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quinta-feira, 8 de março de 2012

UMA TRADUÇÃO DA BÍBLIA É A PALAVRA INSPIRADA DE DEUS?

 

            O Cristianismo é um depósito de muitas dificuldades para os que se dizem crédulos em suas supostas verdades. Dogmas como o nascimento virginal de Jesus de Nazaré e sua ressurreição; as duas naturezas de Jesus e sua segunda vinda a este mundo e, na verdade, outros tantos são passíveis de dificuldades ante uma análise crítica. Como se não bastasse, o Cristianismo ainda enfrenta dificuldades ante as sustentadas verdades de outras religiões. Cada religião possui o seu depósito de dogmas; dogmas estes contrários aos dogmas de outras religiões. Se quisermos condescender com as religiões, o único dogma que é pertinente a todas é a crença na existência de uma divindade. O que decorrer desta crença teológica é passível de contestação entre as religiões. Ou seja, cada dito sobre a própria divindade passa por controvérsias intermináveis entre os religiosos.

            De per si, o Cristianismo, entre as suas facções ou ramos, também enfrenta controvérsias sem fim, embora existam muitos adeptos seus buscando um elo que propicie união entre todos os cristãos num ecumenismo, mesmo que não seja possível uma unidade teológico-doutrinária.

            Além desses problemas, existem outros que não são tratados nos redis cristãos; ou por deficiência epistemológica de seus mentores teológicos ou por desinteresses sobre tais assuntos; ou ainda por medo de que, uma vez tratados tais assuntos, o Cristianismo venha a perder influência na humanidade. E este último motivo revelaria a covardia de alguns que se escondem atrás da máscara de uma chamada prudência jesuológica que se traduz pela expressão: "tenho muito que vos dizer, mas vós não podeis suportar agora". Admita-se que seja usada esta prudência nos ambientes de culto; porém, nos ambientes de ensino teológico faz-se necessário o tratamento de muitos assuntos tabus e esse tratamento deve acontecer mesmo de forma crítica. Esse tratamento levaria os estudantes a buscarem respostas menos infantis para os seus questionamentos mais recônditos.

            Um dos assuntos carente de tratamento sem disfarces refere-se à própria Bíblia. Existem muitas considerações bibliológicas que são negligenciadas aos estudantes de teologia. Em face desta situação, este artigo refere-se a problemas bibliológicos relativos à tradução do texto bíblico e aos manuscritos nas línguas originais, grego e hebraico.

 

As traduções

 

Do ponto de vista da tradução, a Bíblia é um texto inacabado; é um texto que está sempre em revisão e mudanças face às novas descobertas lingüísticas, literárias, arqueológicas e de quaisquer ordens que se refiram a qualquer texto traduzido. O texto bíblico traduzido que temos hoje, em qualquer língua, não é o texto original; não é o autógrafo dos profetas e apóstolos, escritores originais. O texto traduzido que temos hoje, em qualquer língua, é apenas uma tradução dos manuscritos nas línguas originais, cópias de cópias de cópias do texto original supostamente inspirado, que já não existe e, por sinal, há muito tempo desaparecido. Portanto, em que sentido as traduções são a palavra de Deus? Esta é uma pergunta pertinente para que os teólogos a respondam. Parta-se do pressuposto de que a suposta inspiração divina foi atuante apenas sobre os primeiros escritores. A não ser que se desenvolva uma doutrina da inspiração a la Filo de Alexandria, o qual sustentava que a Septuaginta, tradução da Bíblia hebraica para o grego, foi feita "não por tradutores, mas por hierofantes e profetas"[1], portanto, também inspirada por Deus.

            Não se pode negar que todo tradutor tem uma formação lingüística necessária para que o seu trabalho possua pertinência à confiança dos seus leitores. Aplique-se este pressuposto às sociedades bíblicas que fazem tradução. Um tradutor que se preza conhece as teorias de tradução e, necessariamente, adota uma delas no seu labor. Uma sociedade de tradução, por sua vez, está para uma teoria linguística assim como uma denominação religiosa, um partido político, etc. estão para uma doutrina pelos tais adotada. Aquela sensação que um religioso protestante fundamentalista ou conservador sente ao ser informado de que tal tradução da Bíblia foi realizada por tradutores católicos ou espíritas, ou de qualquer outro ramo religioso, é bem reveladora do que subjaz ao problema das traduções; em outras palavras, suas diferenças.

 

Mudanças ideológicas

 

As mudanças nas traduções explicam-se por diversos fatores: a) Concepções teóricas surgidas através dos tempos. Essas mudanças teóricas ocasionam correções, subtrações, como também acréscimos às traduções já realizadas; b) As mudanças filosóficas e teológico-doutrinárias ocorridas nas escolas ou sociedades de tradução. A análise de diversas traduções revela diferenças que refletem concepções teóricas linguístico-teológico-doutrinárias diversas, sem contar que influências filosófico-hermenêuticas subjazem às concepções lingüístico-teológicas pertinentes a cada tradução: desde concepções fundamentalistas a compreensões liberais expressas nas traduções. Não só as perspectivas linguísticas são passíveis de mudanças. As concepções teológicas e filosóficas de uma sociedade de tradução também mudam conforme os seus tradutores são remanejados, substituídos, etc., sem contar que as sociedades de tradução também acompanham as mudanças doutrinárias do ramo religioso com o qual se comprometem; resultado disto são as diferenças gritantes entre as traduções. Comparem-se traduções de sociedades bíblicas diferentes; de sociedades de ramos religiosos diferentes entre si; c) deve-se acrescentar ainda o fator das descobertas científicas. Este fator lança novas luzes sobre o conhecimento humano e este passa a ter novos pressupostos que levam a mudanças de visão quanto às traduções. A mudança é, na verdade, um fenômeno natural na cultura humana. Tradução também é cultura.

 

Mudanças existenciais

 

Como, portanto, livrar-se do pressuposto de que toda tradução é também interpretação? O parágrafo anterior é a prova de que toda interpretação leva consigo a marca de uma subjetividade do tradutor. Além disto, acrescente-se o fato circular e dinâmico de que a tradução faz o tradutor e o tradutor faz a tradução. A tradução como atividade e como resultado do trabalho cria novas impressões na subjetividade do tradutor no decorrer e à medida que cada trabalho tradutório se encerra. Afinal, lidar com um texto escrito não é meramente lidar com algo morto. É antes lidar com a vida das idéias. E estas sempre tocam a subjetividade do tradutor. Todo texto ganha vida quando entra em contato com o tradutor. Afinal, todo texto quando ganha voz transmite sempre uma idéia.

 

Os manuscritos nas línguas originais

 

Os manuscritos bíblicos nas línguas originais, conhecidos, são também cópias de cópias de cópias do texto original e não são também inspirados; repita-se: são meramente cópias.

Para o exercício da tradução, os tradutores exercem atividades, cujos métodos e técnicas podem diferir de sociedade para sociedade de tradução. Além do mais, a passividade de diferenças vai também interferir nos resultados da tradução. Podem ser referidas aqui duas atividades do tradutor: A Crítica Textual e a Análise Literária. Ambas são devedoras a pressupostos que condicionam o resultado do trabalho. A Crítica Textual consiste em determinar com a maior exatidão possível o texto que será usado para a tradução. A necessidade da Crítica Textual, no caso do texto bíblico, advém do fato de que os manuscritos foram escritos em línguas que não a do tradutor e estes manuscritos são cópias de originais desaparecidos. Esses manuscritos foram sucessivamente copiados através dos séculos, de modo que existem milhares desses manuscritos cópias na atualidade. A comparação dessas cópias entre si revela que o texto reproduzido nem sempre é igual. A Crítica Textual busca o conhecimento dessas diferenças existentes entre esses manuscritos cópias para que o tradutor possa escolher que cópia ou cópias usar para a sua tradução[2]. Além da Crítica Textual, o tradutor ainda pratica a Análise Literária, ou crítica literária. Os textos contidos nos manuscritos, como unidades literariamente formuladas e acabadas são analisados com a finalidade de se definir

 

a sua exata extensão como unidades literárias autônomas; a estrutura literária dos textos, ou seja, as partes diferenciáveis que os compõem; o grau de integridade literária dos textos, ou seja, determinar se o conteúdo dos textos forma um todo orgânico e coerente, ou se são perceptíveis quebras e rupturas no desenvolvimento do assunto. O uso de fontes literárias alheias ao conteúdo formulado pelo próprio autor[3].

 

Percebe-se, nitidamente, que o tradutor exerce uma influência profunda e considerável na escolha dos manuscritos que ele entende mais confiáveis para o seu trabalho. Esse trabalho de seleção não escapa à subjetividade do tradutor e, consequentemente, não escapa de falhas, por mais que se abuse de procedimentos científicos no exercício da tradução. Devido aos fatores ditos, é comum e natural que tradutores de sociedades de tradução diferentes apontem falhas nos trabalhos de seus colegas de outras sociedades.

 

            Assim sendo, diante das contingências do material usado para a tradução da Bíblia, diante das contingências das traduções e diante das próprias limitações epistemológicas dos tradutores, sem contar com outras limitações, como humanos que são, releva-se um problema: EM QUE SENTIDO UMA TRADUÇÃO É A PALAVRA INSPIRADA DE DEUS? Este problema considera o questionamento: Que diferença faz se o texto é ou não inspirado? Não estaria a pertinência do texto em sua influência na vida humana? Quando os religiosos de Jerusalém disseram ao homem curado por Jesus que o Mestre era pecador, o homem respondeu: "Se é pecador, eu não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo" (Jo. 9:25)[4]. O homem curado revelou o âmago da questão quando a direcionou para o fato de uma relação com o Mestre e não para uma questão de saber ou não saber de algo, uma questão epistemológica.

            Portanto, a questão suprema é: qual a influência do texto bíblico na vida humana? De que adianta a lei de Deus escrita em pedras, se no coração está escrita a concupiscência? As palavras da Lei só fazem diferença se estiverem escritas no coração. Essa é a inspiração que conta.

 

Revisado em Natal/RN, março de 2012

Willians Moreira Damasceno



[1] BARRERA, Julio Trebolle. A bíblia judaica e a bíblia cristã. Uma introdução à história da bíblia. 2ª Ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1995. Pág. 149: citação do texto apócrifo Vida de Moisés 11:40.

[2] WEGNER, Uwe. Exegese do novo testamento – Manual de metodologia. 3ª edição. São Paulo. Sinodal – Paulus, 2002. Pág. ___

[3] Idem.

[4] BÍBLIA SHEDD. Antigo e novo testamentos. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. 2ª edição, rev. e atual. São Paulo: Edições Vida Nova/Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

FRIEDRICH SCHLEIERMACHER E A HERMENÊUTICA

 

            Do entendimento de todas as teologias podemos concluir que a questão hermenêutica é consideravelmente decisiva. Toda teologia possui em seus bastidores uma maneira peculiar de se compreender a realidade. Essa maneira, ao teólogo peculiar, condiciona a teologia.

            A palavra hermenêutica é de origem grega, significando interpretação. Seu significado está vinculado ao deus Hermes, mensageiro dos deuses, intérprete das mensagens divinas. Na verdade, o termo aponta para a arte ou técnica de interpretar. Essa arte possui regras que guiam a interpretação dos textos.

            Faz-se distinção entre hermenêutica e exegese. Hermenêutica é a teoria da interpretação e exegese atém-se à prática da interpretação. A exegese é a aplicação da hermenêutica no estudo do texto, buscando a compreensão do que o autor quis transmitir aos receptores da sua mensagem.

            Segundo estudiosos do assunto, cinquenta anos antes de Nietzsche, o filósofo e teólogo protestante Friedrich Schleiermacher (1768-1834) iniciou uma reflexão sobre hermenêutica que o tornou conhecido como fundador da hermenêutica moderna.

            Àquela época, não existia ainda algo como uma hermenêutica geral que fosse uma arte do compreender; existiam diversas hermenêuticas especiais. Schleiermacher fará a hermenêutica independer-se de suas especialidades, tornando-a a teoria geral do compreender. Segundo Gibelline[1], torna-se instrumento geral das ciências do espírito.

Schleiermacher descobriu que a Bíblia não possui tratados teológicos sistemáticos e, sim, é o produto de homens dando respostas a situações concretas. Daí a necessidade de se conhecer a vida do escritor e o que está por trás das suas palavras[2]. Sendo assim, é fácil entender que muito da atividade exegética (estudar o contexto cultural de um texto bíblico para podermos conhecer a sua mensagem para a época em que foi escrito) é, a princípio, uma atividade fundada na perspectiva de Schleiermacher.

Schleiermacher fez distinção entre interpretação gramatical e interpretação psicológica. A interpretação gramatical passa por uma atividade linguística-lexical; enquanto que a interpretação psicológica é a atividade de se procurar compreender a mente do autor expressa pelo texto escrito. A necessidade de uma análise filosófica das condições que tornam possível o entendimento do texto é fundamental no método de Schleiermacher. O caminho de elaboração do texto percorrido pelo Criador original é fruto da perspectiva e da vida pessoal do autor numa situação social que abrange a situação particular na qual o texto é criado.

Alguns críticos dizem que Schleiermacher foi influenciado pelo movimento romantista quando entende como possível um intérprete chegar a uma habilidade de recriar a mente do autor de um texto. Certamente isso é questionável.

Segundo o teólogo Bernard Ramm, citado no livro Teologia Contemporânea de Stanley Gundry, Friedrich Schleiermacher foi o pioneiro na reconstrução da teologia mediante o uso de uma base filosófica. Trabalhou este filósofo e teólogo fundado no idealismo alemão de Immanuel Kant (1724-1804), um dos fundadores teoréticos do liberalismo teológico.

            Os estudos hermenêuticos têm passado por várias transformações desde Schleiermacher até os nossos dias. Principalmente para as mentes influenciadas pela pós-modernidade, a realidade hermenêutica está vinculada não somente àquelas considerações feitas por Schleiermacher, mas a uma série de outras considerações que abrem um leque de interpretação extremamente sugestivo.

O teólogo precisa, pois, ter uma noção adequada da realidade hermenêutica do seu trabalho para não se enredar em situações de desconforto exegético, precisando refazer todo o seu trabalho, muitas vezes sem necessidade de que isto aconteça.

Willians Moreira Damasceno


[1] GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. São Paulo: Edições Loyola, 1998. 591 págs.

[2] Compreensão que a pós-modernidade não adota.