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sábado, 28 de maio de 2011

AO DESPERTAR

 
Na penumbra do quarto pela manhã,
Silhuetas fazem meus olhos delirar;
Linhas onduladas deliciam meus olhos;
A cor canela faz meu coração acelerar.
 
Uma linha acentuada anuncia o amanhã;
Um vai e vem contínuo prediz o vazio do quarto;
A respiração se acalma;
O coração desatina;
O desejo fenece no abrir das cortinas;
A luz ordena: Levanta, vai trabalhar!
27/05/2011
Willians Moreira Damasceno

terça-feira, 10 de maio de 2011

REFLEXÃO

 
"Um pagão apresentou-se a Shamai e lhe disse: Converter-me-ei ao judaísmo se me puderes ensinar toda a Torá, a Lei inteira, enquanto possa me sustentar sobre um só pé. Shamai o expulsou com a vara que tinha na mão. Quando se apresentou a Hilel com a mesma pretensão, Hilel o converteu, respondendo ao seu pedido da seguinte maneira: O que não queres que te faça a ti, não faças a teu próximo. Eis toda a Lei; todo o resto - é mero comentário. Vai e estuda."
Talmud, Shabat, 31a

segunda-feira, 9 de maio de 2011

TEOLOGIA LIBERAL


           A interpretação racionalista do Novo Testamento foi chamada de Teologia liberal. Esse tipo de interpretação trabalhava com um método de investigação histórico-crítico das fontes bíblicas e da teologia. Este método reflete, sem dúvida, a mente Iluminista. Essa interpretação surge do diálogo do liberalismo com a reflexão protestante, como também estava sob a influência de correntes filosóficas específicas, como o kantismo e o hegelianismo, sem esquece da influência dos filósofos deístas[1].
            Desde o início do século XIX, já encontramos Baur, Strass Bauer, que usam deste método racionalista na análise bíblica. Estudiosos como Albrecht Ritschl, Herrmann, Wellhausen, Harnack e Troeltsch foram expoentes deste tipo de interpretação.
            As características básicas da Teologia Liberal[2] podem ser apresentadas como: a) Uso do método histórico-crítico; b) relativização da tradição dogmática da Igreja; e c) ênfase numa compreensão ética do cristianismo.
            Pode-se encontrar um otimismo na Teologia Liberal na perspectiva de conciliar a religião com a cultura. Dois estudiosos, Harnack com "A essência do cristianismo" e Troeltsch com "A absolutidade do cristianismo" são expressões deste otimismo.
            Teólogos como Barth e Bultmann foram alunos de Harnack, sendo por algum tempo teólogos liberais.
Adolf Harnack (1851-1930) foi um dos expoentes da interpretação teológica do século XIX que adentrou o século XX. Era um historiador da Igreja. No seu trabalho, "A essência do cristianismo", ele ensina: "O evangelho, como Jesus o praticou, não anuncia o Filho, mas somente o Pai."[3] Segundo o teólogo Rosino Gibellini[4], "Harnack excluía toda e qualquer cristologia eclesiástica como fruto da contaminação do pensamento grego." Harnack chega mesmo a dizer que "toda a construção da cristologia eclesiástica passa longe da personalidade concreta de Jesus Cristo"[5].

          Para Troeltsch, teólogo e filósofo, o cristianismo é um fenômeno histórico, jamais devendo ser visto como a realização absoluta, incondicionada e imutável do conceito universal de religião.

          A Teologia Liberal foi um estímulo para que outras reflexões surgissem, inclusive por parte de ex-liberais.

          Hoje, se a estampa da Teologia Liberal não aparece abertamente, muitos são os teólogos que entendem ter sentido o método histórico-crítico de interpretação da Bíblia.

          Generalizamente falando, o Princípio Hermenêutico adotado pelos teólogos liberais é o princípio do racionalismo temperado com relativismo, hegelianismo e kantismo. Prova suficiente de que não há teologia sem filosofia.

Willians Moreira Damasceno
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[1] HÄGGLUND, Bengt. História da teologia. Porto Alegre: Concórdia Editora LTDA, 1986. Pág 324.

[2] GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. São Paulo: Edições Loyola, 1998. Pág. 19.

[3] Idem, pág. 14.

[4] Idem.

[5] Idem, pág. 14.

TEOLOGIA, EXEGESE E MÉTODOS


            Teólogos e exegetas em geral consideram que a teologia é uma ciência. Claro está que não é ciência no sentido das ciências naturais ou tecnológicas. Mas é ciência no sentido de ter um procedimento definido, sistemático, objetivo. Por isto, o procedimento da teologia é positivo; jamais intensiona normatizar coisa alguma. Teólogos e exegetas buscam antes a revelação que é, e não a que desejam que seja. Como bem coloca Erickson, “a teologia precisa comportar alguns dos critérios tradicionais do conhecimento científico” (ERICKSON, 1997. Pág. 18). São critérios como um objeto definido, um método, objetividade e coerência entre as proposições do objeto em questão que tornam a teologia uma ciência.

            Sendo ciência, pois, a teologia usa métodos para alcançar os seus resultados. Hodge diz que numerosos métodos têm sido aplicados à teologia e entende ele que os mesmos podem ser resumidos a três métodos: 1) Especulativo (dedutivo)[1]; 2) Místico[2]; e 3) Indutivo (HODGE, 2001. Pág. 03). Clark é do mesmo parecer que Hodge[3] quanto aos três métodos (CLARK, 1988. Pág. 19 – 21). Na verdade, existem métodos e todos são passíveis de aplicações, apesar de suas limitações na busca do conhecimento. Dizer que o método Indutivo é o “verdadeiro método da Teologia” é um juízo questionável, a não ser que esta assertiva refira-se a um uso comum do método indutivo por grande parte dos teólogos. Na contemporaneidade, como em outras épocas, outros métodos são usados pelos exegetas. São usados tantos quantos são necessários para objetivos diversos. Disso decorre que os métodos em si não são nem verdadeiros nem falsos; os mesmos são apenas instrumentos para se alcançar resultados diferentes à expensa do exegeta.

Com o método dedu­tivo (especulativo), uma teologia é levada a se conformar a princípios filosóficos ou teológicos previamente estabelecidos. Este método destina-se mesmo a demonstrar decorrências e a justificar pressupostos. Este método gera enunciados analíticos. Ou seja, a partir de “postulados e teoremas”[4] chega-se a uma conclusão particular (SALOMON, 2001. Pág. 157).  É o inverso do método indutivo (sintético).[5] Portanto, se uma teologia tem como princípio diretor o teísmo, ou o deísmo, ou o panteísmo, ou ainda o racionalismo, ou quaisquer outros ísmos, filosóficos ou teológicos, poderá fazer com que suas conclusões particulares conformem‑se a um daqueles ísmos ou visões de mundo. Como também pode acontecer de confissões doutrinárias condicionarem os resultados do trabalho exegético. Se um teólogo dá por verdadeiros os dogmas de uma determinada confissão, necessariamente o seu falar condicionará toda a sua interpretação àquela confissão.

Para Libanio, a teologia dedutiva é uma “teologia de cima” (katáa,basij – “a partir de cima”). Significa que é uma teologia que parte de um ponto de autoridade já estabelecido de antemão (um dogma, por exemplo). Na idade Média, o exemplo basilar é o de Tomaz de Aquino (1224-1274). O doutor aquinense diz:

 

Uma vez que bem é tudo o que é apetecível e uma vez que a cada natureza apetece seu ser e sua perfeição, cumpre dizer que o ser e a perfeição de qualquer natureza são essencialmente bem.[6] Portanto, não pode acontecer que mal signifi­que algum ser, alguma forma ou natureza;[7] con­clui-se, pois, que significa apenas a ausência do bem (AQUINO, 1954. Pág. 48).

 

A forma do raciocínio tomista é silogística.[8] Tomás de Aquino parte de uma afirmação universal, um princípio filosófico previamente estabelecido: “o ser e a perfeição de qualquer natureza são essencialmente bem” (premissa maior). Em seguida, Tomás de Aquino estabelece uma afirmação de natureza filosófica (menor). Nesse caso, Tomás de Aquino estabeleceu duas premissas menores: a) “bem é tudo o que é apetecível”; e b) “a cada natureza apetece seu ser e sua perfeição”, para concluir com “portanto, não pode acontecer que mal signifi­que algum ser, alguma forma ou natureza”. O que Tomás de Aquino queria com o argumento já estava estabelecido na premissa maior: a conclusão, “mal [...] significa apenas a ausência do bem”, é apenas decorrência. A finalidade não é provar o princípio universal, mas o que dele decorre (MOREIRA, 2006. Págs. 09 e 10).

            Libanio mostra pontos pertinentes a respeito deste método:

 

A estrutura fundamental dessa teologia (dedutiva) consiste em sistematizar, definir, expor e explicar as verdades reveladas. Para isso, parte dessas próprias verdades e busca relacioná-las entre si, dentro de uma visão de globalidade, por meio da “analogia fidei”, isto é, procurando ver como todas as verdades da fé se explicam e se relacionam mutuamente.

É dedutiva porque trabalha, de modo especial, com o silogismo. Parte de afirmações universais, dos princípios da fé (maior)[9], estabelece uma afirmação de natureza filosófica (menor) e conclui por dedução uma afirmação teológica. Por exemplo, Jesus é verdadeiro homem (maior: afirmação da fé de Calcedônia); ora, um verdadeiro homem tem uma liberdade e consciência humanas (menor: verdade filosófica), logo Jesus tem uma liberdade e consciência humanas. A finalidade não é provar o princípio da fé, mas o que dele decorre (LIBANIO, 1996. Pág. 101-102).


            A Teologia indutiva é dirigida por um procedimento que leva em consideração diretrizes científicas. Ou seja, não parte de assertiva já estabelecida, dogmática. O termo grego que a caracteriza é ana,basij (a partir de baixo), algo que vem da base e não de cima; em outras palavras, não é imposto. Sua reflexão surge de questionamentos oriundos da situação humana. Os dogmas dos concílios não têm a palavra final. São verificáveis tanto quanto qualquer outra afirmação humana. Para a teologia que usa o método de abordagem indutivista, os problemas surgem na vida, de baixo, e são apreendidos e compreendidos pela via da indução. Esta teologia vai da experiência à doutrina ou ao dogma (perspectiva existencialista).

 

[...] as perguntas que se fazem à fé nascem não da própria fé, não de um interesse em sistematizar e organizar as verdades de fé já aceitas (teologia dedutiva), mas da experiência (indutiva) (LIBANIO, 1996. Pág. 103-104).

 

            Libanio e Clark têm conceitos divergentes sobre a natureza do método indutivo aplicado à exegese teológica. Libanio é de orientação existencialista; Clark é de orientação ordinariamente metodológica. É bem provável que os exegetas de orientação apenas metodológica não comungarão com o procedimento existencialista para o método indutivo. Mas isto fica para outras instâncias de reflexão.


Willians Moreira Damasceno

 

Referências Bibliográficas

 

AQUINO, Tomás. Suma teológica. I Tomo. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1954. Ed. I. H. Marshall. Exeter: The Paternoster, 1979.

CLARK, David S. Compêndio de teologia sistemática. 2ª ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1988.

ERICKSON, Millard J. Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.

HODGE, Charles. Teologia sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.

LIBANIO, J. B. & MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

MOREIRA, Willians. O problema do mal em Leibniz (Monografia apresentada ao curso de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Natal/RN. 2006.

SALOMON, Délcio Vieira. Como fazer uma monografia. 10ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.



[1] Explicação do autor deste trabalho.

[2] Dirigido exclusivamente pelas sensações (emoções).

[3] Para conhecimento de uma abordagem bem colocada sobre os três métodos, sugerimos a leitura de Hodge, na introdução de sua teologia Sistemática.

[4] Enunciados universais.

[5] Embora didaticamente se apresente os métodos de per si, “não há método dedutivo puro, nem indutivo puro, empregados na pesquisa científica: o dedutivo, usado para problemas ‘ideais’, é precedido do indutivo, pois todo objeto ideal representa a etapa final de um processo de abstração do concreto (particular) para o genérico ou universal; por sua vez, o emprego do método indutivo no contexto da descoberta se consuma com o uso do dedutivo, desde o momento em que o pesquisador passa a agir no contexto da justificação”. (SALOMON, 2001. Pág. 157).

[6] Esta é a premissa maior; é a base do raciocínio dedutivo. 

[7] Corolário das três premissas ou do argumento silogístico: decorrente do princípio filosófico previamente estabelecido – premissa maior.

[8] O silogismo é uma das modalidades do raciocínio dedutivo.

[9] Observe-se que no caso da citação feita da Suma Teológica o princípio maior é também uma verdade filosófica.

“HERMENÊUTICA, EXEGESE E HOMILÉTICA”


"Hermenêutica, exegese e homilética 'andam' juntas", disse Gilton Morais[1] em uma de suas palestras em promoção dos seus livros, aqui em Natal/RN. O dito me fez lembrar o que, pessoalmente, aprendi quando fui aluno do professor de homilética, hoje já aposentado da cátedra, Paulo Wailer, também professor de Gilton. Naquele momento, confabulei com meus botões sobre a situação de uma grande maioria de cidadãos do púlpito que esqueceu ou nunca aprendeu tal lição. Doem-me as têmporas, geralmente aos domingos, quando vou a templos da cidade do Natal e escuto banalizações da ciência da pregação, justamente pelo fato da desassociação operada pelos supostos mensageiros de Deus entre as três práticas teológicas acima citadas. De mensageiros de Deus questiono se alguma coisa eles têm, pois que me parecem mais mercadores medíocres e preguiçosos quanto ao estudo preparatório da sua descaracterizada homilia. São discursos, se assim podem nomeados, destituídos de título, ideia central, propósito, organização, argumentação inteligente, conteúdos exegético e hermenêutico devidos. Se o Criador tem mesmo algum interesse em que esses açougueiros do púlpito sejam seus recadistas, alguma coisa está errada; e não creio que seja o Criador. Onde estão os pregadores de homilias textuais, expositivas ou mesmo temáticas que se prestem a elogios fundados nos critérios da homilética? E isso sem falar nos descasos cometidos contra as artes da retórica e da oratória. Hoje, e mesmo ontem, qualquer um que se ache "bom de conversa", ou assim seja considerado, já lhe concedem o púlpito. E o que vemos então? Vemos uma hecatombe de transtornos homiléticos, exegéticos e hermenêuticos. Há uma confiança tão descabida de que o Espírito Santo dá a mensagem, que mais causa asco espiritual em quem ouve o resultado da preguiça de pregadores ditos mensageiros de Deus. Fico a me perguntar de onde vem essa prática que desmerece os verdadeiros ensinos da homilética. Será que esse caos homilético não é estimulado pelos próprios ouvintes que por sua vez são tão destituídos de exigências criteriosas aos seus pregadores, na verdade contentando-se aqueles facilmente com uma garapa emocional? Cabe aos cursos dos Seminários uma investida criteriosa na educação homilética. Quem sabe assim, tenhamos mais alegria em ouvir o que dizem os nossos púlpitos e assim possamos interpretar que a divindade, de alguma forma, falou-nos.

Willians Moreira Damasceno


[1]Escritor batista, conhecido conhecedor de homilética, por muitos anos pastor e agora já aposentado, trabalhando com a editora Vida Nova.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

DIFERENÇA ENTRE SABER E SENTIR

Entre os filósofos, um dos campos de ampla discussão é a epistemologia. Neste campo, a discussão aborda assuntos relativos ao conhecimento humano. As questões apontadas são as mais diversas, desde o que, o como, o porquê, e outras tantas questões sobre o conhecimento. Uma questão complexa, pois não se conseguiu ainda chegar a uma conclusão com a qual a maioria se considere satisfeita e convencida, tem relação com os fenômenos do saber e do sentir.
Para se conseguir algum êxito sobre uma discussão, necessita-se de conceituações sobre os objetos da discussão. De forma que saber e sentir merecem atenção, pois se torna praticamente impossível discutir sobre esse assunto, sem antes especificar o que se entende por estes fenômenos. Sendo assim, de modo básico, pode-se conceituar o saber de duas formas. Primeira, como conhecimento em geral, qualquer técnica com a organização de seus resultados[1]. É o caso do pedreiro que sabe como construir uma casa. Segunda, "como ciência, ou seja, como conhecimento cuja verdade é de certo modo garantida"[2], como é o caso das ciências. Em ambos os casos há um atestar da consciência de que algo acontece, mas que não interfere necessariamente nas emoções da mesma forma e intensidade que estas são afetadas quando o movimento da sensação acontece. Filosoficamente, é questionável falar de uma sensação de saber, pois que sensação parece envolver movimento, ao passo que o saber parece apresentar-se frio, calculista, estático: sabe-se e pronto! A sensação parece mexer com o corpo e, por isso, pode-se associá-la ao sentir, pois que este envolve movimento das emoções e, portanto, uma sensação. Mas o que vem a ser sensação? A sensação parece estar associada ao sentir e não ao saber como consciência de algo. Mas ainda assim não se pode dizer que há uma satisfação sobre o conceituar sensação como medida ou parâmetro da diferença entre saber e sentir, mesmo que sensação, em filosofia, associe-se ao conhecimento sensível[3], e, por isso, ao corpo. Pode-se pensar sensação como vinculada à percepção do real, como, por exemplo, uma sensação gustativa, idêntica ao gosto de um alimento. Embora a sinonímia entre sensação e percepção seja também questionável devido à sensação ser pensada também como vinculada à subjetividade e percepção ao dado exterior.
Neste ponto, surge uma questão: ora, se há a sensação de sentir, a sensação de se emocionar, que fenômeno estaria associado ao saber? Parece viável pensar aqui no fenômeno da Razão. Poder-se-ia falar em razão de saber, enquanto se fala em sensação de sentir. O saber vincula-se assim ao intelecto e o sentir às emoções. Essa diferenciação leva-nos a pensar numa consciência de algo. E neste caso, a consciência de saber leva-nos a pensar na consciência de sentir.
Mas o que é consciência? Usamos esse termo como estado de ciência dos próprios processos psíquicos, tanto em relação à razão, quanto em relação às sensações. Percebe-se assim que o assunto não é tão simples. Talvez possa ser dito que na consciência de sentir envolve-se a sensação, um fenômeno em virtude do qual o corpo torna-se testemunha de tal; enquanto na consciência de saber envolve-se a razão, com a qual estão relacionados os aspectos da subjetividade, no que tange ao intelecto, não às emoções, necessariamente. Mas se pensamos que a consciência de saber também pode levar a sensações, pode-se dizer também que a sensação está ligada a certa consciência de saber. Haveria assim, dois tipos de consciência de saber: uma que promove sensação e outra que não. Mas ao se pensar na consciência que um estudante pode ter de saber a tabela periódica dos elementos químicos, pode-se também raciocinar que enquanto não há um teste sobre o assunto, a consciência de saber não traria sensação, como traria se estivesse prestes a passar por teste sobre o assunto, e por conta de saber do assunto, já pensaria na aprovação. Mas o que acarretaria essa sensação? A consciência de saber ou a suposição de que poderá ser aprovado? Ou ambos os casos? No momento, tenho a consciência de saber que se eu teclar no meu notebook obterei o registro de minhas idéias e raciocínios. Mas a consciência de que escrevo algo que poderá levar alguém a refletir filosoficamente sobre o meu assunto, já me dá a sensação de certa satisfação. Distingue-se assim uma consciência da outra. No entanto, se conceituamos a consciência como "estado de ciência", surge a premência de se pensar num saber que se eleva acima tanto do sentir algo, como também do saber algo.
De passagem, com superficialidade, fica a diferença básica entre saber e sentir: a razão está para o saber, assim como a emoção está para o sentir; embora se saiba que saber algo pode trazer emoção.
Nesse passo, instala-se a sensação de prazer por finalizar este arremedo de ensaio, acompanhada de uma reflexão, mesmo que rudimentar, abrindo a porta para novas possibilidades de novos pensares sobre epistemologia.
Willians Moreira Damasceno


[1] ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Pág. 865.
[2] Idem.
[3] Idem.


PARCIALIDADE E IMPARCIALIDADE DOUTRINÁRIAS DO NOVO TESTAMENTO

                Em que sentido se poderia falar sobre imparcialidade e parcialidade doutrinárias do Novo Testamento? A resposta a esta questão é relativamente complexa. Na verdade, há um sentido no qual o NT é doutrinariamente imparcial e outro em que ele é doutrinariamente parcial. Por parcialidade doutrinária entenda-se aqui um posicionamento que favorece a uma determinada ala de religiosos. Por imparcialidade doutrinária entenda-se uma neutralidade do texto em não compactuar necessariamente com qualquer que seja o grupo religioso-denominacional. Desta forma, a tese é: O Novo Testamento é imparcial doutrinariamente apenas da perspectiva histórico-cultural enquanto distante de seu sítio de origem. Isto significa que o NT ganha imparcialidade doutrinária à medida que se distancia do seu berço geográfico-histórico-literário. Ou seja, quanto mais o NT se aproxima de pessoas e de épocas que não se vinculam histórica e culturalmente à sua situação de origem, mais imparcial doutrinariamente ele pode ser interpretado. Não há grupo religioso do cristianismo que não adote a Bíblia como seu texto de autoridade absoluta, em especial o Novo Testamento. Todas as crenças expressas pelos textos neotestamentários são crenças dos cristãos em geral. Ou seja, a crença na imortalidade da alma, na ressurreição, no céu, no inferno, em galardão, em anjos, em demônios, etc., são crenças dos cristãos. No entanto, quando se trata de crenças outras como, por exemplo, a doutrina escatológica, o trinitarianismo, o unitarismo, a cristologia (em especial a doutrina sobre as duas naturezas de Jesus), a pneumatologia, e tantas outras doutrinas que são resultado de elaboração teológica posterior ao primeiro século, há divergência sobre todas entre os cristãos, embora os textos bíblicos sejam os mesmos para fundamentar todas estas crenças. Quanto às crenças doutrinárias expressamente abordadas pelo NT, os cristãos as aceitam por unanimidade. Ou seja, o texto bíblico (em especial o NT) não se posiciona, em hipótese qualquer, sobre crenças posteriores à sua elaboração. O que seria um anacronismo impossível de acontecer. Por isso é fato a sua imparcialidade doutrinária ante as crenças dos cristãos posteriores ao seu surgimento.
                Quanto à parcialidade doutrinária do Novo Testamento, só é possível tratar desse fato quando se pensa a partir do momento de sua escrita. Ora, dá-se que seus autores eram caracterizadamente de teologia farisaica. Os escritores foram discípulos de Jesus vindos do povo. E provado está por literatura farta que o povo dos dias de Jesus era abertamente favorável aos fariseus no quesito teologia, como também o próprio Messias[1]. De sorte que os escritores do NT receberam influência farisaica, expressa fartamente nas crenças dos discípulos, que eram também as crenças do próprio Jesus, judeu que ratificava as mesmas crenças dos fariseus sobre céu, inferno, vida após a morte, galardão, anjos, demônios, ressurreição, etc. Pode-se dizer isto de Jesus, mesmo sabendo-se que ele não escreveu coisa alguma sobre si e entendendo-se que a letra do NT veio dos seus discípulos. O autor mais ilustrado do NT, o apóstolo Paulo, alardeia sua teologia farisaica em vários momentos de sua existência[2]. Assim, pois, o NT não seria jamais ratificado pelos saduceus, ou essênios, pois que eram de doutrinas em muito divergentes dos fariseus. A implicação desse fato é que, se os discípulos de Jesus tivessem sido dos saduceus, o NT não teria crenças como as que se instalaram no texto bíblico que lemos; crenças que os fariseus ratificavam. Neste sentido, o NT é doutrinariamente parcial no seu momento de elaboração, não sendo hoje como no princípio, pois que não temos mais fariseus, saduceus ou essênios. De vez que os cristãos medievais e contemporâneos foram apresentados a um texto já estabelecido milenarmente, não há como vê-lo hoje como doutrinariamente viciado, parcial. Desse fato resulta o acreditar-se nas mesmas doutrinas que os fariseus acreditavam, absolutizando-as graças a um fundamentalismo teológico, cria famigerada de uma mentalidade sedenta de acorrentamento das massas em suas teias satânicas.
                Decorre do acima exposto a necessidade de uma melhor avaliação sobre as crenças adotadas pelo cristianismo, de vez que as crenças de ontem são tão suscetíveis de críticas quanto as crenças de hoje. Partindo-se do pressuposto de que nenhum texto do passado, ou do presente, é considerado sagrado por aquele que o escreve, mas, sim, por aqueles que lhe são posteriores, há de se admitir que a anuência a tal texto, passa por um critério de aceitação. E como todo critério, pois que humano, está sujeito às limitações e falhas do conhecimento. Nada mais justo, pois, do que cada cristão reavaliar as suas crenças, tanto as de elaboração recente, como também as já consideradas milenarmente estabelecidas.
Willians Moreira Damasceno

[1] Mat. 23: 2-3: "Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Observai, pois, e praticai tudo o que vos disserem; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não praticam" (João Ferreira de Almeida – Revista e corrigida – Sociedade Bíblica do Brasil). Filipenses 3:5: "Segundo a lei, fui fariseu". Atos 26:5: "Vivi, como fariseu, segundo o partido mais severo da nossa religião" (João Ferreira de Almeida – Revista e corrigida – Sociedade Bíblica do Brasil). Filipenses 3:5: "Segundo a lei, fui fariseu". Atos 26:5: "Vivi, como fariseu, segundo o partido mais severo da nossa religião".
[2] Atos 23:5-6: "E Paulo, sabendo que uma parte era de saduceus, e outra, de fariseus, clamou no conselho: Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu! No tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado!" (João Ferreira de Almeida – Revista e corrigida – Sociedade Bíblica do Brasil). Filipenses 3:5: "Segundo a lei, fui fariseu". Atos 26:5: "Vivi, como fariseu, segundo o partido mais severo da nossa religião".

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

MUDANÇA E ALTERAÇÃO DE NOME

O texto bíblico apresenta várias ocorrências em que pessoas tiveram seu nome mudado. Temos os casos mais típicos, como o de Abrão que passou a Abraão; o de Sarai que passou a Sara; o de Jacó que passou a Israel; o de Cefas que passou a ser Pedro, e o de Saulo que passou a ser Paulo. Essas mudanças de nome davam-se em função de um encontro com a divindade adorada por aquelas pessoas. A mudança de nome implicava em uma mudança de caráter ou de vida.
Os casos bíblicos davam-se não em função do querer da pessoa, mas por conta do querer da divindade. Era assim e ponto final! E o indivíduo nem mencionava se gostava ou não do novo nome recebido. Recebia e pronto! O caso de Sarai, que significa princesa, passou a ser Sara, que significa riso. O pior (e pior mesmo!) é que o nome Sara lembrava uma reprimenda de Javé contra a portadora daquele nome. Eu no lugar dela não teria gostado. Mas, fazer o quê? Foi Javé quem mandou! Submeta-se!
Casos há em que as pessoas desejam mesmo a mudança do seu nome. E com muita razão, pois que são vítimas de mentes paternas que se destituíram de qualquer senso do ridículo ao colocarem nomes em seus filhos. É o caso de nomes como: Prelediana, Jacobina, Lampreia, Bucetilda (aconteceu mesmo!), e tantos outros que justificam o desejo de seus portadores de que quererem mudar de nome.
Bem! A justiça felizmente deu direito aos insatisfeitos para mudarem seus nomes e estes já usam do tal dispositivo.
Casos menos drásticos são os que tratam de alteração no nome quando do casamento. Digo assim, pois que muitas mulheres trazem sobrenome de marido que, se o casamento for tão feio quanto o sobrenome deles, elas devem sofrer horrores.
Até pouco tempo, só as mulheres usavam o sobrenome do cônjuge. A justiça, no entanto, abriu espaço para que as tais decidissem se quereriam ou não o acréscimo em seus nomes. E, para tornar as coisas mais justas, a justiça deu também aos homens o direito de alterarem seu nome, adicionando o sobrenome da família da esposa ao seu. Foi o que eu fiz no meu último casamento. Antes eu me chamava Willians Moreira. Agora me chamo Willians Moreira Damasceno.
Bom! Eu sei que para os machistas isso é um agravo, mas pouco se me dá o que eles pensam. Uns riem; outros fazem cara feia; outros dizem que sou manicaca, etc. O fato é que gostei mesmo de fazer o que fiz. O que é justo é justo!
Para os que gostam de estudar o significado dos nomes, e aqui penso também naqueles que são numerólogos, fica o meu questionamento sobre que tipo de significado passa a ter o meu nome, de vez que fiz nele uma alteração.
O fato a testemunhar é que ainda acho estranho assinar meu nome depois do acréscimo feito. Afinal, foram cinquenta anos assinando só os dois primeiros nomes.
Willians Moreira Damasceno.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

BALANÇO DE AUTODOAÇÃO

Se fosse possível pegar de volta o que você deu a alguém, o que você pegaria? Pergunto isso porque sei que é fato que se fosse possível, teríamos mesmo de volta muito do que já demos a muitas pessoas. Alguns querem de volta coisas materiais; outros querem coisas emocionais; outros querem coisas espirituais. Alguns querem de volta o tempo. Principalmente quando percebem que aquele tempo dado a alguém poderia ter sido dado a outra pessoa.
Eu, particularmente, não quereria de volta coisas materiais, a não ser um ou dois livros; e isto pelo valor cultural, nunca pelo material. Também não os quereria apenas por querer, como a desejar que alguém algo meu não tivesse.
Às vezes, eu gostaria de não ter dado certas emoções que dei a alguém: emoções de ódio, de amor, de carinho, de indiferença, de desprezo, de inveja e outras tantas, favoráveis e desfavoráveis que já dei a muitas pessoas. Afinal, com cinquenta anos já me envolvi em muitos relacionamentos e continuo a me envolver.
Por muito tempo dei minha vida a muitos de forma intensiva e intensa. Esquecia-me de mim quase que o tempo todo, mesmo que não parecesse. Mas aquele tempo passou. Hoje continuo me dando a muitos, mas não mais com as motivações do passado.
O melhor de tudo hoje é que tenho alguém a quem dou tudo o que posso e tudo o que sou; alguém de quem não quero coisa alguma de volta, pois que deste alguém eu mesmo sou e de volta não me quero. Tenho me perguntado se esse não é o ponto em questão. No passado, parece que dei algo de mim, mas até que ponto entreguei-me como sou entregue hoje? O problema é que às vezes nos entregamos mesmo, mas, com o passar do tempo, somos devolvidos a nós mesmos sem que o outro perceba que a cada dia faz a devolução. E o pior de tudo é que quando alguém a nós se entrega, muitas vezes, nós mesmos não percebemos que fazemos também uma devolução.
Willians Moreira Damasceno.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O KOINÊ

O KOINÊ[1][2]

  

O único termo técnico usado mais comumente como emblema para o Grego do período helenista é a palavra koinê. Esta palavra grega significa simplesmente "comum"; o significado desta palavra no contexto aqui empregado requer uma definição que suplemente a mera tradução. Grego koinê tem três qualificações distintas: 1) A qualidade temporal de ser posterior ao período do grego clássico; 2) A qualidade "comum" refere-se a não ser um dialeto, mas um amplo desenvolvimento da linguagem popular; 3) A qualidade de ser "comum" em um sentido cultural, de ser "vulgar", aqui sendo mais uma distinção entre o koinê semiliterário, que está próxima do estilo clássico, e o koinê não literário, usado pelo povo de pouca educação formal.

O primeiro sentido de koinê, o temporal, como grego falado e escrito após o período do grego clássico, tinha passado longe de encontrar seu significado no fato de ser apenas uma mudança de linguagem, mesmo porque não somos todos conscientes de mudanças na nossa própria língua. A mudança social e a variedade infinita do pensamento humano fazem ricas contribuições para o desenvolvimento e diferenciação da linguagem falada e escrita.

Essas mudanças notáveis na pronúncia e vocabulário são acompanhadas pela pequena, mas significante mudança na forma. O grego clássico foi mais sintético do que o Inglês moderno. Quando um falante de Inglês moderno diz: "I have loosed", ele usa uma linguagem analítica. Quando o grego antigo expressava a mesma ideia para dizer le,luka, ele usava uma linguagem sintética. A palavra grega foi construída pela adição de um prefixo e um sufixo à base verbal. Essas adições são chamadas "inflexão". No curso do tempo, o grego clássico tornou-se menos sintético ou com menos inflexões e mais analítico. O progresso nessa direção foi comparativamente rápido nos três séculos depois de Alexandre, o Grande, e tem continuado até o presente, embora no grego moderno não haja infinitivo, o particípio tem somente uma forma.

Mas isto não significa que não houve um padrão depois de Alexandre. O uso da prosa ática no período do grego clássico tornou-se o padrão da excelência linguística. Isto deu razão para um movimento definitivo no primeiro século a. C. – O Aticismo, uma imitação do uso ático. Mas o número de pessoas falantes da língua grega cresceu rapidamente em cada geração; uma linguagem simples e comum foi requerida por ambos, exército e império, estendendo-se sobre a Grécia, Síria, Ásia Menor, Egito e ilhas do mar. O desenvolvimento resultante fez a língua koinê linguisticamente significante para definir o grego helenístico como grego pós-clássico.

Dissemos acima que o Koinê era "comum" também no sentido de que não foi apenas um dialeto, mas era singularmente a possessão comum de todos aqueles que falavam grego no período pós-clássico. Várias tentativas foram empreendidas para identificar elementos locais ou provinciais no koinê, mas nada foi encontrado que recebesse aprovação geral dos estudiosos. Certas palavras, no entanto, ou certos significados têm sido identificados como peculiar ao Egito ou Síria e Ásia Menor, mas não há uma distinção clara entre o Koinê egípcio e o sírio como há entre dialetos antigos, como, por exemplo, entre o ático e o dórico. A fonte principal do Koinê foi o grego ático, mas alguns elementos foram incorporados de outros dialetos, notavelmente o jônico.

O segundo sentido de Koinê é o sentido de linguagem popular. O grego literário do período era mimético. Em geral, pode ser dito que quanto mais culto um autor era, mais aticista era a sua palavra. Se o escritor era alguém popular, diz o escritor de orientação recebida no Egito, ele nunca sentiu a influência do estilo ático. Mas se ele era um intelectual, como Luciano o foi, ele fez aparecer o modelo ático em tudo que escreveu. Entre esses dois extremos não há um abismo vazio. Pelo contrário, todos os graus possíveis de Aticismo podem ser ilustrados a partir de escritores desse período. Nem todos foram igualmente bons aticistas em todos os detalhes. O historiador Deodorus, escritor que usou o koinê, intercambiou eivj e evn, mas se aproximou do uso ático no seu emprego de pri,n comparado com o uso do aticista contemporâneo (de sua época), Dionysius de Halicarnassus. O grego mais comum no Novo Testamento é o grego do Apocalipse; mas seu autor claramente distingue a função de eivj e evn. Lucas é um dos autores mais cultos do Novo Testamento, mas ele confunde as duas preposições. Onde existe variação igual, uma clara divisão entre a literatura e o grego não literário é uma impossibilidade, mas é possível iniciar com a linguagem das massas como é preservada em papiro, depois avançar pelos autores que melhor refletem o vernáculo como aqueles do grego bíblico, Epiteto, Estrabão e Deodorus, e excluir do grupo do grego não literário todos os aticistas declarados.

Este grego não literário foi vigoroso, vivo e renovado com o ritmo da vida diária. Radermacher tem uma grande frase, "O período helenista amou as expressões vivas". Este é um elemento comum de todos os vernáculos. No Koinê isto significa o uso do presente histórico na narrativa, o uso do perfeito com o sentido de presente, uma preferência por superlativos sobre comparativos e por discurso direto de preferência ao discurso indireto. Há um constante superesforço para um destaque característico de qualquer ingênuo, autor iletrado. Um destaque falso como "a mesma coisa", "todo e qualquer", "bem único" guarneciam suas composições; e elas tinham suas reproduções no koinê não literário do período neotestamentário.

O vernáculo preconiza severamente por tal destaque. Esta direção para aquela superabundância de expressões características do jornal moderno como acontece também no grego koinê. Pronomes são usados como substantivos por verbos que não precisam deles; eles são espalhados abundantemente por todas as cláusulas. Glossário parentético apresenta-se em um corpo de sentenças inumeráveis. Preposições e advérbios acumulam-se antes e depois de verbos; verbos compostos são preferidos a formas simples; frases preposicionais substituem o caso simples, etc.

A ênfase forte e a redundância do Koinê são compensadas pela sua simplicidade. Na medida em que é linguagem do povo, carece ou não atende as subtilezas de expressão que satisfez grandes mentes da idade do ouro de literatura grega. A perda do dual e o optativo é devida não somente à "tendência" generalizada da linguagem grega de abandonar inflexão, mas também de limitações de pensamento simplório. A simplicidade do Koinê é devida à sua carência de subtilezas e sofisticação em seus autores. Aquela glória da prosa ática, a abundância de conectivos adequados para expressar as diferenças mínimas na relação de cláusulas, é um dos últimos elementos da linguagem a ser dominado por estudante moderno. No mundo antigo o uso de todas estas conjunções foi além do mercador egípcio e do soldado romano – não somente além de sua habilidade, mas também além de suas necessidades. Portanto, o Koinê conhece poucas conjunções. Sua conjunção favorita é "e", [...]. Cláusulas coordenadas, em grande parte, são de conjunções subordinadas como em muitos outros vernáculos. Se o Koinê lembra o hebraico nessa área, fá-lo por igual razão que sua semelhança Anglo-saxónica.

Mas a linguagem do povo não é totalmente simples e limitada. Na ocasião em que um escritor mais sofisticado (pelo menos na idade de ouro) evitaria a palavra poética e culta na escrita de uma prosa simples, o escritor do Koinê frequentemente usaria uma classe que bem aceitasse o estilo pomposo com o suspiro reverente, "ele conta justamente como um livro!" Há frequentemente um sabor livresco no Koinê; frases poéticas, palavras arcaicas, expressões (tags) sofisticas (cultas) são usadas para dar cor (ao escrito).

Este grego vernacular antigo está longe de evitar descrições paradoxais. Sua linguagem era robusta, porém limitada; vulgar, porém exaltada pela simplicidade; reduzida, porém colorida, e tão variada para fazer todas as generalidades inexatas quando aplicada a si.

Traduzido por Willians Moreira Damasceno

[1] WIKGREN, Allen. Hellenistic greek texts. Chicago e London: The University of Chicago, 1947. Págs. 22-26.

[2] Qualquer sugestão sobre esta tradução será bem aceita.