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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O PERFIL PSICOLÓGICO DO PROFETA JEREMIAS

A PARTIR DE SUAS CONFISSÕES
1ª CONFISSÃO

Jeremias e seu desejo de vingança
 

As confissões do profeta Jeremias são encontradas nos capítulos 11: 18-23; 12: 1-6; 15: 10-21; 17: 12-18; 18: 18-23; e 20: 7-18. Nestes textos há expressão considerável da subjetividade de Jeremias, transmissora de um perfil psicológico capaz de desmontar um esteriótipo do profeta, articulado por conta de uma tradição doutrinária, caracterizadamente emocional e destituída de certo senso crítico. O esteriótipo aqui referido reporta-se à imagem de um profeta modelo a ser seguido por qualquer um que queira ser servo de Deus. No entanto, os textos bíblicos enfocados neste artigo são atestados de uma imagem de Jeremias em muito destituída de atributos recomendáveis a quem deseja uma existência psicologicamente equilibrada.
Por outro prisma, as confissões de Jeremias apresentam um conteúdo teológico, ou seja, uma palavra que se pode interpretar como divina. E neste ponto a tese é a de que Deus, independentemente das mazelas existenciais do ser humano, pode usar a quem lhe interessar, para a missão que bem lhe aprouver. Assim aconteceu a Jeremias, a despeito de sua subjetividade marcada por muitas amarguras.
A atuação do Profeta Jeremias deu-se por um período de 50 anos (627 a. C. a, provavelmente, 580 a. C). Este período abrangeu os governos de Josias (629 – 609 a. C), Joaquim (609 – 598 a. C), Sedecias (597 – 586 a. C.) e Godolias / ida de uma parte do povo para o exílio (586 – 580 a . C). Portanto, quatro períodos.
Neste texto, estará em foco a existencialidade do profeta. A revelação mediada pelo texto pode até ser comentada, mas será enfocada prioritariamente a situação da subjetividade de Jeremias.
            O objetivo é mostrar que homens, mesmo aqueles considerados como de Deus, às vezes, enfrentam desequilíbrio psicológico e, por conta disso, quedam-se a precisar de ajuda de um profissional da saúde mental. Não se nega que muitos resistem à busca dessa ajuda, mas esta necessidade, vez ou outra, bate-lhes à porta. Vale lembrar aqui um pároco que, depois de passar por experiências que lhe revelaram suas marcas emocionais a si mesmo desfavoráveis, disse: “Parece que eu tenho o dedo podre”. Referia-se ao fato de que seus relacionamentos, se o entendi bem, sempre entravam em colapso. O cúmulo da situação, após vários episódios de desenlaces de relacionamentos, inclusive de entrave com a própria liderança de sua denominação, foi querer abandonar a batina, com certa expressão de revolta. Como, pois, negar que as relações sociais interferem nas relações profissionais e no cumprimento da suposta missão dada por Deus? Esta é tese caduca, mas parece que poucos estão atentos para isto.
Como aquele que intentou desertar de sua missão, o profeta Jeremias expressou o mesmo desejo de desertar do seu compromisso com Iavéh, mas não conseguiu realizar tal feito. O registro desse momento está em seu livro no capítulo 20: 9, nas palavras: “Então, disse eu: Não me lembrarei dele (Iavéh) e não falarei mais no seu nome; mais isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer e não posso”. [1] Percebe-se aqui a incapacidade de Jeremias de se afastar de sua missão.[2]
            Acrescente-se ainda que a análise de cada confissão usará estratégia simples: Depois de breve verificação dos aspectos culturais, Abordar-se-á o ponto principal aqui proposto: a subjetividade de Jeremias. E ao final de cada análise, apresentar-se-á a mensagem teológica veiculada pelo texto.
            O pressuposto de que todo texto está circunstanciado por uma cultura é substrato na análise do texto; circunstanciado em termos linguístico-gramaticais, em termos sociais, em termos históricos, e em tantos outros aspectos mais que apresentem imagem cultural no texto.
            De início, será abordada a primeira confissão, encontrada no capítulo 11: 18-23. Uma divisão deste texto é possível: a) Versos 18 – 19: Jeremias jurado de morte; b) 20 – 21: Desespero e desejo de vingança; e, c) 22 – 23: Iavéh anuncia desastre sobre os anatotitas.
Qualquer análise superficial desta primeira confissão percebe a imagem de um tribunal, no qual há juiz, réu e promotores. Num tribunal apresentam-se esses constituintes, sem olvidar um júri e advogados. Neste texto, no entanto, não há alguém que se identifique com advogado, nem há um júri. Neste texto há juiz, promotores e réu. O réu tenta ser seu próprio advogado. Jeremias diz: “A ti expus a minha causa”. O texto hebraico traz:
וַיהוָה צְבָאוֹת שֹׁפֵט צֶדֶק בֹּחֵן כְּלָיוֹת וָלֵב אֶרְאֶה נִקְמָתְךָ מֵהֶם כִּי אֵלֶיךָ גִּלִּיתִי אֶת-רִיבִי: ס” (Jer. 11: 20).[3]
A palavra hebraica aponta para o sentido de uma apresentação de requerimento (ybi(yrI), ou um recurso apresentado na corte, face a acusação contra o réu, Jeremias. Os promotores não estão presentes. Mas são lembradas as suas palavras e ações.
            O texto hebraico da primeira confissão inicia (Jer. 11: 18), dizendo:
וַיהוָה הוֹדִיעַנִי וָאֵדָעָה אָז הִרְאִיתַנִי מַעַלְלֵיה”.
Para a tradução, considere-se: 1) o verbo Yada’, conhecer, saber, no hiphil perfeito, 3ª pessoa do singular, com sufixo da 1ª pessoa comum singular (הוֹדִיעַנִי – hôdi‘ani). Gramaticamente, entende-se que o hiphil tem o sentido de voz ativa causativa. Ou seja, o sujeito causa algo. No caso do verso 18 do cap. 11, a ação de conhecer ou saber é causada. Tendo-se aqui o sufixo pronominal da 1ª pessoa, singular, referindo-se a Jeremias, Iavéh fez Jeremias tomar conhecimento de algo. Em seguida, tem-se וָאֵדָעָה) (Va’êda‘ah): Tem-se a conjunção (w) “vav”[5] mais o verbo no QAL imperfeito, 1ª pessoa comum, singular, e no final tem-se um (h) Hê coortativo[6]. Neste caso, Jeremias não meramente soube, mas quis mesmo saber o que Iavéh lhe deu a conhecer. Portanto, nesta primeira instância, pode-se traduzir: “E Iavéh me fez saber, e eu o quis saber...” (11: 18). O verso completo: “E Iavéh me fez saber, e eu o quis saber. Então tu me fizeste perceber as suas ações”. Parafraseando: “Iavéh me fez tomar conhecimento das ações dos meus parentes contra mim, e eu quis mesmo ficar a par de tudo”.
Um primeiro ponto a enfocar questiona sobre o como do conhecimento das ações dos seus parentes chegarem ao profeta. Essa questão instaura curiosidade: Jeremias ouviu uma voz externa (supostamente de Iavéh) que lhe revelou o que ele soube ou ele ouviu uma “voz” interna? Ou seja, Iavéh o fez saber de forma objetiva ou a subjetividade do profeta entrou em cena para intuir o tal conhecimento? Pode-se ainda pensar se a comunicação foi através da consciência do profeta. No caso de uma “voz interna” pode ser pensada uma intuição. Quem sabe um processo psicológico em que um “insight” aflora do subconsciente para o consciente. Ou quem sabe um processo de raciocínio mesmo, pelo qual seria também natural chegar ao conhecimento que chegou. Há de se levar em consideração que os processos mentais pelos quais percebemos uma suposta realidade não são nem de longe devidamente conhecidos pelos humanos. Portanto, daqui a garantir qual destas possibilidades ou outra qualquer foi a acontecida, leva-se tempo incomensurável; o que impossibilita o alcance desta informação de forma absoluta. Em outras palavras, qualquer apologia não passa de mera especulação. Pode-se pensar, por outro lado, que Deus deu conhecimento ao profeta através de alguém que o abordou contando-lhe a trama dos seus inimigos. Isso é comum acontecer com muitos, quando algo de que se necessita saber; e a surpresa é tão grande quando se toma ciência que se exclama: “Deus me fez saber”. No entanto, sabe-se que os meios foram naturais: Alguém nos disse; ou ouvimos por algum meio de comunicação; ou ouvimos uma conversa que não se dirigia a nós diretamente, ou raciocinamos e concluímos algo, etc., e dizemos que o Senhor nos fez saber. O problema de se esperar que a vontade de Deus (na Bíblia) se manifeste sobrenaturalmente é tão grande que o homem se esquece de que Deus pode manifestar-se por meios naturais.
            O fato é que o profeta teve conhecimento de um complô armado contra ele.
            Em face de não ter tido antes conhecimento do que Iavéh deu-lhe a conhecer, o profeta se sente como um animal indefeso, sem saber para onde estava sendo conduzido; ou sem saber que estava a ser dirigido para a morte. A sensação é de que o profeta pratica autocomiseração: sente-se um coitadinho. 
            A figura de um cordeiro, indefeso, vem de kéves, que significa um animalzinho pronto para ser sacrificado, e não meramente ser morto em um matadouro; um animalzinho que, junto com outros, será imolado em sacrifício no templo. É curiosa a figura escolhida, pois que lembra também um animal inocente, tomado para ser morto pelos pecados de alguém. A figura argumenta a favor de Jeremias, apresentando-o como indefeso e inocente. O argumento do profeta, diante de Iavéh, é: “eu sou inocente e indefeso. Meus acusadores são maus”. É uma figura forte e triste usada pelo profeta para se defender e, ao mesmo tempo, denunciar seus algozes. Ele parece mesmo apelar para o fator emocional. Na verdade, nada impede de se pensar que ele estava a querer conscientizar-se do que ele queria que fosse verdade sobre si próprio. Esse fenômeno é comum entre pessoas que se sentem culpadas e tentam de todos os modos possíveis desvencilharem-se de suas culpas.
Parafraseando a primeira parte do verso: “Eu me via como um cordeiro, inocente e indefeso, dirigido ao templo para ser sacrificado”. Esta paráfrase parte do pressuposto de que Jeremias usa a figura ovina para argumentar a seu favor, diante de Iavéh, ou mesmo para se eximir de sua consciência de culpa. Mas qual seria a culpa do profeta?
            A continuação do verso 19 diz que Jeremias, antes de Iavéh o avisar, não sabia que seus inimigos queriam matá-lo. As palavras hebraicas hashvu mahashavoth significam intentar, pensar planos contra Jeremias. A Septuaginta usa palavras sugestivas para expressar a ideia do texto hebraico: “enlogisanto logismos”. O verbo está no aoristo indicativo médio, 3ª pessoa plural de logizomai, que implica num pensamento, numa atividade de raciocínio. O termo traz em si a ideia de ação racional. Em outras palavras, Jeremias quis dizer que seus opositores eram calculistas nos planos para matá-lo. A tradução-paráfrase continua:
 
Iavéh me fez tomar conhecimento das ações dos meus parentes contra mim, e eu quis mesmo ficar a par de tudo. Eu me via como um cordeiro, inocente e indefeso, levado ao local de seu sacrifício. E eu não sabia que planejavam friamente contra mim.
Vê-se claramente que o profeta procura reverter o quadro contra os seus opositores. É como se Jeremias dissesse: “Meus opositores são frios, calculistas, e se aproveitam de minha condição para me prejudicar diante de ti, Iavéh”. Em seguida, o profeta coloca palavras nos lábios dos seus perseguidores. Aquelas palavras podem ter sido proferidas pelos seus acusadores, mas até que ponto elas não refletem o estado emocional alterado do profeta?
            Segundo Jeremias, dizem os seus acusadores: “ht'y“xiv.n:”. Aqui se encontra o verbo tx;v' (shahath = tornar-se corrupto) no Hiphil Imperfeito, 1ª pessoa comum, plural coortativo. Como já foi dito, o Hiphil tem sentido de voz ativa causativa. Assim, a ação do verbo neste contexto é de causar o tornar-se corrupto. Como há também o detalhe do coortativo, há a implicação de uma ação deliberada. Os opositores estão resolutos em querer prejudicar o profeta. “Querem” mesmo vê-lo prejudicado. A tradução mais comum para este verbo, nesta passagem, tem sido: “destruamos”. Pode-se dizer que no verso há a implicação de um processo: Primeiro, corrupção e depois o corte (‘WN“t,r>k.nIw>). Aqui se apresenta o verbo “tr;k'” (cortar) no Qal imperfeito, 1ª pessoa comum plural com sufixo da 3ª pessoa masculino singular, com “nun” coortativo em sentido, mais uma forma do coortativo. A tradução: “Corrompemos a árvore... e logo, logo, e o destruiremos”. O verso, pois, pode ser completado como segue: 
Iavéh me fez tomar conhecimento das ações dos meus parentes contra mim, e eu quis mesmo ficar a par de tudo. Eu me vi como um cordeiro, inocente e indefeso, levado ao local de seu sacrifício. E eu não sabia que planejavam friamente contra mim. Dizem eles: nós já corrompemos a árvore com o seu fruto. Logo, logo, nós o cortaremos da terra dos viventes, e não haverá mais memória do seu nome.
Na última instância do verso, Jeremias apresenta seus algozes com o desejo de homicídio contra o profeta.
            Diante de tal situação, o profeta encontra-se desequilibrado em suas emoções. E nesta situação o seu temperamento colérico apresenta-se vingativo. O seu rancor vem juntar-se a traços que pintam uma personalidade enferma e depressiva, como ficará mais e mais patente à medida que as confissões forem analisadas.
            Cá está o texto (Jer. 11: 20):
וַיהוָה צְבָאוֹת שֹׁפֵט צֶדֶק בֹּחֵן כְּלָיוֹת וָלֵב אֶרְאֶה נִקְמָתְךָ מֵהֶם כִּי אֵלֶיךָ גִּלִּיתִי אֶת-רִיבִי: ס
 
O ponto culminante para o nosso objetivo neste verso está nas palavras: “אֶרְאֶה נִקְמָתְךָ" (’er’eh nikmathka). Primeiro, o verbo ra’ah (ver) no Qal imperfeito, 1ª pessoa comum, singular, tendo o significado de “vejo” ou “veja eu” (como trazem algumas traduções. Parece melhor, por conta da presença do “h” (He) coortativo, traduzir o verbo por “quero ver”, indicando assim, o desejo decisivo do profeta de que uma vingança caísse sobre os seus opositores. É aqui que se instaura uma problemática superlativamente séria. Qual o motivo da vingança sobre os habitantes de Anatote? O motivo era a satisfação do desejo de Jeremias ou o motivo era unicamente divino e o profeta apenas manifesta-se satisfeito por conta de que Iavéh o fará? O texto é de Jeremias. E isto labora contra o próprio profeta, pois que ele poderia escrever algo como se fosse a divindade a dizer o que ele diz. Assim, Jeremias, na verdade, é vingativo e faz Iavéh compactuar com o seu desejo de forma sutil. No texto, o profeta se refere a “נִקְמָתְךָ" (nikmathka), tua vingança, e aqui, vingança de Iavéh. E o profeta livra-se da imagem de vingativo. Mas é alguém que quer ver a vingança. Seja como for, o profeta introduz, neste ponto, uma questão torturante para muitas mentes: A divindade é vingativa? Qualquer pessoa que conheça a história de Israel e saiba que houve realmente um massacre em Anatote, concluirá que foi mesmo uma vingança. Mas a pergunta não cala: Iavéh satisfez o desejo do profeta ou a vingança era apenas da divindade? Essa imagem de Iavéh era uma imagem curtida por muitas gerações anteriores a Jeremias e, na verdade, era uma imagem que os povos antigos atribuíam aos seus deuses. Israel não ficou fora daquela tradição. Então Iavéh prometeu a vingança ou o profeta colocou palavras nos lábios da divindade? Eis o problema? Deus se vinga, manda matar homens pela mão de outros homens? A divindade apresentada por Jesus atenderia a um pedido de vingança, quando o próprio Jesus disse: “Se te baterem numa face, dá-lhe também a outra”? Se for dito que o motivo da vingança era apenas divino, então como explicar o texto como resposta à oração do profeta? Exegeticamente tem-se um problema: O texto é apenas uma confissão de Jeremias, que coloca palavras na boca de Iavéh, e isto seria apenas um momento poético-literário, ou o texto é palavra de Deus? Se Jeremias é, tipologicamente, alguém que aponta para o Cristo, em que sentido o desejo de vingança seria compatível com o Cristo?[8] Mas será dito, entretanto, que a interpretação tipológica não deve ser levada absolutamente às ultimas consequências. Vê-se nisso tudo que fazer exegese não é uma tarefa simples. Fazer perguntas ao texto em função daquilo que o mesmo possibilita não é algo tão fácil de ser enfrentado. O que é dito pelo texto apresenta possibilidade de reflexão que precisa ser resolvida. Na verdade, aqui se tem um texto no qual está um homem avariado existencialmente e que, em função disso, toma o seu desejo e o atribui à sua divindade.
            O texto em sua tradução apresenta-se:
E Iavéh me fez saber, e eu o quis saber. Então tu me fizeste perceber as suas ações. Eu me via como um cordeiro, inocente e indefeso, levado ao local de seu sacrifício. E eu não sabia que planejavam friamente contra mim. Dizem eles: nós já corrompemos a árvore com o seu fruto. Logo, logo, nós o cortaremos da terra dos viventes, e não haverá mais memória do seu nome.
Iavéh dos Exércitos, justo Juiz, que provas os rins e o coração, veja eu a tua vingança sobre eles; pois a ti descobri a minha causa.
A Septuaginta, no lugar de “וַיהוָה צְבָאוֹת” (Iavéh Tseva’oth), “Iavéh dos exércitos”, ou mesmo “Iavéh da guerra”, ou ainda “Iavéh do poderes”, apresenta apenas “ku,rie” (kírie), o vocativo de “ku,rioj” (senhor). Há a omissão da tradução de Tseva’oth. O que não deixa de ser curioso. O verso seguinte (11: 21) traz:
לָכֵן כֹּה-אָמַר יְהוָה עַל-אַנְשֵׁי עֲנָתוֹת הַמְבַקְשִׁים אֶת-נַפְשְׁךָ לֵאמֹר לֹא תִנָּבֵא בְּשֵׁם יְהוָה וְלֹא תָמוּת בְּיָדֵנוּ: ס
            A referência aos homens de Anatote (אַנְשֵׁי עֲנָתוֹת) é uma referência aos parentes do profeta. É uma referência aparentemente absoluta. Todos os homens daquela cidade seriam incorridos na punição de Iavéh, segundo o profeta.
Neste ponto (Jer. 11: 22), Iavéh apresenta a sua promessa de punição.[9]
לָכֵן כֹּה אָמַר יְהוָה צְבָאוֹת הִנְנִי פֹקֵד עֲלֵיהֶם הַבַּחוּרִים יָמֻתוּ בַחֶרֶב בְּנֵיהֶם וּבְנוֹתֵיהֶם יָמֻתוּ בָּרָעָב
A ideia em poked (פֹקֵד) é a de visitar a alguém não para, necessariamente, congratular-se. E neste caso, a ideia de castigo ou vingança que algumas traduções atribuem a este verbo, neste ponto, deve-se ao restante do verso que fala da morte dos jovens pela espada e pela fome. A tradução de uma palavra pode dar-se, assim, pelo seu contexto mais do que pelo seu sentido lexical.
            O último verso (Jer. 11: 23),
וּשְׁאֵרִית לֹא תִהְיֶה לָהֶם כִּי-אָבִיא רָעָה אֶל-אַנְשֵׁי עֲנָתוֹת שְׁנַת פְּקֻדָּתָם: ס
 
enfatiza mais ainda a punição, o castigo. Algumas traduções trazem o substantivo visitação e outras trazem punição ou vingança para traduzir pekudatham (פְּקֻדָּתָם). Substrato deste substantivo é o verbo pakad [11], já referido no verso anterior como Qal particípio masculino singular com o sentido de visitação. A Septuaginta neste passo traduz pekudatham (פְּקֻדָּתָם) por episképseos, que se traduz por visitação. Assim, a tradução desta palavra por punição ou castigo trata-se de adaptação do sentido do contexto a pekudatham. Literalmente a palavra não quer dizer punição, castigo ou vingança. Pode-se traduzir o verso como segue:
E não haverá deles resto nenhum, porque farei vir o mal sobre os homens de Anatote, no ano da sua visitação.
Apesar da subjetividade de Jeremias extremamente estampada no texto, há uma mensagem que se entende teológica. Deus está acima das condições e limitações humanas a tal ponto de usar um homem como Jeremias, avariado, com limitações emocionais consideráveis, para atender a seu propósito. Deus não procura homem perfeito para servi-lo, mas usa mesmo um que tem debilidades, como Jeremias ou semelhante.
Willians Moreira Damasceno

[1] ALMEIDA, João Ferreira, Bíblia revista e corrigida, Rio de Janeiro – Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.
[2] Não é bom entrar aqui no mérito da questão: Se o ministro anglicano aqui referido era de fato ou não chamado por Deus. Esta questão é um tanto melindrosa e não é cabível emitir juízo de valor sobre a mesma no momento. Mesmo porque é sempre precipitado falar sobre esse assunto, pois um parecer sobre o mesmo seria resultado de um conhecimento superlativamente limitado.
[3] BHS [or WTT] - Biblia Hebraica Stuttgartensia (Hebrew Bible, Masoretic Text or Hebrew Old Testament), edited by K. Elliger and W. Rudolph of the Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart, Fourth Corrected Edition. Copyright © 1966, 1977, 1983, 1990 by the Deutsche Bibelgesellschaft (German Bible Society), Stuttgart. Used by permission (BibleWorks for Windows – Versão 7.0.018x. 14).
[4] Idem.
[5] Um vav consecutivo, usado para expressar o passado narrativo. Neste caso o “vav” converte as formas do imperfeito em formas do perfeito.
[6] o coortativo é usado para expressar desejo, intenção, autoencorajamento ou determinação do sujeito  de realizar certa ação. Um verbo auxiliar pode ser usado para esclarecer melhor o sentido do verbo, como, por ex. o verbo “querer”.
[7] BHS [or WTT] - Biblia Hebraica Stuttgartensia (Hebrew Bible, Masoretic Text or Hebrew Old Testament), edited by K. Elliger and W. Rudolph of the Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart, Fourth Corrected Edition. Copyright © 1966, 1977, 1983, 1990 by the Deutsche Bibelgesellschaft (German Bible Society), Stuttgart. Used by permission.
 
[8] Deve ser lembrado aqui que, quando soldados buscaram prender Jesus no Getsêmani e Pedro desembainhou um espada, Jesus mandou que a guardasse.
[9] ou esta palavra é colocada em sua boca
[10] Verbo dq;P' no Qal particípio masculino singular absoluto. A tradução pode ser: “Diz Yavéh dos Exércitos: Eis que eu os visitarei...”
[11] Comparecer, convocar, numerar, calcular, visitar, punir, nomear, cuidar de, tomar conta. DICIONÁRIO BÍBLICO STRONG, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

Um comentário:

António Jesus Batalha disse...

Ao navegar pela net encontrei o seu blog, não li muito,mas gostei do que vi e li,espero voltar mais algumas vezes,deu para ver a sua dedicação e sempre aprendemos ao ler blogs como o seu.
Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante, e se desejar deixe um comentário.
Abraço fraterno.António.
http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/