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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A LÓGICA DO AQUÁRIO


            Raciocínio na língua grega diz-se logismo,j, (transl. loguismós), que tem a mesma raiz das palavras lo,goj, (transl. logos) e logiko,j (transl. loguikós), que são respectivamente traduzidas pelas palavras discurso e lógica.
O raciocínio consiste na capacidade de organização dos pensamentos para a elaboração de argumentos que levem a conclusões consideradas devidamente resultantes de uma cadeia de premissas. Por outras palavras, todos os processos de pensamento envolvendo argumentação, conclusão, inferência, indução, dedução, comparação, etc., são raciocínio.
Como não poderia deixar de acontecer, os teóricos têm lá suas diferenças quanto a conceituação de raciocínio, mas o fato é que, no final das contas, mesmo que usem caminhos diversos, acabam não fugindo da classificação fundamental que divide o raciocínio em dedutivo e indutivo, já estabelecida por Aristóteles em seu Organon.
A lógica, por sua vez, é a ciência que estuda os princípios e regras que dirigem o raciocínio. Aqui também os teóricos divergem quanto à conceituação.
Disto decorre que a lógica existe para corrigir raciocínio errado.
Aqui a lógica está como uma disciplina que dirige o raciocínio correto.
O que é raciocínio correto? Eis uma questão pertinente!
Quando escuto pessoas argumentando, procuro ligar o que elas dizem em suas premissas com aquilo que concluem em seus argumentos. Às vezes tenho até náusea por conta de querer entender como elas chegam àquelas conclusões. O fato é que elas costumam acreditar em absurdos, muitas vezes se defendendo com justificativas que só revelam o quanto elas estão dominadas pela ignorância.
Antes de contar duas experiências com este assunto, uso um exemplo sobre o que quero dizer com pensar logicamente; exemplo este tirado de um livro dos prefessores Cinara Nahra e Ivan Hingo Weber.[1] Siga os passos do argumento, com adaptação nossa.
"Um homem estava olhando uma foto, e alguém lhe perguntou: 'De quem é esta foto?'. Ao que ele respondeu: 'Não tenho irmãs nem irmãos, mas o pai deste homem é filho de meu pai'. De quem era a foto que o homem estava olhando?".
Pare um pouco e tente resolver por si mesmo este raciocínio.
A pergunta é: "De quem é esta foto?".
Os envolvidos na questão são:
- Aquele que pergunta; identificamos com "A";
- Aquele que olha a foto: "B";
- O homem fotografado: "X" por ser a incógnita.
Só tem importância aqui o homem que olhava a foto e fez a charada, "B".
Quais são as informações de "B"?
1 – "B não tem irmãos nem irmãs".
2 – "O pai do homem da foto é filho do pai do homem que olhava a foto".
Ou seja, o pai de X é filho do pai de B.
Ora, o pai de X é B.
Se B é pai de X, então X é filho de B. O problema está resolvido.
O homem da foto (X) é filho do homem que olhava a foto (B). Portanto, o homem olhava a foto de seu filho.
"Um homem olhava uma foto, e alguém lhe perguntou: De quem é esta foto? A resposta foi: "Não tenho irmãs nem irmãos, mas o filho deste homem é filho de meu pai". De quem é a foto?
Pois bem!
Dadas estas charadas, vou aos meus exemplos.
Certa vez, um colega de trabalho me abordou perguntando se eu acreditava na vida após a morte. Eu respondi que nem acreditava nem desacreditava. Inesperadamente ele se irritou. E disse que se eu não acreditava na vida após a morte, eu era ateu. Deu-me náuseas. Perguntei-lhe qual a relação entre acreditar que Deus existe e acreditar na vida após a morte. Ele, do alto de sua ignorância, respondeu: "Porque a Bíblia diz!". Deu-me mais náuseas. Dizer que se alguém não acredita na vida após a morte, então não acredita em Deus é tão verdade quanto dizer que se uma árvore tem folhas, então eu vi um macaco na esquina. Do ponto de vista racional, uma coisa não depreende da outra. Por quê? Porque o Criador poderia muito bem ter criado a humanidade sem vida após a morte. E isto não anularia a existência do Criador ou a sua credibilidade. Ele poderia criar o homem absolutamente mortal. Por que não? Outro fato, e este agravante, é que a própria Bíblia é depósito literário de crenças não só na existência da vida após a morte, mas também na inexistência da mesma vida. Jó 7, 9 expressa essa crença. O salmo 115, 17 diz: "Os mortos, que descem à terra do silêncio, não louvam a Deus". Eclesiastes 9, 10 diz que "no mundo dos mortos não se faz nada, e ali não existe pensamento, nem conhecimento, nem sabedoria. E é para lá que você vai". Em Israel houve historicamente a crença de que com a morte, tudo acabava. Depois do cativeiro babilônico, a crença foi revista e muitos pontos foram alterados. Observe-se ainda que os saduceus eram judeus religiosos, tementes a Deus (mesmo que de forma diferente dos fariseus), mas nem por isso acreditavam em anjos, demônios, ressurreição, e coisas do tipo. E se alguém disser: "mas Jesus acreditava naquelas coisas", pode-se dizer que Jesus era teologicamente um fariseu. Portanto, não poderia ser diferente. Assim como a Igreja seguiu a teologia paulina, que era farisaica (não hipócrita). Portanto, não acreditar na existência da vida após a morte, não implica em ser ateu. Frise-se que eu não disse que não acreditava. Eu disse ao meu interlocutor que nem acreditava nem desacreditava. O que é diferente. Significa que não tenho subsídios convincentes para uma ou outra postura, por mais que argumentos existam de ambos os lados.
Certa vez uma estudante de direito, condicionada aparentemente por um estereótipo do que seja um filósofo, perguntou-me se eu era ateu. Pareceu-me que ela queria apenas a confirmação de que havia a ligação de resultado entre as duas realidades, ou seja, se é filósofo, é ateu. Eu respondi que nem defendia nem atacava o ateísmo. Ela teve a mesma reação do meu interlocutor anterior. Bom! A discussão estendeu-se um pouco mais. Terminou com ela saindo aparentemente zangada. Por que terá sido? Não sei por que o senso comum, via de regra, apega-se tão ferrenhamente a um dualismo de acreditar ou não acreditar em algo, quando alguém pode não estar habilitado ainda a tomar partido numa dada discussão.
Quando me lembro destes e de outros exemplos protagonizados por aqueles que raciocinam apenas condicionados por um senso comum precário, vem à memória o conto "A lógica do Aquário".
Conta-se que um homem, andando por uma rua de sua cidade, encontrou-se com um amigo com vários livros debaixo do braço. Disse-lhe então, admirado:
- Que é isso, rapaz! Eu nunca lhe vi com livros!
O amigo respondeu: "É que agora estou estudando lógica".
- Lógica? O que é isso? Perguntou o primeiro.
- Vou lhe explicar: Você tem aquário em casa?
- Tenho, sim. Foi a resposta.
- Se você tem aquário, então você tem peixinhos. Se você tem peixinhos, você tem crianças.
- Poxa! É verdade! Respondeu o primeiro.
- E digo mais: se você tem crianças, você tem filhos. Se tem filhos, tem mulher; se tem mulher, é casado.
O primeiro, já extasiado, diz: "Caramba! É verdade!
O segundo conclui: "Se você é casado, então você não é gay".
O primeiro em êxtase intelectual pede, encarecidamente, um dos livros para estudar também a lógica.
O amigo cede o livro e vai embora.
O homem, agora com o livro debaixo do braço, segue caminho.
Mais a frente, encontra outro amigo.
- Olá! Como estás?
- Ah, rapaz! Agora estou estudando lógica.
- É o que? Eu nunca te vi com livro. Que aconteceu? Você está estudando o que?
- Lógica, rapaz! Vou lhe explicar: "Você tem aquário em casa?"
O amigo responde: "Não!".
O novo estudante de lógica conclui: "Então você é gay!".

Gostou da lógica do aquário?
Mas é assim que a grande maioria dos humanos raciocina. E acha que está fazendo proezas com a sua inteligência.
A relação do discurso do senso comum com a Lógica como disciplina é que aquele possui enunciados simples e compostos, relacionados por conectivos, operadores lógicos, permite representação simbólica, etc., mas, da perspectiva dos fatos, é pura falácia, como bem se percebe no conto acima.
A questão não é apenas de raciocinar corretamente, mas de o raciocínio ser compatível com os fatos. Exemplifico. Eu raciocino corretamente quando digo: Somente todo ser vivo tem dois pés; a estátua tem dois pés. Logo, a estátua é um ser vivo. Este raciocínio está correto, mas da perspectiva dos fatos eu sei que enunciei um absurdo. O raciocínio correto depende da Lógica, mas verdade extrapola os seus limites.
Infelizmente, sei que continuarei a escutar enunciados conciliados com a Lógica, embora desvinculados de verdade fatídica e conjugados com postura sofismática, sem que seus elaboradores percebam em que pântano de ignorância se encontram.
Paciência!
Tragam-me mais Engove!




[1] NAHRA, Cinara & WEBER, Ivan Hingo. Através da lógica. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. Págs 17-19.

MONOGAMIA EM SÉRIE OU POLIGAMIA


            Moro em Natal / RN desde dezembro de 1992. Esta cidade é uma das melhores do Brasil; para mim talvez a melhor. Aqui eu construí uma das partes mais significativa de minha vida. Aqui eu casei; aqui tive uma filha; daqui não quero sair. Aqui, provavelmente, chegarei a meio século de existência neste ano de 2010.
            O meu primeiro contato com a monogamia em série foi quando morava nas Alagoas. Lá eu soube de um colega que se casara pela segunda vez. Naquela época, não me passava pela cabeça, nem em sonho, que um dia eu também experimentaria tal fato. Lembro-me bem das críticas que o colega recebia por tal procedimento. Lembro também de justificativas que alguns davam para o que ele fez.
            De lá para cá, passei a encontrar amigos, conhecidos e desconhecidos que vivenciaram e vivenciam a monogamia em série. Passei também a conhecer amigas, conhecidas e desconhecidas com a mesma vivência. Sem contar que, desde os anos 80, a mídia televisiva e escrita fez retumbar a monogamia em série.
            Ontem, eu visitei um templo evangélico, a convite de um amigo, e o que vi lá? Encontrei dois amigos com suas esposas. Cada um com a sua, claro. Uma delas com sua barriga que mais parecia um desfile de 07 de setembro e a outra se preparando também para ter um filho.
            Enquanto se transcorria o culto, minha memória funcionou freneticamente. Vi aqueles amigos com a primeira esposa e filhos. Um deles eu visitei na sua própria casa. Lembrei-me também de outros e outros que, aqui em Natal, também estão na mesma condição deles. Alguns já na terceira ou quarta esposa. Conheço homens e mulheres evangélicos, católicos, etc., todos com esta vivência. E haja memória!
            Eu moro num lugar que considero fantástico. Vizinho ao condomínio em que moro, há duas criações de galináceos. Do meu kitnet, primeiro andar, eu vejo quase tudo nos dois ambientes vizinhos. O que mais me encanta são os animais: Galinhas, patos, guinés, gavião ripina (como é chamado popularmente, embora eu ache que deve ser "de rapina"; não sei; não pesquisei ainda sobre isso), saguíns, passarinhos, lagartixas, etc. É uma fartura da mãe natureza que me faz lembrar de quando morei em fazenda, no interior de Arcoverde / PE.
            Pois bem!
            Hoje, ao acordar, fiquei a olhar um galo rodeado de galinhas. As franguinhas a crescerem, já se preparando para o "matrimônio" com "seu" futuro "marido". Aquilo me fez rir muito. Lembrei de uma série de espécies da natureza que vive da mesma forma: macho com seu "harém". Daí a passar para a poligamia humana foi um passo curtíssimo. Na contemporaneidade, lá estão os árabes.
            Há muito tempo venho a refletir sobre estes assuntos. Já pesquisei bastante sobre isso. Mas não vou aqui discorrer sobre minhas pesquisas. Quero só ventilar uma tese que li a algum tempo, cujo teor era: "Monogamia em série é um sinônimo de poligamia". O tal autor (não lembro mais do endereço na Internet) defendia que a diferença entre monogamia em série e poligamia é que na primeira as esposas vêm uma de cada vez; ou seja, não convivem juntas com o esposo, pois cada esposa acontece quando a anterior já não convive mais com o marido. Na poligamia todas as esposas convivem ao mesmo tempo com o varão. Interpretei a tal tese como pertinente visto a diferença ser apenas quanto a uma ordem de acesso ao cônjuge, por parte das mulheres ou dos homens.
            Se pensarmos por este prisma, nosso país, cujas leis, costumes e usos incorporam o divórcio, convivência estável e concubinato, é poligâmico. A tradição cristã não conseguiu barrar tal prática nem mesmo entre os seus adeptos. Decorre disto que alguém é monogâmico apenas se, e somente se, casou uma única vez na vida. Do contrário, praticou monogamia em série e, pela tese daquele autor, seria polígamo, portanto.
            Mas está aqui esse assunto apenas para a reflexão. Não me cabe plantar estaca em um terreno tão pisado e revolvido quanto este.
            Se você tem algum parecer sobre o assunto, faça um comentário. Será muito bem-vindo.
            Se tiver oportunidade, escute Martinho da Vila, cantando "Mulheres"[1].
            Saúde nas suas relações conjugais.
Willians Moreira




[1] Mulheres
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei

Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeças e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz

Mas nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim

Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim