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domingo, 19 de julho de 2009

POR QUE ESTUDAR AS LÍNGUAS BÍBLICAS ORIGINAIS?

 

Incomodou-me a defesa de um professor de Seminário Evangélico quanto à extinção do ensino das línguas bíblicas originais do curso de Teologia. A alegação era a de que o avanço que o cristianismo já teve em termos de trabalhos exegéticos e de tradução dispensa hoje o estudo das línguas originais por parte dos seminaristas, de vez que estes podem acessar, tanto na língua vernácula como em outras línguas, a comentários, dicionários, etc., que os ajudarão a entender o texto bíblico. Esqueceu-se o tal professor de que ele mesmo aventou o estudo de idiomas modernos em sua argumentação. Qual seria o seu engasgo com os idiomas bíblicos originais? Em parte não posso deixar de concordar com tal argumento. Mas esta minha concordância atém-se apenas ao estudo empreendido pelos cristãos leigos. No entanto, dificulta-me saber que os supostos teólogos graduados naquele tal Seminário estarão desabilitados para uma tarefa de maior peso, quando se trata da exegese bíblica. Aqueles supostos teólogos ficarão à mercê do trabalho de segundos e terceiros, nunca tendo uma visão pessoal do assunto exegético, caindo assim na desvantagem de argumentação em relação aos exegetas que se preparam nas línguas originais. Ou seja, aqueles teólogos não terão cacife para defenderem seus pontos de vista quando forem apresentados a uma argumentação que estampa pressupostos linguísticos. Ficarão à mercê da ajuda de quem? Daquele que argumentou para que o ensino das línguas bíblicas originais fosse extinto do seu curso de teologia? O curioso e problemático é que aquele que argumentou para tal não conhece as línguas bíblicas originais e, tanto quanto os seus pupilos, vive à mercê, estritamente, das opiniões de segundos e terceiros sobre tradução e exegese.

            É indiscutível o fato de que o exegeta conhecedor das línguas bíblicas originais leva considerável vantagem em seus estudos. Não só na sua exposição de estudos, como também em sua argumentação apologética. E, como se não bastasse, serão mais confiáveis em sua interpretação do que aqueles que não são afeitos aos textos originais. Principalmente hoje, no mundo em que vivemos.

            Agora responda-se a si mesmo: Em tese, a quem você ouve com mais disposição favorável numa exposição bíblica? Ao teólogo conhecedor dos originais ou ao expositor que depende do conhecimento de outros nessas línguas?

            Do que tem sido dito, é de se entender que não se leva em consideração nesta argumentação os leigos e até mesmo professores dominicais em geral. O foco da atenção aqui está sobre seminaristas, teólogos, exegetas formados para tal. O foco da atenção está sobre aqueles que passam por treinamento para uma liderança de comunidades cristãs, numa dimensão de curso superior. Num mundo como o nosso, não se admite mais que líderes fraquejem ante as apologias inversas aos seus discursos; principalmente quando estes usam de um suposto conhecimento dos originais bíblicos.

            A pesquisa na Internet possibilita o encontro de muito material na área linguística. O texto Why study greek, encontrado na Rede, expressa um pouco do empenho de exegetas que tentam exorcizar o cristianismo de interesses escusos a um salutar crescimento da fé. A partir daquele texto, apresenta-se aqui uma adaptação para a língua portuguesa, com acréscimos, na intenção de que o propósito desta argumentação seja melhor entendido. O endereço do sítio é http://bpeterson.faculty.ltss.edu/Greek/WhyStudy.htm
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Por que enfrentar a dificuldade de estudar as línguas originais? Por que gastar horas e horas aprendendo grego e hebraico, quando já existem tantas traduções bem feitas da Bíblia? Na verdade, há razões consideráveis para o estudo das línguas originais.

A primeira razão é porque, existindo mesmo muitas e boas traduções, quando elas diferem entre si, como se saberá com precisão qual delas reflete melhor o texto original? Isto não é simplesmente um assunto que se resolva com uma votação para que a escolha da melhor tradução fique à mercê de uma maioria. Uma comunidade cristã espera que o seu líder esteja habilitado para ajudá-la a compreender o texto. Daí a necessidade do exegeta saber avaliar qual a melhor ou melhores traduções.

Uma segunda observação é que não há uma tradução perfeita, a qual seria absoluta. Não é possível verter todo o conteúdo de um texto estrangeiro para outra língua. Há particularidades de uma língua que não é possível expressá-las em outra qualquer. Portanto, toda tradução possui lacunas que o intérprete precisa desvendar através da leitura do texto original.

Terceira observação, um idioma é expressão de uma cultura. Aprender a língua original de um texto facilita a compreensão da cultura na qual aquele texto foi escrito. E a compreensão de tal cultura, em contrapartida, facilita a compreensão do próprio texto a interpretar.

Quarta observação: faz-se necessário aprender a língua original para se ter acesso a outras ferramentas de estudo, como comentários, que ajudam a explorar o texto mais completamente, e dicionários bíblicos, que ajudam a entender como palavras e conceitos funcionam no texto interpretado.

Quinto, a leitura do texto original leva a uma interação com este texto e seus significados em um nível mais profundo. É necessário lidar com assuntos de vocabulário e gramática para ouvir o texto mais profundamente e para descobrir o significado e a pretensão do texto. Aprender a língua original ajudará a ouvir o texto de uma maneira nova.

Sexto, quando alguém exerce o papel de intérprete de um texto, as pessoas confiarão no seu trabalho para ajudá-las a entender o texto bíblico de modo vivificante e rejuvenescedor de sua fé. As pessoas confiarão no tal intérprete se o mesmo cumprir o seu papel com conhecimento, clareza e habilidade. Tal como uma vocação não merece nada menos que o melhor dos esforços e instrumentos daquele que é chamado para tal. No caso da exegese bíblica isso significa gastar tempo e esforço suficientes com o estudo dos idiomas originais.

Nas palavras de um professor do início da Idade Moderna,

 

Na Igreja Cristã todo ensino deve ser julgado. Para isto o conhecimento da língua original é necessário acima de tudo o mais. Os pregadores ou professores podem expor a Bíblia do princípio ao fim como por favor, com ou sem precisão, se não há alguém presente para julgar se eles fazem a interpretação de modo devido ou indevido. Para julgar, alguém precisa conhecer as línguas originais; e isto não pode ser feito de qualquer forma. Portanto, embora a fé e o evangelho possam ser proclamados por pregadores simples sem um conhecimento das línguas originas, tal pregação é de superfície e, via de regra, dependente do senso comum. O resultado é que as pessoas finalmente ficarão cansadas, entediadas e aborrecidas com esse tipo de pregação e esta cai por terra. Mas quando o pregador está preparado nas línguas originais, há um frescor e um vigor na pregação, de vez que o texto é tratado em sua inteireza, e a fé se encontra constantemente renovada pela contínua variedade de palavras e ilustrações (Martin Luther, "To the Councilmen of All Cities in Germany, that They Establish and Maintain Christian Schools")

 

            Finalmente, o estudo das línguas originais convoca o exegeta para um contato mais profundo com o texto interpretado. O estudo das línguas originais pode tornar o cristão mais afeiçoado ao texto bíblico e a suas línguas originais. Aprender as línguas bíblicas originais pode ser o início de uma vida de contato íntimo com textos que alimentarão a fé pessoal e a prática do ministério na comunidade crista.

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Deve ficar claro que este argumento objetiva àqueles que intencionam a exposição bíblica exegética. Este texto esquece aqueles que se condicionaram a meras pregações temáticas, agravantemente emocionais, sem o embasamento linguístico aqui defendido. Nada contra a pregação puramente temática. Porém, esquecido não deve ser o fato de que toda preguiça, indisposição, desculpa, e argumentação qualquer precisam ser erradicadas do estudo sério e criterioso do texto bíblico. Só assim os humanos devotarão a devida credibilidade á mensagem cristã.
Willians Moreira

4 comentários:

Danilo Sergio Pallar Lemos disse...

Willians sempre tendo excelentes assuntos em um blog ultra intelectual. Luther na verdade priorizava a integralidade do texto bíblico, pois era um exegeta que sabia contextualizar a Bíbçia as realidades soçias, religiosas e filosóficas de seu tempo.
www.vivendoteologia.blogspot.com

Rodrigo Magalhães disse...

Olá, meu caro Willians!

Muito interessante o tema que foi abordado. Este senhor que fez esta declaração com certeza não compreende a pobreza que uma tradução mal feita, ou mesmo a mais precisa nos mostra.
Muitas vezes não conseguimos traduzir em uma ou duas palavras uma ideia exposta em outra língua, o que se dirá das mais fiéis cópias das Escrituras? Escritas em uma linguagem complexa, em qualquer dos idiomas originais, muito se perde ao trazer o texto para os nossos idiomas contemporâneos.
A ideia de minimizar o estudo nestes textos, deixando isto a cargo de terceiros, é no mínimo compreensivel, partindo-se do princípio de que ele mesmo não teve acesso a este tipo de estudo. Não compreende a riqueza de detalhes que vêm junto aos textos mais fiéis.
Concordo com certeza que o acesso aos textos originais (levando-se em conta aqui que originais digo as cópias mais antigas e comprovadamente fiéis)nos traz uma capacidade de exegese e interpretação diferente e mais qualificada.
Claro que há muitos e muitos que não terão nunca acesso a este tipo de texto, os leigos, como citastes, mas os líderes, estudiosos, não devem abdicar da oportunidade de estudar as cadeiras importantes das linguas manternas das Escrituras. Eu mesmo inicio os estudos este semestre em Hebraico, já tenho minha Bíblia em Hebraico. Aguardo ansiosamente por iniciar este estudo. O grego já foi estudado em filosofia e é igualmente fascinante.
Tirar as cadeiras dos cursos de teologia seria o mesmo que tirar a validade do curso, tamanha importância que estes têm!

Parabéns pelo texto, tenho lido seus materiais mais antigos, mas ainda não comentei porque imprimi s textos para ler fora do note. Assim que terminar os apontamentos, retorno com os comentários. Andei lendo seu perfil e fiquei impressionado com o seu currículo. É sempre bom conversar com mestres!

Um abraço e até logo!!

Rodrigo Magalhães

www.rodrigocmagalhaes.com

Avelar Jr. disse...

Excelente texto.

Eu espero poder um dia aprender as línguas originais para conhecer mais profundamente o texto das Escrituras.

Abraço.
www.nao-obrigado.blogspot.com

emunah disse...

Parabéns pela matéria, realmente a preguiça intelectual tem gerado pastores, professores e estudiosos medíocres em nosso meio o que envergonharia os reformadores e avivalistas que se empenharam e se esforçaram por entender a profundidade da mensagem do Evangelho de Jesus Cristo de modo a estarem aptos a combater as falácias e heresias que lhes assolavam. Que o Senhor da Seara envie ceifeiros dedicados no Ministério da Sua Palavra, para que não sejamos reféns de comentários e traduções distorcidas,

Pr. José Ribeiro Neto
Professor de Grego, Hebraico, Crítica do AT e Teologia Sistemática no Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini - SP

biblistas.blogspot.com