ajuda.

            Que tal recorrer sobre esse assunto?
Willians Moreira

PROCEDIMENTOS RECORRENTES

Texto escrito em janeiro de 2006
 

Viajando ao século XVIII, encontrei referência a uma bula papal que condenou o Confucionismo. Em resposta àquela bula, o imperador Chien-Lung baniu o Cristianismo e expulsou da China os missionários (em 1715).

Em alguns países existe repulsa ao Cristianismo que nós da atualidade não compreendemos. Para quem possui consciência histórica, torna-se fácil entender certas reações. Muitas destas foram condicionadas a acontecer num passado pela maioria desconhecido. Tal é o caso da China. Se o Cristianismo quiser conquistar espaço, não deve ser sua estratégia a palavra de condenação das outras religiões. Tal estratégia revela antes um espírito maniqueísta, atravancador das relações humanas.

Pergunta-se: o que tem conseguido o Vaticano com medidas segregacionistas? Na Verdade, consegue o contrário do que é o propósito missionário.

Em pleno final de século XX, 05 de setembro de 2000, aconteceu uma declaração papal com uma palavra muito mais abrangente e tão contundente quanto aquela bula do século XVIII. Dom Glauco Soares de Lima, Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, diz em uma palavra sua, na Internet registrada, que "o Vaticano desfechou um grande golpe nas relações ecumênicas ao reafirmar suas dúvidas sobre a validade das igrejas protestantes". Agora imagine o que o Vaticano, nos seus bastidores, pensa das outras religiões.

Um site da Internet chamado CATÓLICA NET, muito interessante e eficiente por sinal, apresenta um título interpretativo da palavra papal: "IGREJAS PROTESTANTES NÃO SÃO AS VERDADEIRAS". O texto comenta o documento "Dominus Iesus", de 05 de setembro de 2000. Uma grande maioria católica entendeu muito bem o que o Vaticano quis dizer. Ninguém é tolo. Tanto é verdade, que o tal documento causou incômodos em várias partes do mundo, tanto ao lado chamado protestante como também às outras religiões.

Ninguém se iluda! Essa prática da cúpula católica não é recente. A intransigência religiosa da Roma papal tem sido vigente por toda a história.

Cabe aqui renovar a palavra do Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Dom Glauco Soares de Lima: "Estou convencido que a Unidade dos cristãos, a Unidade da humanidade, é uma construção que está sendo feita nas bases das igrejas e não nas suas cúpulas, por melhor que elas sejam... Assim, independente das notas e decretos, encíclicas, etc., vamos continuar a nossa construção, que é um processo de amor orientado pelo Espírito Santo que se manifesta em nós".

Concluindo, espera-se que essas retomadas papais não consigam influenciar a humanidade na sua representatividade católica ao ponto de criar separações nocivas à ecologia humana.

Willians Moreira

Em seguida, mais um lembrete histórico.

 

Comitê de Direitos Humanos denuncia repressão religiosa na China

Hong Kong, 27/12/2000

 

"As autoridades chinesas fecharam ou destruíram mais de três mil templos e igrejas não autorizados, ao intensificar uma campanha para reprimir a religião", denunciou hoje um grupo de defensores dos Direitos Humanos. Seguindo ordens de Pequim, autoridades da cidade costeira de Wenzhou realizaram uma inspeção de dois meses e descobriram que somente 3.200 dos 8.000 centros religiosos estavam registrados legalmente. Entre os centros ilegais, mais de 4.000 eram templos evangélicos e católicos. O restante era de budistas, taoístas e santuários religiosos locais.

FAVELA MELHORADA

O texto abaixo foi escrito em 24 de janeiro de 2005. 
 

            Um dia desses, conversando com um amigo, disse-lhe que estava morando no Conjunto Guaíra, em Nova Parnamirim. Ele fez um sorriso maroto e me disse que eu estava morando numa favela melhorada. Pode acreditar! O cidadão é meu amigo mesmo. Mas ele se explicou. É todo mundo empoleirado, bem perto uns dos outros. Tudo o que se fala no aptº do vizinho, ouve-se no nosso: desde o palavrão do adulto stressado ao choromingar da criança. Não só se ouve, como se vê de quase tudo, um pouco. Eu mesmo já presenciei algumas cenas inusitadas: Ensaios de violências verbal e física; sessão sonora de sado-masoquismo, até um meio ensaio de strip.

            A única visão que me alegra está no mesmo plano do meu andar, a partir da porta da minha cozinha. A disposição dos aptºs é de tal forma que as áreas de serviços têm comunicação visual no plano horizontal e diagonal. Das janelas dos quartos, muito pode ser visto. Para quem gosta de privacidade é uma beleza! Acredita nisso?

            Mas o problema é a questão do som. É terrível! A coisa é tão séria que quase se ouve mesmo uma turbulência intestinal do vizinho. Sorte que não se está por perto e as paredes são ótimas trincheiras contra os torpedos envenenados do inimigo que mora ao lado.

            Pode acreditar! É sério!

            Às vezes, domingo cedo, entre as 07 h. e as 08 h., umas meninas que moram ao lado, soltam o som. Por incrível que pareça, não é lá nem uma sinfonia clássica para um domingo tranqüilo, é "Calcinha Preta". Pense no pulo que dou da cama! Num desses domingos, precisei falar com elas e pedir clemência. Fui ouvido e atendido. Educaaadaasss!

            Que me diz do som de cinema, vizinho a você, depois do almoço? Aquele som de móveis de uma tonelada sendo arrastados. Outro vizinho meu comprou uma aparelhagem de som que, vou lhe dizer, se ele aumenta mesmo, derruba o prédio. Pior! De vez em quando ele ensaia. Ontem, eu estava tomando banho; de repente, pensei: é um avião voando baixo; vai cair; valha-me Deus! Não! É trovão! Vai chover pesado! Que nada! Você já sabe o que era.

            Tem vizinho que gosta de música brega. Final de semana é tempo de muito Lindomar Castilho.

            Há outros que gostam de Rock, tipo Scorpions. Bom, aí é minha praia. Sem falar que tem quem goste de Calipso (dá para aturar um pouco; mas só um pouco, viu?), Belchior, Zé Ramalho, e outros bons de serem ouvidos.

            O pior de tudo, às vezes, é ter de escutar Mução. Imagine a altura do rádio do vizinho, obrigando todo mundo a ouvir aquilo.

            O que eu menos quero é incomodar a vizinhança. Às vezes, pego o violão; toco e canto umas músicas agradáveis (para mim, pelo menos). Tal foi a minha surpresa, quando o vizinho do térreo (e eu moro no 3º andar) comentou comigo que acordou cedo ouvindo o meu som. Que droga!!!

            Só lamento não ter quem goste de música clássica. Na verdade, tem: eu. Mas não tenho aparelho de som. Ah! Se eu tivesse!

            Tem nada, não! Eu ainda me vingo.

            Aproveitando, você respeita o seu vizinho?
Willians Moreira

EQUÍVOCOS DA FALA – EQUÍVOCOS DA AUDIÇÃO

 

            Sabe aquela história de sermos enganados pelos ouvidos quando ouvimos algo e depois descobrimos que não foi bem o que pensamos ser? A fala tem dessas coisas, sim. Alguns fazem brincadeiras com isso. Na escola, eu me lembro que um professor meu, quando queria alertar-nos sobre a necessidade de prestarmos atenção, dizia: "não confundam 'tratado de tordesilha com tarado atrás das ilhas'". Era aquela festa; a meninada vibrava. Volta e meia, ele vinha com uma nova. Uma que todo mundo conhece, ele dizia: "não confunda frei Damião com freio de caminhão".

            Fazer o que? São os trocadilhos da fala e "equívocos" da audição.

            Lembrei-me daquela história do menino que foi se matricular na escola. A secretária perguntou a ele:

- como é o seu nome?

            O pai do menino respondeu:

            - Edson Paulo.

            - Eu não perguntei de onde ele é. Quero o nome dele.

            O menino gritou:

            - Edson Paulo...

 

            Tal é o nosso deslumbre quanto a estas possibilidades da fala e da audição quando nos lembramos da "velha surda" da "Praça é nossa" (SBT). Haja dificuldade para ela entender o que ouvia.

            Bom! De equívoco em equívoco, lembrei-me de uma que eu presenciei nos idos dos anos oitenta, em Recife/PE. Naquela noite eu fiquei mais convencido ainda que certos nomes não devem ser colocados nos filhos. O bom Deus só no-los dá uma única vez e corremos o perigo de marcá-los de modo a criar um estigma dos infernos. Dos infernos nem tanto; só se o nome fosse Lúcifer, Belzebu, ou coisa parecida. Mas como prever certas circunstâncias? Não sei, não. Pelo menos o nome que tenho na memória não daria a impressão de alguém passar o que presenciei naquela noite.

            Eu e minha amiga Suerda estávamos no seu carro. Ela fazia algumas peripécias ao volante, características de quem ainda não tinha muita habilidade na direção. Eu imaginei que logo, logo, alguém iria dizer-lhe umas boas. Dito e feito. Por incrível que pareça, alguém, num carro, emparelhou-se conosco e começou a gritar: "Suerda, Suerda, Suerda". Do meu lado, eu escutava meio apreensivo. Suerda fazia que nem ouvia. E continuava o sujeito a gritar. Eu pensava: Poxa! Ela está tão acostumada com o nome dela que nem liga mais. E eu brincava com ela: Atende, mulher! Vai que é um fã anômino. Nesses pensamentos, eu disse a ela: Você não vai atender? Depois de algum tempo, ela parou o carro e, desaforada como era, mandou-me descer. Eu tomei um susto. Não entendi. Mas desci meio desnorteado.

            Enquanto eu estava descendo e não mais sentia o influxo dos movimentos do carro e do vento em meus ouvidos, ouvi novamente, quando o mesmo elemento passou por nós e gritou: "sua merda, sua merda, sua merda". Agora eu lhe pergunto: eu tenho culpa? Ainda bem que eu estava perto de meu destino.

Willians Moreira

DESCONFORTOS AO TELEFONE

 

Certos procedimentos ao telefone podem trazer muitos incômodos. Eu lhe digo por quê.

O telefone toca; você atende.

O seu interlocutor pergunta: "quem tá falando?". Se você não tiver certa experiência, poderá responder imediatamente dizendo o seu nome. Depois disto você pode não imaginar o que acontece.

Fiz uma pesquisa para saber quantas pessoas cometem aquilo que estou a renegar neste texto. O resultado deixou-me convicto de que deveria trazer este assunto à baila.

De certo modo, nestes tempos de celular é indecoroso alguém telefonar para você não permitindo que o seu visor mostre o número de quem está a ligar para você. Aparece no visor do seu aparelho: "Número confidencial" ou coisa parecida. Se for alguém conhecido, menos mal. E quando é alguém desconhecido? O seu interlocutor não identificado sabe o seu número; às vezes sabe também o seu nome, mas fica a incógnita: "Quem me ligou?".

Antes, minha filha ligava para mim dessa forma: "Número confidencial". Uma vez, eu atendi, mas não era ela. O indivíduo na linha disse-me um bocado de impropérios pensando que estava falando com um tal de "não-sei-quem". Eu tentava dizer que não era o tal, mas ele me mandava a certos lugares que eu não estava muito disposto a freqüentar. Depois daquele telefonema, eu tomei uma resolução: não atender mais a um telefonema se o interessado não se identificar, no mínimo, pelo seu número.

Lembro-me aqui de um episódio, acontecido quando eu morava no Estado das Alagoas, em Arapiraca. Morou em minha casa uma moça que sofreu algumas dores emocionais por atender indevidamente ao telefone. Pois bem, a nossa amiga atendeu ao telefone, coisa lá das 18:00 horas. Perguntaram o nome dela, que prontamente o disse. Pronto! Foi um desmantelo durante algumas horas. Ligavam de instante em instante. A cada vez, diziam coisas impróprias aos delicados ouvidos de uma jovem religiosa. Naquele episódio, algumas vezes eu atendi ao telefone. Fui mandado para várias situações às quais eu nunca me dispus. Foi preciso tirar o telefone do gancho para podermos sossegar naquela noite. Felizmente no outro dia o transtorno não voltou a acontecer.

Desde aquele dia, adotei a prática de, ao ligar para alguém, identificar-me primeiro. Também passei a solicitar que quem liga para mim se identifique de antemão (às vezes esqueço). Na verdade, espera-se que quem liga, diga com quem deseja falar ou que se identifique primeiro. É uma questão de educação mesmo. Se telefono para alguém, por que evitar identificar-me?

Há aqueles que ficam irados quando pedimos sua identidade ao telefone. Alteram imediatamente a voz, quando não dizem desaforos. É impressionante! Em local de trabalho, ligam e já vão perguntando: "Quem tá falando?". E isto na maior autoridade. Por ser lugar de trabalho, às vezes dou um desconto e digo quem está a falar. O impressionante é que logo após a pessoa começa a falar sem se identificar. Já vai pedindo informação, etc. Eu costumo interromper pedindo que a pessoa se identifique. Alguns parecem ficar envergonhados; outros parecem contrariar-se. Parece até que estou pedindo algo agravante. Haja paciência!

Ao celular e em casa, para mim, a situação é diferente. Portanto, quando você ligar para mim, não se chateie se eu lhe pedir que se identifique. Desde que você não se apresente primeiro ou que não diga com quem deseja falar.
 
Willians Moreira

LUTOS DE MINHA VIDA

  

O sentimento de perda de um ser que amamos é de extrema repercussão no nosso íntimo. Pode ser um animal ou um humano. Qualquer perda desse tipo é fatal. Passamos um tempo considerável com uma memória recorrente a momentos de nossos encontros e convivência. Tudo nos lembra o ente querido.

O meu primeiro sentimento de luto que me lembro foi em relação a um cãozinho meu, de nome "Dick". Eu era criança quando Dick foi eliminado por uns caçadores encomendados por uma mulher muito má. Outros animais já vi partirem de minha vida; por uns sofri; por outros nem tanto.

O meu primeiro sentimento de luto em relação a um humano aconteceu por morte de minha mãe. Eu tinha 18 anos quando ela foi obrigada a desocupar o seu espaço nessa dimensão.

No segundo e no terceiro lutos senti uma dor muito grande quando vi uma filha e um filho meus não conseguirem chegar a um convívio comigo. Partiram antes de verem a luz do sol. Depois deles, sofri com a partida de meu pai. Depois de viver 94 anos, ele foi embora. Mas consegui diluir todos esses sentimentos de luto. Às vezes a memória deles recorre, mas é algo administrável.

Para mim, outro tipo de luto acontece quando saem de minha vida pessoas que necessariamente não morrem, mas vão embora, distanciam-se. A distância pode ser física ou emocional, relacional. Muitos fatores contribuem para esse distanciamento. Pode ser um desentendimento, uma frustração, uma decepção, uma mudança por conta de necessidade profissional, e tantos outros motivos. Talvez mais alguns outros que alguém conheça, mas que não me ocorreram agora.

Quando a separação é natural, suporta-se melhor do que quando acontece por algum distúrbio relacional. Este é horrível, quando acontece contra a sua vontade. E se o outro morre sem uma reconciliação, a situação emocional de quem permanece nesta dimensão é ainda pior: talvez jamais tenha oportunidade de se recompor da mágoa ou da culpa.

Felizmente tenho conseguido administrar bem os meus lutos. Não me lembro mesmo de alguma noite que não tenha dormido por causa de algum.

Àqueles que ainda se debatem emocionalmente por causa de seus lutos, fica a esperança de que, quando forem motivo de luto para alguém, deixarão também de sofrer os lutos que agora lhes afligem.

E que a natureza siga em frente no seu curso.

Willians Moreira

“NÃO HÁ ESCRAVIDÃO SEM DEPRAVAÇÃO SEXUAL”

 

            Os humanos parecem tender naturalmente para a prática do abuso sobre aqueles a quem conseguem sujeitar. As relações humanas são plenas de sinais que direcionam a interpretação para essa compreensão. Não só em relação aos animais considerados irracionais, mas principalmente com os da mesma espécie, os humanos se superam cada vez mais nos atos de abuso.

            No aspecto sexual são comuns na história os relatos nos quais os vencedores sempre abusam dos vencidos, não somente para inferiorizá-los, como também para autosatisfazerem apetites sexuais.

            Estão lá os assírios, no seu período de hegemonia mundial antes de Cristo, abusando em todos os sentidos dos povos vizinhos seus e dos também distantes.

            Não passam despercebidos os babilônios no seu domínio subsequentes àqueles.

            Parece que os medo-persas foram menos extremados em abusos sexuais, mas talvez nos faltem mais fontes informativas.

            Os romanos não se fizeram de rogados em suas investidas de domínio mundial. Lemos de seus banquetes sexuais armados em terras estrangeiras.

            Os portugueses não seriam a exceção. Chegando ao Brasil, fizeram jus à prática humana de, usando o sexo, invadirem o mais recôndito do ser vencido. Pois, a introdução do pênis vencedor na vagina vencida reflete, consciente ou inconscientemente, a vitória completa. O pênis, na verdade, fere mais do que a espada.

Não precisamos nos estender mais em exemplos para compreendermos que junto com a escravidão anda a depravação sexual.

Assim, a depravação sexual pode implicar em anúncio constante aos vencidos e escravizados de que "nós, vencedores, estamos no poder".

Os fatos históricos apontam, portanto, para uma realidade que nos faz concluir que a escravidão faz-se sempre acompanhar da depravação sexual.

Willians Moreira

SANTOS DE LÁ - SANTOS DE CÁ

 

            O cristianismo, como toda religião, tem os seus veneráveis: homens e mulheres que recebem louvores e honras, em virtude de seus atos, considerados dignos de reconhecimento canônico. Tanto a ala romana e a grega ortodoxa, como a protestante e a anglicana, escolhem homens e mulheres em quem depositar suas honrarias. Claro, entre estes segmentos cristãos há diferenças qualitativas quanto à forma de devoção aos seus supostos santos e venerados. O catolicismo romano chega mesmo a dedicar status de intermediário entre os homens e Deus aos seus santos; enquanto que o protestantismo, mesmo não dando o mesmo status, camufladamente ou não, considera muitos dos seus homens e mulheres históricos como dignos de todo respeito e merecedores de toda a autoridade sobre o que o protestante pensa e diz. Na verdade, há uma verdadeira canonização prática. Basta a alguém a tentativa de discordar do que foi dito por tal baluarte protestante para ver se a "barraca" não lhe cai na cabeça. O catolicismo romano assume que canoniza homens e mulheres; o protestantismo, não.

            A lista de canonizados do catolicismo é longa. Inclui nomes da Antiguidade, da Idade Média, da Modernidade e da Contemporaneidade; desde os escritores bíblicos até nomes como Madre Teresa de Calcutá. São personalidades reconhecidamente dedicadas a Deus e à fé. Portanto, merecedores de devoção. Para protestantes, mesmo que diante deles não se prostem, valem os nomes de homens e mulheres que contribuíram para a formação da mentalidade cristã; desde os apóstolos, passando por homens como Agostinho, Jerônimo, Tomás de Aquino, até Lutero, Calvino, Huss, Wicliff, e tantos outros da modernidade, como também da contemporaneidade.

            O fato é que ninguém escapa de ter o seu "clube" de homens e mulheres reconhecidamente detentores de autoridade sobre o seu pensamento.

            E aqueles que tentarem questionar a autoridade destes finados, verão diante de si brandir a espada de uma inquisição, aberta ou camuflada, disposta a lhes decepar a cabeça e a lhes lançar às hienas de seus arraiais teológicos. Lembro aqui da música "Metrô Linha 743" de Raul Seixas. Será este um ícone meu no âmbito musical?

            Os homens de outros ramos do conhecimento também têm os seus "santos". Seja na Filosofia, no Direito, na Educação, na Economia, na Política ou em quaisquer outros ramos de atividade humana, todos têm os seus veneráveis. É irrelevante citar aqui os "santos" de cada uma destas atividades humanas, pois que nossa memória já nos assessora com galhardia dando-nos nomes aos milhares.

            O que diferencia a devoção de caso para caso é apenas o fato de que cada prática humana prescreve uma forma de como reverenciar o seu ícone eleito.

            Assim fica patente que nós humanos gostamos mesmo de nos submeter a autoridades outras, reverenciá-las, adorá-las, cultuá-las ou coisa que o valha, face à nossa necessidade de respaldo ao nosso sentimento de incapacidade de sermos o que somos por nós mesmos, sem precisarmos de muletas ideológicas, psicológicas, ou de quaisquer outras ordens.

            Daí a necessidade de findarmos com a hipocrisia de criticarmos os outros como se nós mesmos não tivéssemos os nossos ícones, os nossos santos.

Willians Moreira

UM POUCO DE MIM

SAUDADES

 

"Ai, ai, que bom! Que bom, que bom que é!

Uma estrada e uma cabocla

Com a gente andando a pé"

 

"Ai, ai, que bom! Que bom, que bom que é!

Uma estrada e a lua branca,

No Sertão de Canindé"

 

Ai, ai, que bom que eram aqueles tempos em que morei em Umburanas, perto de Arcoverde, interior de Pernambuco. Por aqueles idos ainda não tinha eu acesso direto a caboclas, mas a lua branca me iluminava em muitas caminhadas com amigos e amigas, por muitas veredas.

 

Ai, ai, quanta saudade daqueles idos. As noites eram cheias de surpresas nas historietas cheias de emanranhados da imaginação folclórica. Cada um que contasse a sua.

 

Épocas marcadas eram as noites de festas juninas. Naquelas, o mundo como que se transformava num palco de felicidade constante. A movimentação daquelas noites refutava o tédio das noites sem festas e sem encontros folclóricos. Muita agitação: quermesse, novena, balão e muito forró. Ah! Não faltava também aquela vontade de encontrar olhos femininos com os quais os meus pudessem cruzar. O que não deixou de acontecer, claro. Ficou marcada a donzela de verdade que dela me era proibida a aproximação. Mas não deixei de sentir um gostinho daqueles lábios pequeninos, porém, ainda me lembro, macios e carnudos. Doeu-me sem medida quando soube que o seu pai a mandou estudar na cidade.

 

Mas as festas continuaram. A lua continuou a iluminar os caminhantes por aquelas plagas. E eu, crescendo, fui também para a cidade. Passei então a sentir saudades das festas do interior. Cresci, e nunca mais voltei àquele lugar. Às vezes me pergunto por que sinto um aperto no íntimo quando chega o período das festas juninas. Quer ver piorar, é eu não dançar nenhum pouquinho num forró. Piora ainda quando escuto a música, impossibilitado de agarrar uma "donzela" para dançar. Não deixo de admitir que qualquer "arraiá" armado possibilita-me um suavizar e, ao mesmo tempo, um relembrar de uma vontade de reviver o passado. Como serão hoje aquelas donzelas e aquelas estradas? E a quem estará hoje a iluminar aquela lua? E aqueles que caminhavam comigo, como estarão? Mas de todas as respostas, a que eu mais queria era saber daquela donzela com quem troquei o meu primeiro beijo.
Willians Moreira

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

LINGUÍSTICA PARA A REFLEXÃO TEOLÓGICA

 

Os teólogos, em sua grande maioria, estão conscientes de que o seu discurso recebe contribuições de vários ramos do conhecimento. No entanto, lamentável é existirem teólogos que não entendam assim. Alguns teólogos advogam que o simples conhecimento teológico é suficiente para cumprimento do seu ofício. Contando ainda que nem mesmo das reflexões teológicas mais recentes tomam conhecimento. Talvez porquê as mesmas dialogam com outras vertentes de conhecimento.

            Uma ciência que contribui consideravelmente para o bom desempenho do discurso teológico é a Linguística. Dito isto, valem algumas considerações sobre a contribuição que esta ciência opera no exercício daquela.

            De imediato urge que se apresente o conceito de Linguística, como também que se delineie, mesmo que laconicamente, sua esfera de ação. Este proceder apontará compreensões de como a teologia poderá ser beneficiada pela linguística.

 

            Semiótica ou Semiologia é a ciência que "estuda os sistemas de signos, quaisquer que eles sejam e quaisquer que sejam as suas esferas de utilização". Este é o conceito de Semiótica apresentado pelo professor Edward Lopes, professor da USP.[1] A Linguística por sua vez faz parte da Semiótica, atendo-se especificamente à modalidade das línguas naturais.

            O prof. Edward Lopes refere-se à linguística de uma maneira que ratifica a necessidade de conhecimento desta ciência por parte do teólogo. Textualmente ele nos diz: "A Linguística assumiu, nestes últimos anos, o papel de ciência-piloto, fornecendo subsídios para uma imensa quantidade de outras disciplinas. "Imensa quantidade de outras disciplinas" envolve a teologia, pois que é uma ciência que depende decisivamente do discurso falado e escrito".

No século XIX, o termo linguística foi usado para distinguir o novo caminho no estudo da linguagem em contraposição ao enfoque tradicional da Filologia. Enquanto a Filologia está voltada para a evolução histórica das línguas, a Linguística preocupa-se com a língua falada e a sua manifestação em determinada época. Como ciência propriamente, a Linguística surgiu no começo do século XX com o suíço Ferdinand de Saussure, fundador do Estruturalismo linguístico na Europa.

            Eni Pulcinelli Orlandi, no seu livrinho: O que é linguística?[2], responde à pergunta dizendo que é o "estudo científico que visa descrever ou explicar a linguagem verbal humana".

            Ora, o teólogo é, necessariamente, alguém que pretende transmitir um conhecimento. Para isto, ele precisa comunicar-se com seu interlocutor. Neste processo há uma seleção de elementos linguísticos, combinados entre si nos momentos da reflexão e da transmissão do refletido. Como se evidencia esta realidade? Ora, o teólogo interpreta um texto sagrado. Na dimensão lexical, este texto está vinculado a toda uma realidade cultural de linguagem de uma época "de acordo com o sistema sintático da língua que utiliza". Por ser um texto sagrado, possui uma linguagem que não é comum a outras esferas da linguagem humana. Já se percebe aqui a contribuição para a teologia por ser a Linguística uma ciência que estuda o tipo de linguagem utilizada em cada ramo do conhecimento humano. Esta mesma Linguística possibilita ao teólogo subsídios para que descubra os "mecanismos linguísticos" de como transmitir eficazmente o seu conhecimento, não somente aos que conhecem a sua linguagem, como também aos que não estão afeitos ao seu campo de conhecimento. No dia-a-dia, isto está patente. Para alguém entender o discurso advocatício é necessário absorver alguns conhecimentos de como a linguagem do Direito funciona. Nesta empreitada é impossível não passar pela estrada da Linguística. Todos os signos e seus significados que compõem o discurso jurídico deverão ser estudados para que a comunicação entre os interessados seja não só eficiente, mas também eficaz. Tentar alguém conversar com um advogado sem estar informado de como funciona a linguagem do Direito sentir-se-á um perfeito idiota. Assim acontece no âmbito teológico. Isto explica, em muitos casos, porque alguns teólogos são considerados hereges. Muito da incompreensão está no âmbito da linguagem. Muitos que mantêm contato com a linguagem teológica não estão habilitados para compreendê-la. Como também acontece o inverso: teólogos, desavisados e desinformados quanto às questões linguísticas, comunicam ineficazmente os seus conhecimentos causando confusão na mente dos seus circunstantes. Disso parte a necessidade de se questionar se o fato de um discurso ser considerado herético deve-se a problemas de comunicação ou a problemas estritamente teológicos. Por estas simples colocações, já podemos entender que o teólogo necessita da Linguística.

            Tratando-se especificamente do conhecimento dos textos originais da Bíblia ou de qualquer outro texto sagrado escrito em outra língua, de vez que uma teologia devidamente articulada implica no conhecimento das línguas originais, há uma necessidade premente de que o teólogo angarie, no mínimo, noções básicas da ciência linguística. Partindo-se da compreensão de que a tarefa básica do teólogo é uma tarefa eminentemente hermenêutica, visto interpretar a revelação contida nos textos sagrados, e que toda tarefa hermenêutica é uma tarefa também linguística, não há como o teólogo se desvencilhar da necessidade deste conhecimento. Desta conclusão, entende-se que os centros de preparação de teólogos têm falhado por não possuírem em seus programas de ensino a ciência da linguagem. Ficam tais teólogos à mercê de si mesmos quanto à busca de conhecimentos linguísticos.

            A linguística na sua evolução como ciência, incluiu nos seus estudos a análise do discurso. A proposta básica é considerar a relação da linguagem com a exterioridade, entendendo-se linguagem como uma pluralidade de signos convencionais com uma significação comum a um grupo de organismos, produzidos pelos usuários; e entendendo-se exterioridade como condições de produção do discurso. Essas condições são: o falante, o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social (ideológico). Essas condições vêm, muitas vezes, "camufladas" por formações imaginárias: a imagem que o falante tem de si, a que tem do seu ouvinte e tantas outras imagens. Nesta esteira de compreensão, como um agente de discurso, o teólogo precisa, mais do que se imagina, conhecer a Linguística para que ele mesmo não seja presa fácil de uma lógica sofismática e comprometedora do discurso teológico, principalmente se não compreende os "mecanismos" da exterioridade.

            Desse pouco falar, é impossível não se conceber a necessidade de que o teólogo pense não somente a sua linguagem, como também a linguagem do seu interlocutor. Para isto, por que não procurar orientações linguísticas fundamentadas? Por que achar que somente o curso de teologia é suficiente para responder aos questionamentos da revelação?

Willians Moreira



[1] Fundamentos da Linguística Moderna - Cultrix, 1977.

[2] Editora Brasiliense.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

BILLY GRAHAM NO VEL' D'HIV

Esse texto de Roland Barthes apresenta uma análise deveras contundente de um episódio caracterizadamente protestante, mas com seu paralelo em outras plagas religiosas. Vale a pena ler a crítica. Seria bom ler comentário sobre o este texto.
Willians Moreira
 
 

Tantos missionários nos contaram lá os costumes religiosos dos "Primitivos", que é pena que um feiticeiro papua não estivesse no Vel'd'Hiv' para nos contar, por sua vez, a cerimônia presidida pelo Dr. Graham sob o nome da campanha de evangelização. Temos aqui, no entanto, um belo material antropológico, que parece, aliás, ter sido herdado dos cultos "selvagens", visto que nele reencontramos nitidamente as três grandes fases de todo o ato religioso: a Espera, a Sugestão, e a Iniciação.

Billy Grafam demora: cânticos, invocações, mil pequenos discursos inúteis confiados a comparsas pastores ou a empresários americanos (apresentação do grupo: o pianista Smith, de Toronto, o solista Beverly, de Chicago em Ilinois, "artista da rádio americana que canta maravilhosamente o Evangelho"); toda uma encenação de charlatães precede o Dr. Graham que é mil vezes anunciado e não aparece nunca. Ei-lo finalmente, mas é só para transferir melhor a curiosidade, pois o seu primeiro discurso não é verdadeiro: prepara apenas a chegada da Mensagem. E outros intermédios prolongam ainda a espera, aquecem a sala, fixam antecipadamente a importância profética da Mensagem, que, segundo as melhores tradições do espetáculo, começa por tornar-se desejada para, em seguida, existir mais facilmente.

Pode reconhecer-se nesta primeira fase da cerimônia o grande poder sociológico da Espera, que Mauss estudou, e de que já tivemos em Paris um exemplo bem moderno nas sessões de hipnotismo do Grand Robert. Aí, também, se atrasava o mais possível a aparição do Mago, e criava-se no público, através de repetidas simulações, uma curiosidade perturbada, sempre disposta a ver realmente o que lhe fora prometido. Aqui, desde o primeiro minuto, Billy Graham é-nos apresentado como um verdadeiro profeta: suplica-se o Espírito de Deus que se digne baixar a ele, nessa noite em particular: é um Inspirado que vai falar, o público é convidado a assistir ao espetáculo de uma possessão: pede-se-lhe previamente que aceite como palavras divinas as palavras de Billy Graham.

Se Deus fala realmente pela boca do Dr. Graham, temos de reconhecer que Deus é surpreendentemente tolo: a Mensagem espanta pela sua chateza, pelo seu infantilismo. Em todo o caso, certamente, Deus abandonou o tomismo, e demonstra nítida aversão pela lógica: a Mensagem é constituída por uma infinidade de afirmações descontínuas lançadas ininterruptamente, sem nenhuma espécie de relação entre elas, e cujo conteúdo é apenas tautológico (Deus é Deus). O mais insignificante irmão marista, o pastor mais acadêmico, fazem figura de intelectuais decadentes perto do Dr. Graham. Alguns jornalistas, enganados pelo cenário huguenote da cerimônia (cânticos, reza, sermão, bênção) anestesiados pela compunção lenificante característica do culto protestante, louvaram o Dr. Graham e a sua equipe pela sua moderação: esperava-se um americanismo exacerbado, "girls", jazz, metáforas joviais e modernistas (mesmo assim, sempre houve, duas ou três). Sem dúvida Billy Graham depurou a sessão de todo e qualquer pitoresco, e os protestantes franceses puderam recuperá-lo. Apesar de tudo, o "gênero" Billy Graham rompe com toda uma tradição do sermão, católico ou protestante, herdada da cultura antiga, que só funciona em termos de persuasão. O Cristianismo ocidental sempre se submeteu, em seu método expositivo, ao quadro geral do pensamento aristotélico, sempre aceitou colaborar com a razão, mesmo quando se tratava de inspirar confiança no irracional da fé. Rompendo com séculos de humanismo (mesmo apesar de suas formas terem sido ocas e rígidas, a preocupação de um outrem subjetivo raramente esteve ausente do didatismo cristão), o Dr. Graham apresenta-nos um método de transformação mágica: substitui a persuasão pela sugestão: a violência e intensidade da declamação, o expulsar sistemático de todo o conteúdo racional da proposição, a ruptura incessante dos encadeamentos lógicos, as repetições verbais, a designação grandiloquente da Bíblia erguida na ponta dos dedos como o abre-latas universal de um "camelot" e sobretudo a ausência de calor humano, o desprezo manifesto pelo outro, todas estas operações fazem parte do material clássico da hipnose de music-ball: repito, não existe nenhuma diferença entre Billy Graham e o Grand Robert.

E da mesma forma que o Grand Robert terminava o "tratamento" do seu público por uma seleção particular, distinguindo e chamando ao palco os eleitos da hipnose, confiando a alguns privilegiados o encargo de manifestar um adormecimento espetacular, assim Billy Graham coroa a sua Mensagem por uma segregação material dos "Chamados": os neófitos que essa noite no Vel'd'Hiv', entre os anúncios publicitários da Super-Dissolução e do Cognac Polignac, "receberam Cristo" sob a ação da Mensagem mágica, são conduzidos a uma sala à parte, e mesmo a uma cripta ainda mais secreta, se forem de língua inglesa: pouco importa o que lá se passa, inscrição nas listas de conversão, novos sermões, entrevistas espirituais com os "conselheiros", ou peditórios: este novo episódio é o ersatz formal da Iniciação.

Tudo isto nos diz respeito muito diretamente: para começar, o "sucesso" de Billy Graham manifesta a fragilidade mental da pequena burguesia francesa, classe onde se recrutou, ao que parece, a maioria do público dessas sessões: a plasticidade de adaptação deste público a formas de pensamento alegóricas e hipnóticas sugere que existe neste grupo social aquilo a que se poderia chamar uma situação de aventura: uma parte da pequena burguesia francesa já nem é protegida pelo seu famoso "bom-senso", que é a forma agressiva da sua consciência de classe. Mas não é tudo: Billy Graham e a sua equipe insistiram fortemente, e por diversas vezes, no objetivo desta campanha: "desperta" a França ("Vimos Deus fazer grandes coisas na América; um despertar de Paris teria uma influência imensa sobre o mundo inteiro" – "Nosso desejo é que alguma coisa aconteça em Paris, que tenha repercussões sobre o mundo inteiro"). Obviamente tal óptica é idêntica à de Eisenhower nas suas declarações sobre o ateísmo dos franceses. A França existe para o mundo pelo seu racionalismo, sua indiferença à fé, pela irreligião dos seus intelectuais (tema comum à América e ao Vaticano; tema, aliás, já muito batido): é deste pesadelo que se torna necessário arrancá-la. A "conversão" de Paris teria evidentemente o valor de um exemplo mundial: o Ateísmo abatido pela Religião no seu próprio covil.

De fato, sabemos que se trata de um tema político: o ateísmo da França só interessa a América porque, para ela, ele constitui a primeira etapa para o Comunismo. "Despertar" a França do ateísmo é despertá-la do fascínio comunista. A campanha de Billy Graham foi apenas um episódio maccarthista.

 

BARTHES, Roland. Mitologias. 10 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. 192p.

sábado, 26 de setembro de 2009

HUMANOS E SUAS DISPARIDADES

TRANSPORTE ESCOLAR NO JAPÃO E NA ÍNDIA
De minha parte não tenho comentário. As fotos por si mesmas dizem tudo.
Valha-nos a Providência!!!!!!!


NO JAPÃO








NA ÍNDIA




E então? O que diz sobre isso?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

IMPOSSIBILIDADES VERSUS LIBERDADE

Se a todos fosse dada a oportunidade de voltar no tempo, com a possibilidade de interferir no seu próprio destino, provavelmente a maioria aceitaria a oportunidade. Quantos, se voltassem ao passado para retomarem a caminhada, não mais casariam com a mesma pessoa, não morariam em certos lugares que moraram, não mais escolheriam a mesma profissão, não mais iriam a certos lugares que foram, não tomariam certas decisões que até hoje refletem seus resultados indesejáveis? É verdade que algumas realidades podem ser revertidas, mas e o tempo que se perdeu? Esse é irrecuperável.

Em alguns mais, em outros menos, o fato é que nos machucam profundamente algumas reminiscências quando não as podemos depurar.

Todos nós temos algo que gostaríamos que fosse mudado em nossa vida; disso nós não podemos escapar.

Acontece um transtorno em nossas emoções quando deixamos que frustrações se acumulem em nossas lembranças. Remoer, murmurar sobre alguma coisa é como uma coceira... quanto mais se coça mais se deseja coçar! E quando menos esperamos, a ferida está feita!

A vida não é como certos jogos que podemos sempre reiniciar. Para muitos, a vida é como um jogo de uma única partida. Perdeu; perdeu. Ganhou; ganhou. Na verdade, nós nos condicionamos ou fomos condicionados a nos vermos assim: como perdedores ou ganhadores. Talvez isso explique porque há tanta competição entre os humanos. Isso é determinado pela cultura ou é resultado da própria natureza? O fato é que algumas jogadas, neste jogo de uma única partida, até que podem ser revistas e refeitas; no entanto, a partida é uma só; com vitória ou derrota; uma ou outra, quem identifica o nosso caso? Pensando, porém, pelo prisma de que algumas jogadas podem ser revistas e refeitas, acredito ser possível que novas medidas sejam tomadas; medidas essas que, sem dúvida, mudarão o rumo do jogo.

É preciso muita vontade e coragem para que revisões e mudanças sejam realizadas. Há humanos que se lançam nestas investidas de mudanças. Há aqueles que desfazem casamentos e aventuram-se novamente. Há aqueles que mudam de profissão. Há aqueles que mudam de fé. Há os que mudam de emprego. Há sempre alguém disposto a fazer algo por si quando descobre um sentido mais amplo do que seja liberdade.

Parece que muito do que somos se processa no âmbito da consciência do que seja liberdade. Pode ser uma questão de conceito. Alguns se sentem livres para começar tudo de novo, mesmo que para isto tenham que arcar com consequências às vezes cruéis. Outros não são tão corajosos. Muitos, em virtude de certa consciência ética, conformam-se em suportar amarguras, visando não prejudicar a outros. Permanecem como escravos de circunstâncias extremamente doentias, conseguindo, sabe-se lá como, adquirir certa tolerância a uma má fortuna.

No entanto, como todo conceito é passível de revisão, desenvolvimento ou abandono, e levando-se em consideração que a vida nos prega peças que podem mudar-nos da noite para o dia, é possível que encontremos quem aja do modo como nunca esperaríamos.

O enfoque está na nossa compreensão do que seja liberdade e também no nível de liberdade que nos permitimos.

Entra aqui uma reflexão superlativamente revolucionária: Qual a compreensão que temos do que seja liberdade e qual é o nível de nossa liberdade em face desta compreensão?

Desde que nascemos, são-nos impostos limites com os quais haveremos de conviver por muito tempo, se não por toda a nossa vida. A família, a escola, a igreja, o Estado, os amigos, etc., transmitem-nos parâmetros que incorporamos em nossa visão de mundo e de relacionamento. Generalizadamente, passamos pela vida presos a toda uma herança cultural que nos condiciona a certas ações e reações. Fugindo da generalização, há muitos que conseguem reavaliar essa herança cultural, construindo novos rumos para a sua vida. Aqui se encontra a diferença entre muitos: os que aprendem a viver por si e os que não conseguem libertar-se de certas amarras culturais.

A luta começa quando nos defrontamos com situações em que surge a necessidade de refletirmos a diferença. Uns conseguem superar-se; outros continuam acomodados ou aprisionados.

Uma contingência humana que interfere poderosamente em nossas decisões é o medo. O medo tolhe, no mais das vezes, a busca da liberdade, levando-nos a ter medo do que os outros irão pensar, do que nossas ações poderão causar aos outros, principalmente aos que amamos. Temos medo de perder algo ou alguém que julgamos extremamente significante. Temos, às vezes, medo de um futuro incerto. Justificamos as nossas recalcitrações citando o ditado: "Mas vale um pássaro na mão do que dois voando". E, por isso, muitos continuam a sua vidinha sôfrega e aprisionada, suportando amarguras.

Há, sem dúvida, realidades às quais não podemos aplicar mudanças. No entanto, no mais das vezes, podemos recomeçar, apesar do tempo perdido. A questão é: assumimos ou não a liberdade de recomeçar?

Impossibilidades podem ser apenas uma questão de visão. O nível da consciência que temos de nossa liberdade poderá fazer a diferença consideravelmente.

Willians Moreira