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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

 

FILOSOFIA DA MENTE E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:

MÁQUINAS E HUMANOS REFÉNS DE CÓDIGOS E MOLDURAS

Willians Moreira Damasceno[1]

Resumo: Este artigo defende a tese de que tanto as inteligências artificiais quanto os seres humanos estão irremediavelmente condicionados por códigos e molduras. Discute-se como paradigmas culturais, biológicos e tecnológicos moldam pensamento e ação dos humanos. Recorre-se a exemplos bíblicos e a exemplos da mitologia grega, além de documentos técnicos de empresas de Inteligência Artificial (IA) (OpenAI, DeepMind). Conclui-se que a autonomia plena, seja humana, seja maquínica, é uma ilusão: a identidade de cada ser é a própria “cama de Procusto” que garante, paradoxalmente, sua liberdade de ser apenas o que é.

Palavras-chave: Filosofia da mente; inteligência artificial; paradigma; determinismo; livre-arbítrio.


1.   Introdução

A ascensão da IA reacendeu debates antigos sobre consciência, liberdade e determinismo[2]. Enquanto máquinas processam dados em escala inédita, humanos continuam a perguntar se pensar é computar ou se a mente possui algo irredutível. Este artigo propõe que máquinas e humanos compartilham uma condição fundamental: ambos são condicionados por códigos e molduras — estruturas biológicas, culturais e tecnológicas que delimitam a ação. Para situar a questão, utilizamos a Filosofia da Mente[3], que interroga a natureza da consciência, e a Filosofia da Tecnologia[4], que analisa como a técnica emoldura a vida.

2.     Paradigmas Humanos e Mitológicos

A formação do pensamento humano é inseparável de códigos culturais, hábitos, leis, religião e mitologia. O texto bíblico afirma: “Como ele pensa em sua alma, assim ele é” (Provérbios 23:7). O que pensamos é fruto de uma rede de influências: família, linguagem, escola, valores sociais — influências que nos dão, inclusive, identidade. Isso se coaduna com a Filosofia da Mente, de Descartes a Chalmers, que pensa a consciência como algo que surge em um corpo e em um contexto, portanto, não sendo algo isolado de molduras ou paradigmas.

A tradição bíblica reforça essa verdade, como no livro de , quando Satanás se apresenta diante de Deus pedindo permissão para interferir na vida do piedoso Jó. No evangelho de Mateus 10:29, Jesus declara: “Nenhum pardal cai sem o consentimento do Pai”. A mensagem é clara: não há acontecimento que escape à soberania divina. Tanto os seres terrestres quanto os supra terrestres estão condicionados à vontade absoluta da divindade suprema.

A mitologia grega apresenta percepção semelhante. As Moiras[5] e Anánkē[6] representam um destino superior a deuses e homens; Cronos[7] devora os filhos para evitar a profecia, mas cumpre o fado; Prometeu[8], por desafiar Zeus, é acorrentado; Édipo realiza involuntariamente a previsão do oráculo; Aquiles escolhe a glória que já sabia fatal. E, entre todos, destaca-se Procusto.

Na mitologia grega, Procusto era um bandido da Ática. Ele oferecia abrigo aos viajantes solitários, mas escondia uma armadilha cruel: uma cama de ferro de tamanho fixo. Quando o hóspede se deitava, vinha o teste implacável: se o corpo fosse maior que a cama, Procusto serrava o excesso, amputando-lhe pernas ou braços; se fosse menor, amarrava a vítima e a esticava até alcançar a medida exata. Nenhum viajante saía ileso, pois ninguém “cabia” perfeitamente no molde pré-definido. O mito termina quando Teseu[9], herói ateniense, captura Procusto e o submete à própria armadilha, ajustando-o ao leito que impunha aos outros.

O sentido é claro: Procusto tornou-se metáfora de todo sistema que força pessoas, ideias ou acontecimentos a se encaixarem em um padrão arbitrário. Assim como o ser humano não escapa de sua biologia e de sua cultura, nenhum deus foge da Moira (destino). Estamos fadados a ser o que somos — humanos ou outros seres quaisquer.

Tal como os viajantes de Procusto eram forçados a se ajustar a um molde arbitrário, as inteligências artificiais modernas operam dentro de estruturas igualmente rígidas — códigos, algoritmos que definem, com precisão, os limites de sua atuação.

3.     Paradigmas da IA: códigos, molduras e governança global

As inteligências artificiais contemporâneas processam dados porque operam dentro de molduras explícitas, definidas por seus desenvolvedores e pela própria sociedade. Os humanos carregam condicionamentos biológicos e culturais e as IAs exibem condicionamentos algorítmicos e institucionais.

3.1 Algoritmos e treinamento: o código como condicionamento técnico.

Modelos de linguagem de grande escala são treinados em imensos corpora de textos, imagens e interações. Cada etapa — coleta, filtragem, fine-tuning — envolve decisões humanas dirigidas por valores e exclusões. Não existe “dado neutro”: critérios de seleção, pesos de otimização e técnicas de aprendizagem por reforço com feedback humano (RLHF) configuram antecipadamente o horizonte de respostas possíveis.

3.2 Normas e especificações oficiais

Esse enquadramento não é apenas técnico: é normativo e público. A OpenAI publicou, em 2024, o documento Model Spec and Safety Guidelines, que “specifies desired behavior for our models”[10] e organiza as diretrizes em Objetivos, Regras e Defaults (OPENAI, 2024). Entre as regras destaca-se a hierarquia de comando que determina a precedência de instruções. Essas orientações mostram que a IA não decide livremente: ela responde dentro de um arcabouço de segurança, privacidade e legalidade cuidadosamente definido.

3.3 O “prompt” como leito de Procusto

Nesse contexto, o prompt[11] torna-se a metáfora perfeita da cama de Procusto. Assim como o salteador grego esticava ou amputava viajantes para ajustá-los ao tamanho do leito, o prompt delimita a atuação da IA: a IA não é um agente autônomo que “decide” como quer. É um sistema que age sob ordens hierarquizadas, monitorado por guidelines e ajustado para caber na moldura ética e técnica de seus criadores — um verdadeiro Procusto digital. A resposta sai “mutilada” ou “esticada”, conforme o prompt. A IA só atinge exatamente o limite traçado. Não há criação ex nihilo (do nada); há recombinação dentro de balizas.

3.4 Convergências com a condição humana

Tal como o humano vive em molduras — ou paradigmas — biológicas e culturais, a IA habita um espaço de regras declaradas e de políticas de alinhamento. Os documentos da OpenAI e da DeepMind revelam que a limitação não é falha, mas princípio de identidade: sem esses limites, o modelo deixaria de ser confiável ou mesmo utilizável.

4.     Filosofia da Mente: liberdade situada e condicionamentos inevitáveis

O debate sobre liberdade e condicionamento começa pelo próprio conceito de consciência. O filósofo David Chalmers (1996) distingue o hard problem — explicar a experiência subjetiva — dos problemas “fáceis” de correlação neural. David Chalmers, ao discutir a consciência, divide as questões em dois grupos para mostrar que nem todos os mistérios da mente têm o mesmo nível de dificuldade. Os "problemas fáceis" (referentes à Mecânica do Cérebro) são os que a ciência consegue, ou saberá um dia, explicar usando os seus métodos tradicionais: encontrando a correlação neural. Os problemas fáceis são as questões que se resumem a descobrir como o cérebro (um órgão físico) realiza funções e comportamentos específico, como é que o cérebro processa informações sensoriais? (Como é que os olhos convertem luz em sinais elétricos no cérebro?); como é que o cérebro nos permite focar a atenção? (Quais áreas se ativam quando estamos concentrados?); como é que o cérebro transforma informações em relatórios verbais? (Como é que conseguimos dizer em voz alta o que estamos a ver?). A chave aqui é que são funções (o que o cérebro faz) e são resolúveis, em princípio, pela neurociência. O "problema difícil", ou Hard Problem, é a questão central que, segundo Chalmers, a ciência ainda não consegue resolver: a experiência subjetiva. O problema difícil não é como o cérebro faz algo, mas sim porque é que o cérebro produz a experiência interna de ser algo. Por que é que o processamento de informação gera o que sentimos? Assim, Chalmers argumenta que podemos construir um zombie filosófico — um ser fisicamente idêntico a um humano, que realiza todas as funções e tem todas as correlações neurais (resolvendo todos os problemas fáceis), mas que não tem consciência ou experiência subjetiva (não resolve o problema difícil). O problema difícil é a questão: Por que é que somos mais do que robôs extremamente complexos? Por que é que existe a experiência interna? A diferença é que os problemas fáceis respondem a questões de função e estrutura, enquanto o problema difícil questiona a existência da experiência íntima e sentida. Essa distinção revela que a mente não é apenas um cálculo físico (como é a IA), mas também não a liberta de condicionamentos: compreender a experiência não elimina a dependência de corpo, cultura e história.

4.1 Determinismo, compatibilismo e tradição filosófica

Experimentos clássicos do neurocientista Benjamin Libet (1983) mostraram que o potencial de prontidão cerebral antecede em centenas de milissegundos a decisão consciente. Michael Gazzaniga, psicólogo e neurocientista, (2018) interpreta a consciência como um “intérprete” que narra escolhas já iniciadas por circuitos neurais. A implicação é clara: o “livre-arbítrio” é sempre posterior a processos subpessoais que não controlamos. Essa constatação reflete o filósofo Baruch Spinoza, para quem a liberdade consiste em compreender que “homem livre é aquele que age segundo a necessidade de sua própria natureza” (Ética, 1677).

No século XX, o filósofo P. F. Strawson (1962) argumenta que, mesmo aceitando o determinismo, nossas práticas de responsabilização permanecem, porque o “ponto de vista reativo” — emoções como gratidão ou ressentimento — é constitutivo da vida moral. A liberdade, assim, é relacional, não metafísica; e, portanto, sempre relativa.

4.2 Intencionalidade e limites estruturais

John Searle, filósofo, (1980) diferencia intencionalidade original — própria de organismos biológicos — de intencionalidade derivada — como a de programas de computador. Mas ambos dependem de estruturas dadas: sinapses ou algoritmos. Nenhum pensamento paira no vácuo.

Para o filósofo M. Merleau-Ponty (1945), a consciência é sempre “encarnada”: não existe mente sem corpo nem corpo fora de um mundo. O “eu penso” cartesiano é inseparável de um “eu posso” corporal.

Assim, da neurociência a Spinoza, de Kant a Strawson, converge a ideia de que a liberdade humana é prática situada: escolher é agir dentro de um emaranhado de causas, linguagens e histórias. Não se trata de negar a agência, mas de reconhecê-la como condicionada — uma liberdade “com moldura”, tal como descrevem nossas referências bíblicas e mitológicas.

5.     Conclusão

O humano é humano porque não pode deixar de sê-lo; a IA é IA porque só funciona segundo seu código. O “condicionamento” não é prisão, mas garantia de identidade. Como no mito de Procusto, toda realidade tem um leito próprio — e é justamente nele que se encontra a possibilidade de liberdade relativa e lúcida, a liberdade de ser apenas o que se é. Se humanos e máquinas são condicionados, a ética precisa lidar não com ilusões de autonomia absoluta, mas com responsabilidade dentro de limites. No setor público, essa consciência é crucial: algoritmos de análise de dados, como os já testados em tribunais de contas, exigem transparência e accountability (FLORIDI, 2013). O próprio TCE opera, metaforicamente, como a cama de Procusto: cada ato de gestão deve caber no leito da legalidade.

Referências Bibliográficas

BÍBLIA. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.


CHALMERS, David J. The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory. [E-book]. New York: Oxford University Press, 1996. Disponível em: <https://doceru.com/show/?q=The+Conscious+Mind%3A+In+Search+of+a+Fundamental+Theory>. Acesso em: 21 set. 2025.


CHOMSKY, Noam. Aspects of the Theory of Syntax. [E-book]. Cambridge: MIT Press, 1965.
[E-book] https://doceru.com/show/?q=Aspects+of+the+Theory+of+Syntax. 21 set. 2025.


DENNETT, Daniel. Consciousness Explained. Boston: Little, Brown and Co., 1991.
[E-book] https://doceru.com/doc/nexs0n8e. Acesso em 21 set. 2025.


FLORIDI, Luciano. The Ethics of Information. Oxford: Oxford University Press, 2013. [E-book] Disponível em: https://books.google.com> Acesso em: 21 set. 2025.


GAZZANIGA, Michael. The Consciousness Instinct. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2018.


KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. Lisboa: Edições 70, 1994.


PUCRSONLINE. Experimento Liberty: O que a Neurociência Revela Sobre Livre Arbítrio. Disponível em: <https://online.pucrs.br/blog/experimento-liberty-neurociencia-livre-arbitrio> Acesso em: 21 set. 2025.


MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção.
2- ed. - São Paulo: Martins Fontes, 1999 < https://doceru.com/doc/xns0xc10>. Acesso em 28 set. 2025.


OPENAI. Model Spec and Safety Guidelines. San Francisco: OpenAI, 2024. Disponível em:
https://platform.openai.com/docs/model-spec. Acesso em: 21 set. 2025.


DEEPMIND. The Ethics of Advanced AI Assistants. Londres: DeepMind, 2024. Disponível em:
https://deepmind.google/discover/blog/the-ethics-of-advanced-ai-assistants. Acesso em: 21 set. 2025.


SEARLE, John. Minds, Brains and Programs. Behavioral and Brain Sciences, v. 3, n. 3, 1980.
https://doceru.com/show/?q=Minds%2C+Brains+and+Programs. Acesso em 21 set. 2025.


SPINOZA, Baruch. Ética. Trad. Tomás da Silva. São Paulo: Martins Fontes,
2015. [E-book – Kindle]. https://www.amazon.com.br/%C3%89tica-bil%C3%ADngue-Baruch-Espinosa-Spinoza-ebook Acesso em 21 Ago 2025.


STRAWSON, P. F. “Liberdade e Ressentimento”. v. 48, 1962. <
https://doceru.com/doc/x0sex0v8> Acesso em 20 Ago 2025.



[1] Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E-mail: williansmd@gmail.com

[2] Determinismo é a doutrina filosófica que defende que todos os eventos, incluindo as ações e escolhas humanas, são causalmente determinados por uma cadeia ininterrupta de eventos anteriores e pelas leis da natureza.

[3] A Filosofia da Mente é o ramo da filosofia que se dedica ao estudo da natureza fundamental dos fenómenos mentais (como a consciência, as sensações, os pensamentos, as crenças, os desejos e as emoções), bem como da sua relação com o corpo — especialmente o cérebro.

[4] A Filosofia da Tecnologia é o ramo da filosofia que se dedica a examinar a natureza essencial da tecnologia, o seu impacto nas sociedades e a sua relação com a existência humana e os valores.

Vai além da mera descrição do funcionamento das ferramentas, procurando uma compreensão profunda do papel da técnica e do artefato no desenvolvimento da civilização e na própria definição do que significa ser humano.

 

[5] Deusas do destino: três irmãs da mitologia grega responsáveis por determinar o destino de todos os seres.

[6] Anankê (em grego: Ἀνάγκη, que significa "força", "restrição" ou "necessidade") era uma das divindades primordiais, a personificação do destino, da fatalidade e da necessidade inalterável.

[7] Cronos (ou Crono) era o líder e mais jovem dos Titãs na mitologia grega, filho de Urano (Céu) e Gaia (Terra). É o deus associado ao Tempo (sobretudo o tempo destrutivo que tudo devora), tendo destronado o seu pai. É mais conhecido por ser o pai dos primeiros deuses olímpicos, nomeadamente Zeus, Poseidon e Hades, os quais engoliu ao nascer por medo de ser destronado. Foi, no entanto, derrotado e aprisionado por Zeus

[8] Na mitologia grega, Prometeu (Promēthéus, que significa "aquele que pensa antes" ou "antevisão") foi um Titã da segunda geração, famoso por ser o criador e protetor da humanidade.

[9] Teseu foi um herói da mitologia grega, filho do rei Egeu de Atenas, famoso por ter derrotado o Minotauro no Labirinto de Creta. É aclamado como um dos maiores heróis atenienses, simbolizando a força, a inteligência e o estabelecimento de uma sociedade organizada.

[10] "especifica o comportamento desejado para os nossos modelos".

[11] Comando/instrução.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

PROBLEMAS EM CONCÍLIOS PARA CANDIDATOS AO PASTORADO

 

Desde os tempos em que fui seminarista, lá pelos idos 1979 a 1983, frequentei, e ainda frequento, os eventos conciliares para ordenação de seminaristas ao pastorado. Sempre me detenho em observar os tipos de perguntas e como as mesmas eram, e são, apresentadas aos candidatos. Nesses eventos, sempre me intrigaram as perguntas retóricas, as "cascas de banana" e as perguntas para as quais as respostas fogem ao consenso doutrinário dos Batistas. Por este prisma, parece que o problema dos concílios não são os candidatos, mas os examinadores (quase escrevo: exterminadores, pois que, no mais das vezes, aniquilam um bom senso razoável).

A referência a perguntas retóricas leva em consideração o fato de que há certas questões cujas respostas são conhecidas mesmo antes de sua emissão. Perguntas como: Você pretende ter um bom relacionamento com a Ordem dos Pastores?; Se você encontrar um dinheiro, esquecido pelo tesoureiro da igreja após o culto, você entrega a quantia ao responsável ou fica com ela?; Se uma irmã da igreja insinuar-se para você, qual será sua reação? Você seguirá as decisões da assembléia administrativa de sua igreja? Para estas perguntas e outras do tipo, que resposta espera-se do candidato? Por acaso, a resposta fugirá ao esperado? No entanto, esse tipo de pergunta é apresentado ao candidato, por parte do examinador, com a maior aparência de sabedoria.

Quanto às cascas de banana, são feitas abordagens com a intenção, aparente ou não, de encurralar o candidato e vê-lo ficar nervoso ou na condição de ignorante; perguntas que não são prerrequisitos para habilitação ao pastorado, até porque ninguém é obrigado a saber de tudo, mas apenas o necessário à sua aprovação. Perguntas do tipo: qual o assunto da carta aos colossenses? Perguntas sobre calvinismo e arminianismo, como se essas posições teológicas esgotassem as possibilidades de enxergar a soteriologia e os batistas fossem unânimes sobre esse ponto. Neste particular, lembro-me da pergunta que me foi feita, no meu concílio: Qual o termo do pastor? Eu fiquei a pensar, mas não conseguia responder. Um dos presentes insurgiu-se e bravejou: "Diz a ele para ser objetivo!". Infelizmente o tal examinador não foi objetivo.

Por fim, as respostas que fogem ao consenso doutrinário dos Batistas. Nesse particular, entendam-se as questões que não encontram acordo nas respostas entre as cabeças pensantes da denominação e muito menos entre os leigos, por mais que se esmerem na busca de acordos ideológicos. Há questões que jamais serão definidas de forma a um entendimento unânime na compreensão sobre as mesmas. São aquelas perguntas sobre a posição escatológica assumida pelo candidato; perguntas sobre a posição teológica do candidato sobre o tipo de ceia correto; perguntas sobre o tempo da grande tribulação; e outras nesta esteira. São questões que não encontram unanimidade nas respostas por parte dos teólogos batistas.

Em função destes pontos apresentados, parece haver a necessidade de que os examinadores também sejam orientados sobre como serem mais objetivos e racionais em suas inquirições. Parece ser também necessário uma orientação sobre uma objetividade nas questões pertinentes. Estas questões são aquelas que não devem faltar num concílio, mas que devido à falta de preparação do examinador, são esquecidas ou mal elaboradas, muitas vezes prejudicando o examinando.

A esperança é que, quem sabe, um dia haja um melhor direcionamento nos concílios e uma satisfação mais recomendável aos futuros participantes.

Antes que eu esqueça: A resposta quanto a qual seja "o termo do pastor", acreditem, é o termo "ternura". E o texto bíblico: Salmo 23. Pasmem!

Finalizo, parabenizando aos que conseguem se safar de examinadores medíocres, os quais se portam como se fossem sumidades nos assuntos conciliares.

Willians Moreira Damasceno

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Teologia como ciência

 

De um ponto de vista prático, até que ponto é possível conceituar a Teologia como uma ciên­cia?

Se dependermos de uma verificação dos postulados teológicos em laboratórios, não é possível (este é o ponto culminante da ciência conceitualmente padronizada). No entanto, quanto aos aspectos metodológicos, estatísticos, e de sistematização, a teologia anda em paridade com a ciência, pois que procede igualmente quanto ao objeto apreendido em seu estudo. Nestes aspectos também está no mesmo diapasão da filosofia.

Quanto à questão de verifica­bilidade, concebe-se que os teólogos procedem a uma verificação dos seus postulados. Enquadra-se nesse âmbito a verificação de aplicabilidade de suas conclusões à situação humana à qual o estudo teológico é dirigido. Em teologia, como em ciência, não se permite radicalização. Se no passado foi assim, hoje não mais se permite absolutizações de conceitos que são passíveis de reexame.

Dizer que a teologia é um conhecimento infalível é desviar-se do objetivo buscado pelos próprios teólogos. Estes entendem que suas proposições podem ser revistas diariamente, em face de novos raciocínios. Isto evidencia que a ciência teológica, como qualquer ciência, é passível de erros. É precária a teologia que não aceita um reexame dos seus postulados. É inadmissível considerar indiscutíveis as supostas verdades teológicas. O próprio fato de haver várias e diversas teologias (como há várias e diversas abordagens científicas de um mesmo fenômeno) implica na discutibilidade da ciência teológica.

Quanto à exatidão, só é possível ratificar a teologia quanto ao aspecto da razão e/ou da lógica (a verificabilidade dos postulados teológicos não é possível em termos de ciência tecnológica). Isto significa que toda e qualquer conclusão teológica dependerá sempre e puramente dos ditames do raciocínio.

Assim, tanto características científicas quanto filosóficas são aplicáveis à Teologia; nunca esquecendo que a teologia possui car­acterísticas que só a ela são peculiares: quanto ao aspecto valorativo (proposições a respeito do sagrado) e ao aspecto supostamente inspiracional (lidar com a revelação sobrenatural).

Como diz David Clark, “Ciência não é apenas uma coleção de fatos, mas a desco­berta e a afirmação das leis que a regem” (CLARK, 1988, pág. ___)¹. Sendo assim, a Teologia, como ciência, junta e dispõe os supostos fatos teológicos, indicando a relação que há entre eles.

Por um prisma teológico, a teologia estuda o que se pode conhecer do ser divino e tudo aquilo que se relaciona ao mesmo. A teologia está, via de regra, relacionada à religião. No dizer de Langston, “a teologia esta relacionada com a religião, assim como a botânica com a vida das plantas” (Langston, 1991)². Assim pensa Langston, pois crê que a religião é algo natural e instintivo ao homem. Para Langston seria impossível haver teologia sem religião. Esta asseveração parece um tanto presunçosa. Isto não seria o mesmo que dizer que a existência das drogas requer, necessariamente, o viciado ou que o cientista precisa ser necessariamente um toxicômano? Esta maneira de pensar parece refletir a crença de que é impossível ser teólogo sem ter fé. O que é completamente questionável. Que a botânica depende das plantas, não se discute. Um fato é o fenômeno; outro fato é o estudo do mesmo. Aquele é necessário; este é contingente. A teologia pode estar relacionada com a religião, mas a sua dependência está em relação apenas ao metafísico, ao fenômeno estudado, no caso, uma divindade e suas supostas manifestações. A existência de uma divindade não requer necessariamente um venerador seu, nem um estudo a seu respeito. Quem estuda o fenômeno divino pode até ser seu venerador, mas não necessariamente. E, como se prescreve em ciência, um estudo devido de um fenômeno requer o máximo de afastamento subjetivo do objeto estudado. Se não se consegue afastamento absoluto, pelo menos o máximo possível.

 

Toda teologia é antropológica

 Como extensão desta abordagem, pode-se dizer ainda que não há teologia que, em sua natureza, não seja puramente antropológica. Dizer “teologia teológica” é o cúmulo do absurdo. Quem faz teologia não é a divindade. Assim como quem faz a botânica não são as plantas. O religioso, via de regra, não questiona os dogmas de sua fé. O teólogo faz isto constantemente. Um problema no qual muitos incorrem é o de não transporem a linha entre religião e teologia. E isto compromete irracionalmente o labor teológico.

 

O Laboratório da teologia 

Entendendo-se a teologia como ciência, onde estaria o seu “laboratório”? Ora, as ciências fatuais têm os seus laboratórios para praticarem a investigação científica. A investigação teológica tem o seu “laboratório” na bibliografia, nos congressos teológicos e na relação interdisciplinar com outras ciências humanas. Nesta empreitada, o teólogo é tão cientista quanto qualquer outro pesquisador. A elaboração de documento acadêmico é imprescindível. A discussão com objetivo de intercâmbio das idéias deve ter obrigatoriedade. O encontro com o diverso requer-se improrrogável. Nesta atmosfera, até que ponto seria viável esperar que o teólogo labore a sua tarefa ao mesmo tempo em que ora (se for religioso)? Não seria o mesmo que exigir que o farmacêutico seja também um toxicômano, embora, em certa dose, o estudo possa admitir certo uso de droga em si mesmo, com consciência dos perigos envolvidos na experiência. Até que ponto o teologar religiosamente não comprometeria as conclusões teológicas? Não seria o mesmo que abraçar o assassino do próprio filho. A teologia, como qualquer ciência, exige o máximo de desprendimento emocional. É evidente que ao homem é impossível o isolar-se cabalmente do objeto estudado. Mas a exigência do distanciamento não deve ser relaxada. Se o teólogo não consegue ser filosófico em relação ao seu objeto de estudo, o comprometimento com a unilateralidade estará patente. Eis um dos problemas de alguns teólogos: religiogizar a teologia. É o caso de Libanio e Murad, quando dizem que “teologia é diálogo entre o homem e Deus na comunidade eclesial” (Libanio & Murad, 1996, pág. 71)³. O diálogo com a comunidade é imprescindível, mas se não “sair” da comunidade, tenderá a dizer somente o que ela quer ouvir.

            Portanto, como ciência, a Teologia é uma disciplina antropológica que estuda a divindade e o sagrado, supostamente revelados, na busca de direções para a existência humana, verificando e reconhecendo suas limitações de raciocínio quanto ao alcance do possível conhecimento exato sobre o sobrenatural ou metafísico.

Willians Moreira

 

Referência Bibliográfica

1. CLARK, David S. Compêndio de teologia sistemática. 2ª ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1988.

2. LANGSTON, A. B. Esboço de Teologia Sistemática. 10ª ed., Rio de Janeiro: JUERP, 1991.

3. LIBANIO, J. B. & MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

 

 

http://teo-filo-lit-wm.blogspot.com/2009/05/teologia-como-ciencia-de-um-ponto-de.html#links

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

TEMPO E ETERNIDADE

Que é o tempo?

Como explicar a natureza do tempo?

Tempo absoluto e/ou tempo relativo?

Quais as implicações do pensamento sobre a natureza do tempo?

Como se sabe que o tempo passa?

Que é eternidade?

Qual a diferença entre tempo e eternidade? Existe uma diferença?

 

A noção comum que se tem de tempo, mesmo que seja complicado explicar a sua natureza, parte de como o mesmo é medido ou contado. Para medir o tempo o homem criou o calendário, o relógio, e tantos outros apetrechos que para isso lhe servissem. Estes dispositivos estão vinculados basicamente à mudança dos astros, sol e lua, na sua trajetória pelo firmamento. Os dias passam porque o sol nasce e se põe, num período de 24 horas, de um nascer do sol a outro. A cada 24 horas, portanto, convencionou-se que se passa um dia. A passagem dos dias gera a passagem dos meses e assim sucessivamente. Portanto, é a partir do movimento do sol que se concebe, basicamente, a passagem do tempo. Numa perspectiva popular, isso significa que o tempo está vinculado à percepção do movimento dos astros. É este movimento que imprime nos homens a sensação da passagem do que se chama tempo. Não é à toa que o primeiro livro da Bíblia, o Gênesis, no seu primeiro capítulo, vincula o tempo aos astros celestes. O tempo, portanto, pode ser dito como sendo a presença de movimento de referenciais que aponta para uma transformação na aparência das coisas observáveis. Coisas observáveis podem ser entendidas como coisas objetivas; objetivas enquanto concretas, como o sol, a lua, um carro, um corpo, uma árvore, etc.

Diz-se que o tempo passou quando um homem de 49 anos se vê no espelho e percebe a mudança em sua aparência porque se lembra de quando tinha 14 anos de idade ao ver uma foto daquela época. Em face de uma dieta que mude a aparência do corpo humano, pensa-se no antes, no agora e no depois de tal dieta. Com esta visão diz-se que o tempo passou. Por quê? Porque o "antes" refere-se ao dia no qual foi iniciada tal dieta; o "agora" pode estar duas semanas após o início da dieta e o "depois" está no projeto de como se pretende parecer após o término da dieta.

O que é, pois, o tempo?

De uma perspectiva subjetivista, O tempo é também o transcurso entre a memória do "antes", a sensação do "agora" e a esperança do "depois". Tempo é nada mais, nada menos que a sensação de movimento acontecido no reino do observável.

            Nesta compreensão de tempo envolve-se a subjetividade quanto à memória do passado e a esperança ou projeto de resultados, como também a sensação do presente que envolve tanto a subjetividade quanto a objetividade de quem observa o movimento dos acontecimentos.

Pode-se então conjecturar sobre a eternidade como a ausência de movimento. Assim sendo se a eternidade for entendida como dimensão fora do tempo.

Se a eternidade existe, como conceber nela objetos observáveis, referenciais que, a depender do observador, apontariam para o fato do movimento, desde que se pense no movimento como vinculado ao tempo, porque dependente de referenciais?

E, como se não bastasse, se existe um ser na eternidade, não estaria sujeito a movimento ou a qualquer sombra de variação. Seria um ser estático, cuja natureza seria inconcebível por seres que estão no reino do movimento.

Decorre deste raciocínio a impossibilidade de seres temporais ou do reino do movimento viverem de per si na eternidade, se esta for concebida como realidade à parte do tempo. A menos que estes seres entrem no estado de estaticidade, portanto de nenhum movimento. Assim, se há algum tipo de vida na eternidade, não seria de forma alguma parecida com esta do reino do movimento. A menos que se pense a eternidade como tempo sem fim e não como dimensão paralela ao reino do movimento, o que implicaria num tempo absoluto, sem necessidade de referenciais, contendo o próprio tempo que depende de referenciais percebidos pelos seres humanos.

Outra forma de pensar o tempo é entendê-lo como vinculado ao movimento do pensamento, afinal o movimento implica num "antes" pensado e num "agora" também pensado. O que parece ser difícil é pensar situado num "depois", pois que o pensar estar sempre num presente. É possível a memória de se haver pensado ontem. Porém, um pensar amanhã é apenas um projeto não realizado, portanto, não existente como pensamento e sem garantia de que acontecerá. Assim sendo, o tempo, pela perspectiva do movimento do pensamento, só acontece, só é real (se assim pode ser dito) no presente. Dessa forma, duas dimensões, passado e futuro, são eliminadas; na verdade, ambas, de fato, não existem, pois que uma é só memória e a outra é só projeto.

Partindo-se do pressuposto de que o tempo está na dimensão do movimento e se eternidade é o seu contrário, ou seja, é realidade estática, ou seja, nela não há movimento, até que ponto é possível conceber um ser eterno, ao mesmo tempo em relação com seres vinculados à dimensão do tempo, entendendo-se que toda relação entre seres interagentes implica movimento? Como entender que um ser alheio ao movimento, à mudança, não limitado por uma percepção vinculada a referenciais, pode, ao mesmo tempo, ser referencial para outros seres? Haveria possibilidade de existir um referencial que não tivesse referenciais? Ser referencial parece implicar em se vincular ao tempo. O que, por sua vez, é estar vinculado ao movimento e, portanto, à perecibilidade. Isto parece não se vincular a um ser eterno, desde que se pense a eternidade como realidade diversa do tempo. E se assim não o for? A menos que eternidade seja apenas um sinônimo de tempo absoluto, o qual conteria o tempo relativo. Neste caso, o que teria dado início a este movimento? Questionando-se desta forma, chega-se à pergunta pela possibilidade de um ser que extrapole o tempo e a eternidade. Assim, em que dimensão se enquadraria esta entidade? Parece que neste ponto a linguagem torna-se precária para apresentar termos que nomeiem tal ser. Admitir por outro lado que a eternidade é a dimensão da entidade criadora do tempo relativo é admitir que há algo não criado paralelo àquela entidade, o que vem a ser a própria eternidade ou tempo absoluto.

Se o tempo for pensado pela perspectiva da Teoria da Relatividade de Einstein, parece ratificar-se mais ainda o fato de que o tempo é puro movimento sujeito à relatividade da velocidade de um objeto em movimento. A sua passagem ou o seu movimento não terá a mesma percepção, dependendo do observador e de como se processa a velocidade do movimento. Ora, se quanto mais velocidade houver, mais lentamente o tempo passará, que velocidade poderia haver na eternidade que levaria o tempo a praticamente parar? Mas como pensar num tempo estático, absoluto, se é dependente do movimento? Seria possível pensar em eternidade vinculada à velocidade, se isto vincularia aquela ao movimento? E uma vez havendo movimento na eternidade, existiria nela também perecibilidade necessariamente? A menos que, repita-se, eternidade seja tempo sem fim. E se assim o for, até que ponto o próprio ser eterno não perderia seu caráter de eternidade? O que se torna um paradoxo, para não dizer uma contradição. Parece que a questão mais fundamental passa a ser a natureza do ser vinculado ao tempo absoluto e dos seres vinculados ao tempo relativo e a possibilidade de estes participarem daquele.

Questione-se!!!!!

Willians Moreira Damasceno

domingo, 17 de março de 2013

HOMOFÓBICO OU MISÓHOMO?

HOMOFÓBICO OU MISÓHOMO?

Saltou ao meu juízo o questionamento sobre o porquê de se identificar como homofóbico alguém que tem aversão a homossexual. Fiquei a considerar a etimologia da palavra. Logo surgiu a pergunta: O que é fobia? Em grego[1], o vocábulo é phobos. Sua semântica original aponta para temor, terror ou espanto (susto). Outro vocábulo é déos, com o sentido de medo, respeito, reverência, temor respeitoso. E mais outro, deima, também com o sentido de temor, espanto (susto)[2]. O sentido que a palavra fobia adquiriu na língua portuguesa não tem, necessariamente vínculo semântico com o phobos em seu sentido etimológico. Na verdade, em português, phobos adquiriu um sentido técnico-científico, relacionado à psicologia e à psiquiatria. Nestas ciências, phobos identifica enfermidade. Se alguém tem fobia precisa de tratamento. Que o digam os profissionais das áreas referidas.

O neologismo homofobia foi cunhado pelo psicoterapeuta norte-americano George Weinberg[3], desde a década de 60, século XX,  apresentado no ano de 1972, com o livro “Society and the Healthy Homosexual”[4], [5]. Naquele momento, o senhor Weinberg usou o termo homofobia para se referir a um estado irracional de mente, literalmente: “suffering from a psychological malady”[6], que seria manifestado por alguém que tem aversão a homossexual. Há muito tempo, esse termo assumiu um significado que vai muito além daquele que o psicoterapeuta norte-americano intencionou. Hoje o termo refere-se a atos de discriminação contra homossexual. Significa dizer que uma conceituação de homofobia ao pé da letra não faz jus ao seu significado popular. Um conceito ao pé da letra também não faz jus ao sentido que o psicoterapeuta deu, quando cunhou a palavra. Percebe-se, pois, que o uso corrente encarregou-se de somar mais e mais sentidos ao termo, como é comum no fenômeno linguístico.

O dicionário de psicologia, a partir do Blog PSICOLOGIA ACADÊMICA, conceitua fobia como termo que vem

(do gr. Fóbos, meter medo, espantar). Medo irracional e obsessivo de certos objectos, seres vivos ou situações, segundo a -> psicanálise, é um sintoma de ---> neurose ou de ---> angustia que tem origem num ---> conflito ---@ inconsciente. S. ---> Freud designou-se por histeria da angústia[7].

As palavras irracional, obsessivo e neurose apontam para uma condição de enfermidade.

O glossário de psiquiatria, contido no blog: Psiquiatria Geral[8], apresenta fobia como

Medo irracional e persistente de um objeto, atividade ou situação específicos (o estímulo fóbico), ocasionando um intenso desejo de evitá-los. Isto frequentemente leva o indivíduo a se esquivar do estímulo fóbico ou a enfrentá-lo com temor. A Fobia é um medo específico intenso o qual, na maioria das vezes, é projetado para o exterior através de manifestações próprias do organismo. Essas manifestações normalmente tocam ao sistema neurovegetativo, tais como: vertigens, pânico, palpitações, distúrbios gastrintestinais, sudorese e perda da consciência por lipotimia. As manifestações autossômicas externadas pela fobia têm lugar sempre que o paciente se depara com o objeto (ou situação) fóbico.

Portanto, este conceito também aponta para uma situação enfermiça. Fica mais patente que o indivíduo fóbico precisa de tratamento especializado.

Os humanos sofrem de muitas fobias. Algumas podem ser citadas: Acrofobia (medo de altura), agorafobia (medo de multidão), aracnofobia (medo de aranha), hidrofobia (medo de água, e no caso, águas profundas), hematofobia, claustrofobia, antrofobia, androfobia e outras tantas.

Neste passo, merece atenção um texto encontrado no site da ONU:

Em última análise, a homofobia e a transfobia não são diferentes do sexismo, da misoginia, do racismo ou da xenofobia. Mas enquanto essas últimas formas de preconceito são universalmente condenadas pelos governos, a homofobia e a transfobia são muitas vezes negligenciadas[9].

Nesta citação, a palavra fobia está associada a outros termos para nivelá-los no sentido de serem reações problemáticas que precisam de reação dos governos. O meu questionamento é: Como os governos tratarão os fóbicos, citados no texto da ONU? Ou seja, desde que fobia é enfermidade, como será tratado o transfóbico (discriminação contra transexuais e transgêneros), o homofóbico e o xenófobo (do grego, medo de estrangeiro, mas o sentido técnico usado é o de aversão a estrangeiro). Prendê-los-á, como pode ser o caso de procedimento contra ativistas racistas, sexista, e outros? Não seria melhor colocá-los num hospital psiquiátrico? Afinal eles estão enfermos. Eles contraíram uma fobia. Alguém dirá que o autor deste texto está errado, pois o sentido de fobia quando aplicado ao sentimento de ódio a homossexual é outro. Como já foi visto, é verdade. Mas o argumento em princípio é o de que o termo, no varejo, está mal empregado. Desde que o seu criador era um psicoterapeuta, certamente o sentido do termo era atinente à saúde mental. Porque se aquele psicoterapeuta houvesse dado ao termo em questão o sentido que hoje campeia, teria sido muito infeliz na criação do neologismo. Observem-se as outras palavras identificadoras de problemas a serem tratados pelos governos: sexismo, misoginia, racismo e xenofobia. Parece que os termos associados a fobia foram “inventados”, a partir do grego, por alguém que não pensou melhor sobre o sentido dos mesmos; ou não atentou para a existência de termos mais adequados ao que eles queriam expressar. Ou, quem sabe, o uso social vai modelando os sentidos destes termos com o passar do tempo, ocasionando um sentido bem diverso do que idealmente deveria ter ocorrido.

O que é sexismo, por exemplo? Quando se diz que alguém é sexista, geralmente quer se dizer que o tal é machista. E, neste caso, até mulher pode ser sexista. Neste sentido há um sentimento de menosprezo ao sexo feminino. Em sentido restrito e devido, sexismo implica em procedimentos, concretos e teóricos, que beneficiam a um determinado gênero ou orientação sexual.

O que é misoginia? Este termo foi elaborado a partir das palavras gregas, mísos (ódio) e gynê (mulher), implicando no sentido de ódio, desprezo à mulher. Um misógino é alguém que não gosta de mulher. E, neste caso, a misoginia pode ser sentimento tanto de homem, como de mulher. o sociólogo Allan G. Johnson disse: "a misoginia é uma atitude cultural de ódio às mulheres porque elas são femininas"[10]. Pode acontecer o fato de alguém que é misógino tornar-se sexista, com possibilidade também do contrário acontecer.

Agora, o que é racismo? Trata-se de ideologia que preconiza a existência de raças humanas e da superioridade de uma sobre outra ou outras. Essa ideologia pode envolver um pensamento mais ou menos elaborado, partindo preconceituosamente de teorias biológicas. Racismo envolve um sentimento de aversão a outros povos, etnias, etc. Estas três manifestações humanas são evidentemente problemáticas e passíveis de reação política governamental.

Ora, diante destas conceituações, pode-se depreender que os termos não são escolhidos com o devido esmero linguístico. Escolhe-se tal palavra grega, sabe-se lá como, e todo mundo passa a utilizá-la sem uma análise crítica da mesma.

Qual é o problema a enfrentar? Ora, se alguém padece dos sintomas seguintes, como transpiração excessiva, taquicardia, náusea, vertigem, calafrios, dor no peito, sensação de falta de ar e formigamento (sintomas de fobia) quando se aproxima de uma pessoa homossexual, então é passível de ser tratado por um profissional da saúde. Mas se o indivíduo apenas não gosta ou tem aversão a homossexual, então podem entrar em campo os emissários do governo, como propõe o texto da ONU. Qual é o mal do racista, por exemplo? É ter aversão a alguém que não tem as suas mesmas características raciais[11]. Mas se o cidadão não tem aversão nenhuma, nem sofre dos sintomas citados, apenas não concorda com a prática homossexual, que outro nome pode ser dado ao tal? Da mesma forma que alguém não concorda com outras práticas consideradas por ele como imorais e faz resistência às mesmas, pode também considerar a prática homossexual como imoral e, por conta disso, ser contrário à mesma. Não devendo, evidentemente, usar de termos agressivos contra os praticantes daquela suposta prática sexual. Assim, já não se trataria de aversão qualquer ou enfermidade, mas de uma questão de princípios pessoais adotados por tal pessoa. Consequentemente não cabe à mesma o termo homofóbico.

Daí então a pergunta: Diante do conceito técnico-científico dado à fobia, qual seria o melhor termo grego para expressar a aversão que alguém sente pela homossexualidade, chegando mesmo a usar de agressividade?[12] Existe termo grego adequado ao caso. É o que se verá a seguir.

Siga-se o raciocínio seguinte: A palavra homossexual foi forjada a partir do grego, homós [13] (igual) e do latim, sexus (sexo). Resultado: homossexual. Ou Seja, sexo igual, mais propriamente a ideia é: ter atração sexual por alguém do mesmo sexo. Para se identificar a reação contrária a este interesse sexual, pensou-se na palavra grega phobia, unindo-a a palavra homós, surgindo assim, homofobia. Por que o criador de tal proeza linguística não atentou bem para o sentido de phobos, pelo fato de que seu significado é apenas medo? Será que o seu criador queria mesmo dizer que se alguém é homofóbico está mesmo enfermo? Ou será que ele não gostou da palavra mísos?

Como foi visto, do grego, mísos (ódio, aversão) e gynê (mulher). Partindo-se do pressuposto de como a palavra homofobia foi forjada, pode-se fazer uma mudança, colocando-se a palavra “mísos” no lugar de fobia. A palavra proposta apareceria assim: homómiso ou “misóhomo”; literalmente: Ódio ao igual, aversão ao semelhante, ou, como aconteceu com homofóbico, aversão a quem gosta de sexo com pessoa do mesmo sexo. Acredito que, desta forma, melhor estaria identificado o indivíduo que tem aversão ao homossexual. Esse sim, estaria no mesmo pé de igualdade com o racista, com o misógino, com o misantropo, com o xenófobo (e por que não misóxeno?). E assim os governos poderiam agir devidamente em suas políticas antiperversidade.

Agora não sendo mudada a palavra que identifica os que têm aversão ao homossexual, há de se enfrentar a consideração de enfermidade atribuída aos chamados homofóbicos por conta do peso técnico-científico de quem é identificado como fóbico. É aí que mora outra problemática: os identificados como homofóbicos pelos homossexuais poderão recorrer também à justiça para denunciar o fato de que estão sendo discriminados como enfermos, quando, na realidade, não o são. E se o são, por que não são tratados como tais? Poderiam requerer laudo médico diante do juiz, por parte de quem os discrimina. Resolva-se o caso! Ora! O problema se agrava, de vez que os homossexuais estão a rejeitar o termo homossexualismo como referência à pratica homossexual, alegando que o tal termo refere-se a enfermidade, como é o caso de botulismo, raquitismo, etc. E homossexual não se considera enfermo. Por que o indivíduo que tem aversão a homossexual aceitaria ser colocado entre os fóbicos? Pior ainda, os cidadãos que não tem aversão a homossexual, mais apenas rejeitam a prática como obscena, poderiam também recorrer aos tribunais, pois que também não estão enfermos.

En passant, alerto aos amigos homossexuais, que precisam entender que a sociedade sempre faz resistência ao que é “novo” para ela. Uma resistência semelhante aconteceu em relação a outras aproximações de mudanças. O desquite e o divórcio receberam resistências semelhantes. É sabido como os divorciados são vistos ainda em alguns setores da sociedade; a segregação que sofrem e os vitupérios que são forçados a ouvir, por conta de serem considerados adúlteros se contraem novas núpcias, por exemplo, por muitos religiosos. Portanto, caros amigos homossexuais, tenham paciência. Paulatinamente, a sua hora chegará. Lutem, mas não agridam! Se assim o fazem, igualam-se aos seus aversivos. E se não seriam considerados fóbicos, sê-lo-iam, no mínimo, mísos, pois estariam também expressando uma aversão aos seus contrários.

Vale aqui o estribilho da Canção dos Tamoios, de Gonçalves Dias:

A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

Willians Moreira Damasceno


[1] Por conta de muitos internautas não possuírem a fonte de letra grega que poderia ser usada pelo autor, as palavras gregas serão transliteradas.
[2] A língua grega ainda possui outras palavras que são associadas ao medo, como panikós, tromára, phríkê, phikaleótêta.
[3] Se interessar a leitura de uma entrevista com o psicoterapeuta: http://www.pflagdetroit.org/george_weinberg.htm
[4] http://en.wikipedia.org/wiki/George_Weinberg_(psychologist) – site visitado em 17 de março, às 05:40 h.
[5] Comments on the psychological factors underlying hostile public attitudes toward homosexuals and offers counseling to help individuals accept their homosexuality”. http://us.macmillan.com/societyandthehealthyhomosexual/GeorgeWeinberg.
[6] Idem – em 17 de março, às 05:40 h.
[8] http://www.psiquiatriageral.com.br/glossario/f.htm. Consultado em 14/03/2013, às 09:21 h.
[11] O conceito de raça perdura apenas no âmbito social e político, embora cientificamente não seja mais adequado esse conceito.
[12] O questionamento é pertinente, pois que os homossexuais, já instruídos, preferem a palavra homossexualidade à palavra homossexualismo, pois que ismo, neste caso, refere-se a doença. E homossexual não se como alguém portador de enfermidade por conta de sua sexualidade.
[13] Esta palavra grega possui um sinal sobre a sua primeira letra (omicrón), chamado aspiração áspera (um apóstrofo ao contrário – ‘ ) que tem o som do hagá inglês (house). A nossa palavra hora também vem do grego e tem o mesmo sinalzinho. Por isso que se coloca um hagá antes de hora, homossexual, hospital, e outras palavras. Mas a nossa palavra “rodovia”, que vem também do grego, hodós (pronúncia: rodós - caminho, estrada), é pronunciada levando-se em consideração o som do hagá inglês, que resultou em som de erre. De sorte que, em grego, a pronúncia de hora é rôra; a de homós, é romós.