Propostas de reflexão teológica e filosófica, como também apresentação de crônicas, poemas, etc.
sábado, 16 de janeiro de 2010
TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS
SOBRE TEMPO E A ETERNIDADE
Que é o tempo?
Como explicar a natureza do tempo?
Tempo absoluto e/ou tempo relativo?
Quais as implicações do pensamento sobre a natureza do tempo?
Como se sabe que o tempo passa?
Que é eternidade?
Qual a diferença entre tempo e eternidade? Existe uma diferença?
sábado, 2 de janeiro de 2010
EVIDÊNCIA
Caminhos se cruzam; unem-se; distanciam-se.
Elos se fundem; partem-se; desfazem-se.
Vidas se encontram; desencontram-se; evadem-se.
Amores se amam; consomem-se; destroem-se.
Nos caminhos que se cruzam...
Nos elos que se fundem...
Nas vidas que se encontram...
"Na natureza nada se cria;
Nada se perde;
Tudo se transforma".
"Há tempo para tudo debaixo do céu".
Willians Moreira
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
HERESIA E COOPERAÇÃO DENOMINACIONAL
Edvar Gimenes de Oliveira,
Pastor da Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem, Recife, PE
E-mail: edvargimenes@uol.com.br
A palavra heresia sempre fez acender uma luz amarela em meu cérebro. Geralmente ela era associada a pessoas más, infiéis a Deus, de quem deveríamos manter distância absoluta. Engano meu. Foi na disciplina História do Cristianismo, há mais de vinte anos, que comecei a compreender o conceito, o como e o porquê da heresia. E com a compreensão, veio a mudança na disposição interior. A partir daí, antes de participar da caça às bruxas, passei a aprofundar o conhecimento do assunto e dos "hereges". A cautela, a honestidade e a humildade, passaram a ser parâmetros norteadores do julgamento dos "casos de heresia".
Na caminhada que desenvolvi em torno do conceito heresia, desencadeada naquela aula do mestre Ramos André, encontrei dois textos curtíssimos, porém elucidadores que merecem reflexão por aqueles que estão em busca da verdade e não apenas de se ajustar a sistemas e deles se beneficiar por razões egoístas. O primeiro, de Rubem Alves em seu livro Dogmatismo e Tolerância, pg. 50; o segundo, de William Barclay, em El Nuevo Testamento, vol. 16, pg. 139.
O texto de Rubens Alves esclarece como a heresia se estabelece no plano político afirmando que
heresia não é algo que se situa no plano da verdade, como oposição a ela. A heresia se situa no plano do poder. Ortodoxos são os fortes, aqueles que tem o poder para dizer a última palavra. Por isso eles se definem como portadores da verdade e aos seus adversários como portadores da mentira. A heresia é a voz dos fracos. Do ponto de vista dos sacerdotes, os profetas sempre foram hereges. Do ponto de vista dos fariseus e escribas, Jesus foi também herege. E como as Escrituras sistematicamente se situam ao lado dos fracos contra os fortes, é melhor dar mais atenção às heresias do que às ortodoxias.
O texto de W. Barclay esclarece como a heresia se estabelece no plano filosófico e espiritual:
a heresia sempre é um produto de uma mente que busca e investiga. É, na realidade, um sinal de vitalidade e inteligência; indica, pelo menos, que há quem esteja tentando pensar as coisas por sua conta. A heresia é em geral a ênfase desequilibrada na verdade... A heresia é uma característica do homem e da igreja que não se conforma com uma fé de segunda mão, com uma aceitação da ortodoxia, sem reflexão". Ele continua sua reflexão dizendo que não há estado pior do que o da pessoa que aceita cada ponto e vírgula de doutrina porque é preguiçoso para pensar. E conclui que, talvez seja melhor o herege que sustenta sua fé, com todo o coração, do que o crente capaz de aceitar a doutrina mas que, no fundo, não se interessa em buscar a verdade.
Tais textos nos conduzem à compreensão de que a Declaração Doutrinária e a Filosofia da CBB não são a Palavra de Deus; são o registro da percepção que uma maioria, num tempo e espaço, teve da revelação divina. Por isso, defender que elas devem sempre estar sujeitas a novas reflexões parece-me pacífico. Elas - a Declaração Doutrinária e a Filosofia da CBB - não foram criadas para ser instrumentos de padronização do pensamento e motivo de perseguição dos divergentes; foram criadas para viabilizar um trabalho cooperativo entre igrejas, em torno de sua missão bíblica. Se assim não fosse, seríamos incoerentes com os princípios da liberdade de consciência e da livre interpretação das Escrituras, defendidos por nós através dos séculos.
Assim sendo, um grande e permanente desafio político da liderança denominacional é ajudar seus membros a compreenderem, por um lado, a necessidade de tais documentos para a harmonia e o bom andamento dos trabalhos e, por outro, como conviver com a renovação de pensamento natural numa comunidade que estimula o estudo bíblico-teológico e cuja membrezia e, consequentemente, sua liderança, se altera numa velocidade cada vez maior devido ao seu crescimento.
Inevitavelmente heresias sempre surgirão, muito mais movidas por boas do que más intenções. Elas são inevitáveis no processo de construção do conhecimento individual e, geralmente, são motivadas pelo desejo de uma aproximação maior da verdade divina. Por isso, devemos cultivar um profundo espírito de diálogo entre passado e presente, entre presente e porvir (em perspectiva) e não simplesmente tentar impor, através de regras e ameaças, nossos pontos-de-vista.
Todos nós pensamos ou cometemos heresias. Na Assembléia da CBB, de 2002, no Recife, apareceu no plenário uma proposta que dizia mais ou menos o seguinte: para uma igreja participar da CBB, seu pastor deve estar filiado à Ordem dos Pastores. A intenção manifesta era fortalecer os mecanismos de proteção das definições doutrinárias estabelecidas, também conhecidas como "sã doutrina". Seria, portanto, uma espécie de vacina anti-herege. Se aprovada, provavelmente acarretaria um aumento no número de sócios da Ordem dos Pastores - entidade de classe - e inibiria a consagração de pastoras, já que estas não são aceitas em alguns Estados.
A aprovação de tal proposta, porém, seria uma heresia em si mesma, primeiro, porque feriria direitos individuais. Cada pessoa, inclusive um pastor, tem pleno direito de escolher a que agremiações se associar. Que é bom, recomendável até, que os pastores batistas estejam filiados à Ordem, na área de abrangência da Convenção Estadual a que sua igreja pertence, é uma verdade; porém, pode haver circunstâncias locais que dificultem a filiação, até porque, cada Secção estadual tem seus critérios de recebimento e de tratamento dos sócios, desconhecidos, inclusive, da Ordem nacional. (Penso que as Ordens Estaduais, uma vez que são secções da nacional, deveriam, se assim não for, ter seus estatutos pelo menos homologados pela nacional para ser considerada Secção). Em segundo lugar, a aprovação de tal proposta seria uma heresia porque retiraria poderes da Assembléia Convencional e conferiria mais poderes às assembléias das Ordens Seccionais, uma vez que os critérios para filiação à tais Ordens não passam pelo crivo da Assembléia da CBB. No momento em que a assembléia de sócios de uma entidade auxiliar passa a ter mais poderes do que a assembléia da CBB, estamos cometendo uma heresia eclesiológica, criando uma espécie de presbitério, ainda que movida e recheada de boas intenções.
Propostas dessa natureza confirmam a tese de que alguns ainda não perceberam que os tempos mudaram e que, por isso, os mecanismos de arrolamento ou desligamento de igrejas e de preservação doutrinária, devem ser movidos pela força do diálogo, da autocrítica, do conhecimento e da ética e não da manifestação de força político-econômica. Penso que o tempo de referência para se excluir uma igreja do rol cooperativo da CBB não deveria ser inferior ao tempo que tal igreja levou para se formar, desde sua origem como congregação até ser arrolada como cooperadora. Em alguns casos levamos décadas para organizar uma igreja e semanas para abandoná-las mediante desligamento do rol. E o pior é que nos sentimos vitoriosos, felizes até, crendo que herege é a igreja excluída e não nós!
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
ALMANAVIO
Minha alma,
Navio no mar;
Sempre no mar,
Chega a portos.
Reconhece o desejo de âncoras
Não quer desatracar.
Mas para que os navios?
Willians Moreira
INCONSTANTE
Navalhas de tua boca mastiguei;
Cascatas de sangue pelo meu peito.
A cor marron com que pintaste o tempo
Nublou o meu caminho.
Estarás em meu corpo, sim!
Quero a tua marca, como a de outras
Que por mim passaram.
Amarei sempre a todas;
A ti, como quem sofre
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
MARCADORES DE LINGUAGEM – MARCADORES DE EXISTÊNCIA
Marcador de linguagem é aquela expressão recorrente que se pronuncia quando se está num diálogo, monólogo ou coisa parecida.
Uma de minhas práticas quando converso com alguém ou escuto uma conversa é captar os marcadores de linguagem dos interlocutores. Exemplo: "oxente". Esse marcador é velho e não é somente individual; é coletivo. Quase todo mundo diz "oxente". "oxente" pra cá, "oxente" pra lá. Você sabe qual a origem desse marcador? Em sala de aula, minha professora Nevinha disse que uma das versões dizia que veio de "oh, gente!". Bom! "oh, gente!" pra lá, "oh, gente!" pra cá, e olha no que deu. Isso me fez lembrar que lá pelos idos da década de setenta, eu tinha uma professora de português, Socorro Sena, que marcava sua fala, justamente com "oh, gente!". Mas eu já ouvia também "oxente".
Ainda na linha dos marcadores coletivos, ultimamente eu tenho observado entre os adolescentes e jovens, e já contaminando alguns adultos, o marcador "tá ligado". "tá ligado" pra lá, "tá ligado" pra cá. Espero que daqui a pouco não haja curto circuito.
A nossa época está tão marcada pela tecnologia e pelos eletrônicos que nós, que antes antropomorfizávamos tudo, agora somos tecnomorfizados. Será que as máquinas vão mesmo nos dominar?
Há aqueles marcadores de linguagem coletivos que recebem vulgarmente o estigma de palavrão. São as pornografias e pornofonias. A fala do cidadão é pontuada por recorrentes "puta-merda", "porra", "pqp". O palavrão possui bastidores psicológicos bem sugestivos para análise. Mas eu sou apenas curioso nesse assunto.
E os marcadores de linguagem apenas individuais? Há gente que conversa o tempo todo intercalando sua fala com recorrentes "sabe". "Sabe", fulano, eu gostaria de..."; "Sabe", eu vou...". É um "sabe" pra lá, um "sabe" pra cá, que dá agonia.
Você conhece quem fala "aí" recorrentemente? São tantos "aís" que logo, logo, ficamos enjoados. "Ai", eu fiz isso; "ai", eu fiz aquilo". É "aí" pra lá; é "ai" pra cá, que dá dó.
E que me diz de "né". "Virgem santa", é horrível!
Fazer o quê? Os humanos são mesmo seres de recorrência. Vivemos recorrendo num montão de assuntos. Há tantas coisas que faço que já havia feito antes. Coisas que já estão na hora de eu parar de fazê-las e eu ainda não parei. Coisas recorrentes na minha vida que em comparação aos tais marcadores de linguagem são questões ínfimas. Na verdade, os marcadores de existência contam mais. Aconteceria de os marcadores de linguagem serem indicadores de marcadores de existência? Que me diz, Freud?
Quer se livrar de algum marcador? É possível. Uns conseguem; outros, não. Mas é possível. Se não conseguir sozinho, busque ajuda.
PROCEDIMENTOS RECORRENTES
Viajando ao século XVIII, encontrei referência a uma bula papal que condenou o Confucionismo. Em resposta àquela bula, o imperador Chien-Lung baniu o Cristianismo e expulsou da China os missionários (em 1715).
Em alguns países existe repulsa ao Cristianismo que nós da atualidade não compreendemos. Para quem possui consciência histórica, torna-se fácil entender certas reações. Muitas destas foram condicionadas a acontecer num passado pela maioria desconhecido. Tal é o caso da China. Se o Cristianismo quiser conquistar espaço, não deve ser sua estratégia a palavra de condenação das outras religiões. Tal estratégia revela antes um espírito maniqueísta, atravancador das relações humanas.
Pergunta-se: o que tem conseguido o Vaticano com medidas segregacionistas? Na Verdade, consegue o contrário do que é o propósito missionário.
Em pleno final de século XX, 05 de setembro de 2000, aconteceu uma declaração papal com uma palavra muito mais abrangente e tão contundente quanto aquela bula do século XVIII. Dom Glauco Soares de Lima, Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, diz em uma palavra sua, na Internet registrada, que "o Vaticano desfechou um grande golpe nas relações ecumênicas ao reafirmar suas dúvidas sobre a validade das igrejas protestantes". Agora imagine o que o Vaticano, nos seus bastidores, pensa das outras religiões.
Um site da Internet chamado CATÓLICA NET, muito interessante e eficiente por sinal, apresenta um título interpretativo da palavra papal: "IGREJAS PROTESTANTES NÃO SÃO AS VERDADEIRAS". O texto comenta o documento "Dominus Iesus", de 05 de setembro de 2000. Uma grande maioria católica entendeu muito bem o que o Vaticano quis dizer. Ninguém é tolo. Tanto é verdade, que o tal documento causou incômodos em várias partes do mundo, tanto ao lado chamado protestante como também às outras religiões.
Ninguém se iluda! Essa prática da cúpula católica não é recente. A intransigência religiosa da Roma papal tem sido vigente por toda a história.
Cabe aqui renovar a palavra do Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Dom Glauco Soares de Lima: "Estou convencido que a Unidade dos cristãos, a Unidade da humanidade, é uma construção que está sendo feita nas bases das igrejas e não nas suas cúpulas, por melhor que elas sejam... Assim, independente das notas e decretos, encíclicas, etc., vamos continuar a nossa construção, que é um processo de amor orientado pelo Espírito Santo que se manifesta em nós".
Concluindo, espera-se que essas retomadas papais não consigam influenciar a humanidade na sua representatividade católica ao ponto de criar separações nocivas à ecologia humana.
Willians Moreira
Em seguida, mais um lembrete histórico.
Comitê de Direitos Humanos denuncia repressão religiosa na China
Hong Kong, 27/12/2000
"As autoridades chinesas fecharam ou destruíram mais de três mil templos e igrejas não autorizados, ao intensificar uma campanha para reprimir a religião", denunciou hoje um grupo de defensores dos Direitos Humanos. Seguindo ordens de Pequim, autoridades da cidade costeira de Wenzhou realizaram uma inspeção de dois meses e descobriram que somente 3.200 dos 8.000 centros religiosos estavam registrados legalmente. Entre os centros ilegais, mais de 4.000 eram templos evangélicos e católicos. O restante era de budistas, taoístas e santuários religiosos locais.
FAVELA MELHORADA
Um dia desses, conversando com um amigo, disse-lhe que estava morando no Conjunto Guaíra, em Nova Parnamirim. Ele fez um sorriso maroto e me disse que eu estava morando numa favela melhorada. Pode acreditar! O cidadão é meu amigo mesmo. Mas ele se explicou. É todo mundo empoleirado, bem perto uns dos outros. Tudo o que se fala no aptº do vizinho, ouve-se no nosso: desde o palavrão do adulto stressado ao choromingar da criança. Não só se ouve, como se vê de quase tudo, um pouco. Eu mesmo já presenciei algumas cenas inusitadas: Ensaios de violências verbal e física; sessão sonora de sado-masoquismo, até um meio ensaio de strip.
A única visão que me alegra está no mesmo plano do meu andar, a partir da porta da minha cozinha. A disposição dos aptºs é de tal forma que as áreas de serviços têm comunicação visual no plano horizontal e diagonal. Das janelas dos quartos, muito pode ser visto. Para quem gosta de privacidade é uma beleza! Acredita nisso?
Mas o problema é a questão do som. É terrível! A coisa é tão séria que quase se ouve mesmo uma turbulência intestinal do vizinho. Sorte que não se está por perto e as paredes são ótimas trincheiras contra os torpedos envenenados do inimigo que mora ao lado.
Pode acreditar! É sério!
Às vezes, domingo cedo, entre as 07 h. e as 08 h., umas meninas que moram ao lado, soltam o som. Por incrível que pareça, não é lá nem uma sinfonia clássica para um domingo tranqüilo, é "Calcinha Preta". Pense no pulo que dou da cama! Num desses domingos, precisei falar com elas e pedir clemência. Fui ouvido e atendido. Educaaadaasss!
Que me diz do som de cinema, vizinho a você, depois do almoço? Aquele som de móveis de uma tonelada sendo arrastados. Outro vizinho meu comprou uma aparelhagem de som que, vou lhe dizer, se ele aumenta mesmo, derruba o prédio. Pior! De vez em quando ele ensaia. Ontem, eu estava tomando banho; de repente, pensei: é um avião voando baixo; vai cair; valha-me Deus! Não! É trovão! Vai chover pesado! Que nada! Você já sabe o que era.
Tem vizinho que gosta de música brega. Final de semana é tempo de muito Lindomar Castilho.
Há outros que gostam de Rock, tipo Scorpions. Bom, aí é minha praia. Sem falar que tem quem goste de Calipso (dá para aturar um pouco; mas só um pouco, viu?), Belchior, Zé Ramalho, e outros bons de serem ouvidos.
O pior de tudo, às vezes, é ter de escutar Mução. Imagine a altura do rádio do vizinho, obrigando todo mundo a ouvir aquilo.
O que eu menos quero é incomodar a vizinhança. Às vezes, pego o violão; toco e canto umas músicas agradáveis (para mim, pelo menos). Tal foi a minha surpresa, quando o vizinho do térreo (e eu moro no 3º andar) comentou comigo que acordou cedo ouvindo o meu som. Que droga!!!
Só lamento não ter quem goste de música clássica. Na verdade, tem: eu. Mas não tenho aparelho de som. Ah! Se eu tivesse!
Tem nada, não! Eu ainda me vingo.
EQUÍVOCOS DA FALA – EQUÍVOCOS DA AUDIÇÃO
Sabe aquela história de sermos enganados pelos ouvidos quando ouvimos algo e depois descobrimos que não foi bem o que pensamos ser? A fala tem dessas coisas, sim. Alguns fazem brincadeiras com isso. Na escola, eu me lembro que um professor meu, quando queria alertar-nos sobre a necessidade de prestarmos atenção, dizia: "não confundam 'tratado de tordesilha com tarado atrás das ilhas'". Era aquela festa; a meninada vibrava. Volta e meia, ele vinha com uma nova. Uma que todo mundo conhece, ele dizia: "não confunda frei Damião com freio de caminhão".
Fazer o que? São os trocadilhos da fala e "equívocos" da audição.
Lembrei-me daquela história do menino que foi se matricular na escola. A secretária perguntou a ele:
- como é o seu nome?
O pai do menino respondeu:
- Edson Paulo.
- Eu não perguntei de onde ele é. Quero o nome dele.
O menino gritou:
- Edson Paulo...
Tal é o nosso deslumbre quanto a estas possibilidades da fala e da audição quando nos lembramos da "velha surda" da "Praça é nossa" (SBT). Haja dificuldade para ela entender o que ouvia.
Bom! De equívoco em equívoco, lembrei-me de uma que eu presenciei nos idos dos anos oitenta, em Recife/PE. Naquela noite eu fiquei mais convencido ainda que certos nomes não devem ser colocados nos filhos. O bom Deus só no-los dá uma única vez e corremos o perigo de marcá-los de modo a criar um estigma dos infernos. Dos infernos nem tanto; só se o nome fosse Lúcifer, Belzebu, ou coisa parecida. Mas como prever certas circunstâncias? Não sei, não. Pelo menos o nome que tenho na memória não daria a impressão de alguém passar o que presenciei naquela noite.
Eu e minha amiga Suerda estávamos no seu carro. Ela fazia algumas peripécias ao volante, características de quem ainda não tinha muita habilidade na direção. Eu imaginei que logo, logo, alguém iria dizer-lhe umas boas. Dito e feito. Por incrível que pareça, alguém, num carro, emparelhou-se conosco e começou a gritar: "Suerda, Suerda, Suerda". Do meu lado, eu escutava meio apreensivo. Suerda fazia que nem ouvia. E continuava o sujeito a gritar. Eu pensava: Poxa! Ela está tão acostumada com o nome dela que nem liga mais. E eu brincava com ela: Atende, mulher! Vai que é um fã anômino. Nesses pensamentos, eu disse a ela: Você não vai atender? Depois de algum tempo, ela parou o carro e, desaforada como era, mandou-me descer. Eu tomei um susto. Não entendi. Mas desci meio desnorteado.
Enquanto eu estava descendo e não mais sentia o influxo dos movimentos do carro e do vento em meus ouvidos, ouvi novamente, quando o mesmo elemento passou por nós e gritou: "sua merda, sua merda, sua merda". Agora eu lhe pergunto: eu tenho culpa? Ainda bem que eu estava perto de meu destino.
Willians Moreira