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domingo, 11 de março de 2012

A HARMONIA PREESTABELECIDA


Continuação da abordagem sobre o problema do mal em leibniz
tentativa de resposta ao problema do mal

            Leibniz parece ter sido um buscador de harmonia em vários sentidos. Tanto “Os Princípios da Filosofia ditos a Monadologia” como no “Discurso de Metafísica” e na “Teodicéia”, há uma elaboração teórica voltada para uma harmonização de contrários. Esta tendência de Leibniz à harmonização estampa-se em sua vida pública, em sua teologia e em sua filosofia. Leibniz buscava mesmo uma conciliação entre pontos os mais diversos e muitas vezes irreconciliáveis. Os pressupostos de Leibniz apontam para uma vida que se define pela pluralidade que busca uma unidade. Na política, na teologia e na filosofia, Leibniz viveu a construção de uma harmonia. A harmonia era tão importante para ele que no seu título “Novos ensaios sobre o Entendimento Humano” Leibniz apresenta-se como “Autor do Sistema da Harmonia Preestabelecida” (LEIBNIZ, 1996). Leibniz queria harmonia em todos os níveis da existência e procurou explicá-la na filosofia da Mônadas. Politicamente, procurou harmonizar os povos; como também o protestantismo com o catolicismo. Tal é a sua luta e sofrimento face às divergências religiosas. Tratava-se de um reconhecimento da necessidade de unidade na pluralidade.
            Sua doutrina da harmonia universal é, sem dúvida, um marco em todo o seu sistema. É um dos pontos que dá sentido fundamental para que se entenda o fenômeno do mal.

O mal visto da perspectiva do todo adquire outro sentido.
            Dizendo Leibniz que Deus é a harmonia máxima rerum, sem perceber talvez, acaba por implicar que o mal faz parte desta harmonia. É como falar de notas dissonantes executadas por uma orquestra que só serão desagradáveis aos ouvidos quando tocadas isoladamente. No conjunto, tudo são harmonia e beleza. Do ponto de vista de uma bordadeira, o bordado só é “feio” se percebido pelo lado errado. Só existe um lado pelo qual o bordado tem o sentido estético devido, o qual a bordadeira quer lhe dar. Sob o prisma leibniziano, este mundo é o melhor possível e está em harmonia com o plano do seu criador. Encontrar o mal é olhar o “bordado” pelo lado errado; é escutar as notas dissonantes isoladamente. E notas isoladas não têm sentido.
            A compreensão do mal estaria para Leibniz situada na questão da percepção humana? O mal percebido isoladamente estaria fora do contexto maior que lhe dá outro sentido. Dessa forma, o bem, visto isoladamente, estaria também fora de um contexto maior e teria um sentido diferente do isolado. A compreensão do mal e do bem tem dependido de percepções isoladas e, portanto, sem o sentido do todo, consequentemente sem o sentido que a divindade tem do universo. E isto tem sido o motivo para equívocos de compreensão do fenômeno do mal. Para Leibniz, o problema está, na verdade, no homem que não consegue compreender devidamente a realidade da criação. O § 213 da Teodicéia deixa claro que há um erro em se supor que parte do todo, tomada isoladamente, deve ser tão perfeita quanto o todo em si mesmo (RUTHERFORD, 1998. Pág. 08). A perfeição está no todo. O homem só vê partes isoladas. Isto leva-nos a uma visão relativista do mal. Como diz Rutherford, “embora uma circunstância isolada pareça oferecer um contra exemplo para a perfeição superior do universo, quando retornado a seu contexto apropriado pode ser vista como a contribuir de uma maneira essencial para essa perfeição (do todo do universo)” (RUTHERFORD, 1998. Pág. 09). E qual é o contexto apropriado de uma circunstância? É justamente aquele em que a variedade dos seres diferentes participam em sua constituição e no grau de relação ou ordem que os une. Aqui se dá a harmonia; aqui o todo é absoluto.
            A Teodicéia, primeira parte, § 9º, vem fundamentar mais ainda esta visão sobre o pensamento de Leibniz:

todas as coisas estão ligadas em cada um dos mundos possíveis: o universo, qualquer que seja, é todo da mesma espécie, como um oceano: o menor movimento estende seus efeitos a qualquer distância, muito embora esses efeitos se tornem menos perceptíveis na proporção da distância. Nisto Deus ordenou, de uma vez por todas, a totalidade das coisas de antemão, tendo previsto os rezadores, as boas e as más ações e todo o resto; e cada coisa enquanto uma ideia contribuiu, antes de sua existência, para a resolução que foi tomada sobre a existência de todas as coisas; de modo que nada pode ser alterado no universo (ainda que em número) exceto sua essência ou, se tu desejares, exceto sua individualidade numérica. Assim, se o menor dos males que ocorre no mundo não ocorresse, não mais teríamos este mundo; que, nada se omitindo e tudo se considerando, foi tido o melhor pelo Criador que o escolheu.[1]

Aqui há uma ideia do todo com suas partes interligadas. Uma observação das partes isoladas não permite a compreensão necessária à visão da perfeição do todo. Por este prisma, as partes são perfeitas, pois é o todo que tem o significado do ser perfeito. Existe neste todo a harmonia do melhor de todos os mundos possíveis, fundada na determinação divina. “Assim, se o menor dos males que ocorre no mundo não ocorresse, não mais teríamos este mundo; que, nada se omitindo e tudo se considerando, foi tido o melhor pelo Criador que o escolheu” (GERHARDT, Vol. 7. Pág. 108). No § 59 da Monadologia, fala-se de uma “‘harmonia universal’ que faz toda a substância exprimir exatamente todas as outras devido às relações nela contidas”. É a relação de interligação harmônica que possibilita a perfeição.

O mal como resultado do encadeamento de acontecimentos-causas.
            Da perspectiva de Leibniz conclui-se que aquilo que é chamado mal pode ser ocasionado por uma cadeia de acontecimentos-causas iniciada desde o momento da criação. Leibniz diz na Monadologia:

Há uma infinidade de figuras e movimentos presentes e passados entrando na causa eficiente deste meu ato presente de escrever, e uma infinidade de pequenas inclinações e disposições da minha alma presentes e passadas que entram na sua causa final (LEIBNIZ, 1983).

Um ato considerado bom ou mau, realizado no presente, tem sua causa eficiente num conjunto de “figuras e movimentos presentes e passados...”, e que o tal ato enquadra-se na realidade de que não há verdade de fato ou qualquer verdade relativa que não dependa da infinita série de razões. Leibniz diz: “Assim, se o menor dos males que ocorre no mundo não ocorresse, não mais teríamos este mundo; que, nada se omitindo e tudo se considerando, foi tido o melhor pelo Criador que o escolheu” (GERHARDT, Vol. 7. Pág. 108). Esta interligação entre os males que ocorrem no mundo complica a compreensão do livre-arbítrio que responsabiliza o ser humano por seus atos morais. Como pode ser responsável a alma humana por algo que extrapola o poder de controle sobre os seus atos? Afinal, atos presentes estão na sequência entre atos passados e futuros que acontecerão necessariamente. Sobre isto será dito mais ao se comentar os “futuros contingentes”.

A compreensão do melhor dos mundos possíveis cria uma desarmonização entre a filosofia e a teologia leibnizianas
            Quase todo o trabalho de Leibniz buscou uma harmonia entre filosofia e teologia. Esta busca dava-se tanto pelo fato de o filósofo ser cristão, quanto pelo fato de estar politicamente envolvido com magistrados. Por isto, fé e razão tornaram-se pontos importantes de consideração na filosofia de Leibniz de modo a merecer aqui uma análise.
            O pensamento de Leibniz sobre a harmonia preestabelecida no que respeita ao melhor dos mundos possíveis traz em si um problema que Leibniz, parece, não pensou que ocasionaria. Ora, Leibniz, em sua Teodicéia, tratando sobre a “questão da conformidade entre fé e razão, e o uso da filosofia na teologia”, diz: “O objeto da fé é a verdade que Deus tem revelado de maneira extraordinária, e que a razão é o encadeamento de verdades, porém particularmente (quando é comparada com a fé) daquelas que o espírito humano não pode alcançar naturalmente, sem o auxílio das luzes da fé” (LEIBNIZ, 2006. Pág. 73). Vê-se claramente a intenção de harmonizar a fé com a razão. É nesse afã que Leibniz não atentou para qual era de fato o melhor de todos os mundos possíveis para Deus. Como cristão conservador e como quem cita várias vezes a própria Bíblia para se respaldar, Leibniz esqueceu “da verdade da revelação”, a verdade da fé. Se os dogmas da revelação estão mesmo em conformidade com a razão, Leibniz deveria admitir que este não é o melhor mundo possível, senão provisoriamente, pois que a “verdade revelada” do cristianismo prega um novo céu e uma nova terra, nos quais “não haverá choro, nem ranger de dentes”; o que, Leibniz há de convir, existe muito neste mundo. A harmonia universal preestabelecida pode até existir, mas este mundo, para a teologia tradicional não é o melhor. Este mundo comporta males que só serão erradicados no próximo mundo que, segundo a “verdade revelada”, será mesmo o melhor. Como será que Leibniz relacionava o mundo da perspectiva cristã e o seu mundo que era o melhor dos mundos possíveis? O problema do mal que Leibniz procurava resolver referia-se ao fenômeno que acontece no mundo tratado pela perspectiva cristã. Está lá o problema do sofrimento humano e o problema do livre-arbítrio que são tratados por Leibniz. Em que mundo estes problemas acontecem? Claro, neste que é melhor de todos os mundos. Mundo aqui é o todo da natureza. Desde que todos os acontecimentos estão interligados, o sofrimento humano, de uma forma ou de outra, tem abrangência universal. Não há aqui que setorizar o mundo, pensando em terra, céu, inferno ou purgatório. Estas categorias, talvez existentes na mente de Leibniz, por ser cristão, fazem parte do todo. Portanto, visto haver para a teologia um inevitável futuro mundo melhor, no qual não haverá o mal, Leibniz falhou em tentar uma conformidade entre fé e razão. Sua filosofia solapou sua teologia.
Willians Moreira Damasceno

Esta abordagem continuará no texto "O MAL AGRAVADO PELO PROBLEMA DO LIVRE ARBÍTRIO".


[1] Texto original: Car il faut savoir que tout est lié dans chacun dos Mondes possibles: l’univers, quel qu’il puisse être, est tout d’une pièce, comme un Ocean; le moindre mouvement y etend son effect à quelque distance que ce soit, quoyque cet effect devienne moins sensible à proportion de la distance: de sorte que Dieu y a tout reglé par avance une fois, pour toutes, ayant prevu les prieres, les bonnes et les mauvaises actions, et tout le reste; et chaque chose a contribué idealement avant son existence à la resolution qui a été prise sur l’existence de toutes les choses. De sorte que rien ne peut être changé dans l’univers (non plus que dans un nombre) sauf son essence, ou si vous voulés, sauf son individualité numerique. Ainsi, si le moindre mal qui arrive dans le monde y manquoit, ce ne seroit plus ce monde, qui tout compté, tout rabattu, a été trouvé le meilleur par le Createur qui l’a choisi (GERHARDT, Vol 7. Págs. 107 e 108).

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