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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

SANTOS DE LÁ - SANTOS DE CÁ

 

            O cristianismo, como toda religião, tem os seus veneráveis: homens e mulheres que recebem louvores e honras, em virtude de seus atos, considerados dignos de reconhecimento canônico. Tanto a ala romana e a grega ortodoxa, como a protestante e a anglicana, escolhem homens e mulheres em quem depositar suas honrarias. Claro, entre estes segmentos cristãos há diferenças qualitativas quanto à forma de devoção aos seus supostos santos e venerados. O catolicismo romano chega mesmo a dedicar status de intermediário entre os homens e Deus aos seus santos; enquanto que o protestantismo, mesmo não dando o mesmo status, camufladamente ou não, considera muitos dos seus homens e mulheres históricos como dignos de todo respeito e merecedores de toda a autoridade sobre o que o protestante pensa e diz. Na verdade, há uma verdadeira canonização prática. Basta a alguém a tentativa de discordar do que foi dito por tal baluarte protestante para ver se a "barraca" não lhe cai na cabeça. O catolicismo romano assume que canoniza homens e mulheres; o protestantismo, não.

            A lista de canonizados do catolicismo é longa. Inclui nomes da Antiguidade, da Idade Média, da Modernidade e da Contemporaneidade; desde os escritores bíblicos até nomes como Madre Teresa de Calcutá. São personalidades reconhecidamente dedicadas a Deus e à fé. Portanto, merecedores de devoção. Para protestantes, mesmo que diante deles não se prostem, valem os nomes de homens e mulheres que contribuíram para a formação da mentalidade cristã; desde os apóstolos, passando por homens como Agostinho, Jerônimo, Tomás de Aquino, até Lutero, Calvino, Huss, Wicliff, e tantos outros da modernidade, como também da contemporaneidade.

            O fato é que ninguém escapa de ter o seu "clube" de homens e mulheres reconhecidamente detentores de autoridade sobre o seu pensamento.

            E aqueles que tentarem questionar a autoridade destes finados, verão diante de si brandir a espada de uma inquisição, aberta ou camuflada, disposta a lhes decepar a cabeça e a lhes lançar às hienas de seus arraiais teológicos. Lembro aqui da música "Metrô Linha 743" de Raul Seixas. Será este um ícone meu no âmbito musical?

            Os homens de outros ramos do conhecimento também têm os seus "santos". Seja na Filosofia, no Direito, na Educação, na Economia, na Política ou em quaisquer outros ramos de atividade humana, todos têm os seus veneráveis. É irrelevante citar aqui os "santos" de cada uma destas atividades humanas, pois que nossa memória já nos assessora com galhardia dando-nos nomes aos milhares.

            O que diferencia a devoção de caso para caso é apenas o fato de que cada prática humana prescreve uma forma de como reverenciar o seu ícone eleito.

            Assim fica patente que nós humanos gostamos mesmo de nos submeter a autoridades outras, reverenciá-las, adorá-las, cultuá-las ou coisa que o valha, face à nossa necessidade de respaldo ao nosso sentimento de incapacidade de sermos o que somos por nós mesmos, sem precisarmos de muletas ideológicas, psicológicas, ou de quaisquer outras ordens.

            Daí a necessidade de findarmos com a hipocrisia de criticarmos os outros como se nós mesmos não tivéssemos os nossos ícones, os nossos santos.

Willians Moreira

3 comentários:

edinho disse...

a idolatria e o culto à personalidade existem em todas as áreas da atividade humana, porém, o estranho é que exista também no cristianismo; alguém, em certo tempo já proclamava: "politeístas, abandonem seu erro e venham para o monoteísmo"; muitos vieram, mas mesmo assim continuam na desobediência

adna sheyla disse...

Às vezes fico na dúvida, do que é menos suportável para Deus. Se é o ateismo racional ou o cristão ignorante que precisa de muletas para caminhar. Mas... a ignorância acaba sendo um atenuante... pois sem conhecimento, o homem n pode ser considerado culpado... não sei o que é pior, a dúvida dos céticos ou a ignorância dos fiéis.

Willians Moreira disse...

Continue a buscar esse saber, prezada Sheyla! Quem sabe, um dia você descobrirá o que é melhor.